Há uma frase circulando por aí que diz mais ou menos assim: às vezes você entra na vida de alguém para dar aquilo que a pessoa nunca teve, e ela acaba mostrando por que nunca teve.
Achei um pouco cruel quando li.
Depois achei apenas precisa.
A vida tem dessas coisas. Passamos muito tempo acreditando que toda falta é uma injustiça. Nem sempre é. Algumas faltas são consequências. Há gente que não tem amigos porque encontrou pessoas ruins. Mas há também quem não tenha amigos porque conseguiu brigar com todos os bons que apareceram. Há quem nunca tenha sido amado como merecia. E há quem tenha recebido amor de primeira qualidade e devolvido como se estivesse reclamando de mercadoria com defeito.
Isso não se aprende nos livros. Aprende-se tomando café.
Aliás, quase toda grande filosofia poderia ter sido escrita numa cozinha.
É na cozinha que alguém abre uma geladeira cheia, olha durante cinco minutos e anuncia:
— Não tem nada para comer.
Talvez esteja aí uma explicação razoável para boa parte da infelicidade humana.
A geladeira está cheia. O sujeito está vazio.
Mas não vamos exagerar na filosofia porque o café esfria.
Há também aquela pessoa que pede conselho.
— Preciso conversar com você. Quero saber sinceramente o que você acha.
Essa palavra, “sinceramente”, deveria vir acompanhada de bula.
Você começa:
— Olha, já que você perguntou…
Pronto.
Ela não perguntou.
Ela queria apenas que você concordasse.
Em poucos segundos, o conselho desaparece e começa o julgamento do conselheiro. A pessoa abre um arquivo imaginário, aparentemente organizado há décadas, e dispara:
— E você? Lembra daquela vez em 2007? E aquilo que você fez? E aquele seu defeito? E aquela história?
Você entrou na conversa como amigo e, de repente, descobre que havia contra você um inquérito sigiloso de quinze anos.
Melhor teria sido deixá-la sozinha com o problema.
Ou, pelo menos, ficar fora do liquidificador.
Nossos avós resolviam essas coisas com extraordinária economia de palavras.
Eles não diziam “estabeleça limites”.
Diziam:
— Não acostuma mal.
Não conheciam “relacionamentos tóxicos”. Conheciam gente ruim.
Não falavam em “gestão de expectativas”.
Diziam:
— Não espere muito.
Também não estudaram inteligência emocional, mas sabiam exatamente a hora de ficar quietos.
Talvez fosse inteligência emocional sem certificado.
E existem pequenas coisas que revelam muito.
Quem trata mal o garçom provavelmente tratará mal você quando não precisar mais impressioná-lo.
Quem chega sempre atrasado e acha engraçado talvez não tenha problema com relógio. Talvez apenas considere o tempo dele mais importante que o seu.
Quem fala mal de todos os antigos amigos provavelmente terá alguma coisa interessante para contar sobre você quando chegar a sua vez.
São pequenas placas colocadas pela vida.
O problema é que gostamos de entrar mesmo assim.
Depois reclamamos que não havia aviso.
Havia.
Nós é que estávamos apaixonados, esperançosos, distraídos ou querendo ser a exceção.
“Comigo ele(a) muda.”
Essa frase já sustentou mais tragédias que Shakespeare.
E existe ainda nosso impulso quase missionário de oferecer às pessoas aquilo que imaginamos que lhes faltou: carinho, lealdade, presença, amizade, confiança, oportunidade.
Às vezes dinheiro, o que costuma acelerar bastante o aprendizado.
Você olha para alguém e pensa:
“Essa pessoa nunca encontrou quem realmente estivesse ao lado dela.”
Então você fica ao lado.
Pouco depois começa a compreender por que havia tanto espaço disponível.
É desconcertante.
Você entrega confiança e a pessoa testa até onde pode abusar dela. Entrega presença e ela transforma em obrigação. Entrega carinho e, algum tempo depois, passa a cobrá-lo como prestação vencida.
O ser humano possui uma habilidade impressionante para transformar privilégio em rotina e rotina em direito.
Experimente emprestar sua garagem para alguém durante um mês.
Na primeira semana:
— Muito obrigado!
Na segunda:
— Vou deixar o carro aqui, tá?
Na terceira:
— Você vai precisar da garagem hoje?
Na quarta, se você colocar seu próprio carro lá, corre o risco de ouvir:
— Ué?
O “ué” é um dos grandes documentos da civilização.
Cabe uma tese inteira dentro dele.
Talvez a sabedoria não esteja em deixar de ajudar. Seria triste chegar a essa conclusão.
Talvez esteja em observar o que cada pessoa faz com aquilo que recebe.
Há quem receba pouco e multiplique.
Há quem receba muito e reclame da embalagem.
Há quem nunca esqueça uma mão estendida.
E há quem, depois de subir, reclame que a mão estava suada.
A vida ensina essas coisas sem quadro-negro.
Ensina numa amizade, num casamento, numa sociedade, numa dívida que nunca volta, numa mensagem visualizada às 14h37 e respondida três dias depois:
— Desculpa, correria.
Todo mundo anda numa correria impressionante.
Curiosamente, ninguém corre para devolver dinheiro.
Mas continuamos ajudando, gostando, confiando, abrindo portas e servindo café.
Talvez porque o erro não esteja em oferecer a alguém aquilo que nunca teve.
Talvez esteja em imaginar que todo mundo sabe o valor daquilo que recebeu de graça.
E, de vez em quando, depois de muito tempo tentando entender por que determinada pessoa nunca teve amor, amizade, lealdade, confiança ou alguém verdadeiramente ao lado dela, a vida nos concede uma resposta.
Não vem por escrito.
Não chega por e-mail.
Não precisa de explicação.
A própria pessoa explica.
E geralmente explica muito bem.
João Roberto Giacomini
Advogado & Escritor



