Elairton Gehlen – escritor –

O tempo, no fim de semana, é diferente do tempo nos outros dias.  

Fim de semana no tempo de quarentena a cidade fica meio sem histórias para serem contadas, as ruas sentem falta do comércio e os bares ficam constrangidos de fazer aglomerações, por mais que o desejo de juntar gente às vezes fica maior do que o medo da fiscalização.  

Num desses locais, dois amigos bebiam o fim de semana despreocupados quando o atendente avisou do fechamento devido ao toque de recolher às dez da noite. Mas, no sábado? Já não se respeita mais nem o sábado? Reclamou o cliente. Sim disse o atendente, querendo dizer não. Dia de sábado não pode ter fiscalização, não é dia lícito para se trabalhar, disse o cliente na esperança de encontrar um argumento mais definitivo, e pediu mais uma cerveja, só mais uma! 

Não quero aqui defender que se desobedeça o decreto municipal do toque de recolher, também não posso defender seu integral cumprimento, dado que em algumas situações se faz jus a burla pelo necessário tratamento psicológico, muitas vezes em momentos como este, onde o amigo é o melhor terapeuta disponível e a cerveja, sem defender seu consumo exagerado, pode ser um grande remédio para a fadiga mental de uma semana de intensas cobranças por metas impossível na empresa. 

Feitas as devidas argumentações e contra argumentações, decidiu-se fechar o bar e manter o atendimento com uma reserva de cervejas numa caixa térmica, as luzes desligadas para disfarçar a fiscalização e o diálogo se deu entre os amigos. 

– Eu tenho sede, meu amigo. 

– Pois vou pegar mais uma… 

– Pegue! Eu tenho sede de viver, preciso achar um jeito de sair dessa bolha chamada sistema. 

– Bolha! Isso é um inchaço. 

– Transbordar! Permitir, alargar as fronteiras, fazer um tratado internacional de entendimento emocional. 

– Poesia, meu caro. Isso é poesia. 

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