A doutoranda Marcia, terceira da esquerda para a direita, e a professora Simone, quinta da esquerda para a direita, durante trabalho em laboratório/Divulgação

Muito difundido entre praticamente todas as culturas, o gengibre (Zingiber officinale) é uma planta originária do continente asiático, cujo caule – sim, sua parte usualmente consumida se trata de um rizoma e não de uma raiz – é empregado em diversos tipos de preparo, como especiaria, conserva, chá, sob a forma fresca, seca, em pó, entre tantas outras aplicações. No entanto, um de seus usos mais conhecidos é no tratamento caseiro dos sintomas de gripes, tosses e resfriados.
 
Já em um recorte científico, o gengibre é objeto de estudos mundo afora, principalmente para a investigação de suas propriedades antioxidantes, termogênicas, anti-inflamatórias, analgésicas e antimicrobianas. E é com base nesse último potencial da planta que um grupo de pesquisa de Dourados vem desenvolvendo estudos voltados a relacionar o uso do gengibre, na forma de óleo, e o tratamento de bactérias hospitalares multirresistentes.
 
Coordenado pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), na figura da professora Simone Simionatto, da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais (FCBA), o trabalho conta com parcerias com a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) – Campus Naviraí e o Centro Universitário da Grande Dourados (Unigran), resultando, recentemente, na publicação de um importante artigo na plataforma ScienceDirect, da companhia internacional de publicações Elsevier.
 
Sob o título “Zingiber officinale Roscoe essential oil: An alternative strategy in the development of novel antimicrobial agents against MDR bacteria” – em tradução livre, “Óleo essencial Zingiber officinale Roscoe: Uma estratégia alternativa no desenvolvimento de novos agentes antimicrobianos contra bactéria multirresistente” –, o texto aborda o trabalho realizado para a caracterização dos componentes de um óleo essencial de gengibre produzido pelo grupo e que foi testado contra bactérias resistentes a todos os tipos de antibióticos disponíveis.
 
A pesquisa, inclusive, integra o tema da tese da doutoranda Marcia Soares Mattos Vaz, orientada pela professora Simone no Programa de Pós-graduação da Faculdade de Ciências da Saúde da UFGD. Além da pós-graduanda e da docente, participam do estudo e assinam o artigo os pesquisadores Euclésio Simionatto, Eduardo João Coutinho e Maiara Viviane Oliveira dos Santos, da UEMS, Thiago Leite Fraga e Gustavo Gomes de Oliveira, da Unigran, e Gleyce Hellen de Almeida de Souza, da UFGD.
 
ÓLEO DE GENGIBRE
 
O estudo em questão se deu a partir da produção de um óleo essencial de gengibre, desenvolvido em uma etapa anterior do trabalho. A partir dele, o grupo passou a fazer experimentos para identificar e caracterizar os componentes do produto e, ainda, para testar sua eficácia contra bactérias multirresistentes isoladas de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de hospitais de Mato Grosso do Sul.
 
Caracterizadas também tais bactérias em fases anteriores da pesquisa, pôde-se constatar que se tratam de microrganismos causadores de infecções de difícil tratamento, resistentes aos antibióticos hoje existentes no mercado farmacêutico. Dessa forma, o óleo foi testado tanto in vitro (por meio de culturas celulares, isoladamente), quanto in vivo (em camundongos), para a verificação de seu potencial na inibição do crescimento das bactérias.
 
No teste in vitro, o grupo verificou que o óleo causou a lise da bactéria, ou seja, a destruição ou a dissolução do microrganismo, o que foi confirmado nos experimentos in vivo, feitos com camundongos. “No animal, induzimos um processo de infecção, fizemos o tratamento com o óleo e observamos que realmente ele é capaz de controlar o processo infeccioso dos camundongos”, explana a docente Simone Simionatto.
 
A pesquisadora explica que esse trabalho é o primeiro passo na descoberta de um novo composto que possa ter uma atividade antimicrobiana eficaz. “Muitos outros estudos ainda são necessários para que possamos ter um candidato ao desenvolvimento de um novo antibiótico”, diz a professora, que vem atuando no estudo de bactérias multirresistentes há quase dez anos.
 
A próxima etapa será a análise de cada componente do óleo, de forma isolada. “Precisamos verificar qual é o papel de cada um deles para identificar qual ou quais deles ou que associação entre esses componentes possuem atividade antimicrobiana. Feito isso, partiremos para testes em mais bactérias”, conta Simone.
 
Ela alerta que, mesmo diante de experimentos tão promissores, o uso indiscriminado e autônomo do gengibre ou de seus derivados, como o óleo essencial, não é eficaz quando feito de forma caseira, já que os testes estão sendo efetuados especificamente em bactérias encontradas em infecções hospitalares.
 
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), essas bactérias são responsáveis por alta taxa de mortalidade de pacientes e são consideradas microrganismos prioritários para o estudo voltado à formulação de novas terapias. Conforme o órgão internacional, em 2050, esse tipo de bactéria poderá tirar a vida de mais de 10 milhões de pessoas, o que corresponde a uma morte a cada três segundos. O uso indiscriminado de antimicrobianos e a escassez global de novos medicamentos agravam essa ameaça.
 
TRABALHO GRATIFICANTE

A doutoranda Marcia Soares Mattos Vaz, da Faculdade de Ciências da Saúde da UFGD, participou do estudo e fez dele o tema de sua tese, cuja defesa acontece em breve, no mês de julho. Graduada em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Paranaense e mestre em Ciências da Saúde pela UFGD, ela afirma estar sendo maravilhosa a possibilidade de integrar um grupo de pesquisa tão comprometido.
 
“Além de participar de um grupo de pesquisa muito sério e comprometido, eu e meus colegas fomos capazes de encontrar um produto que pode atuar contra essas bactérias, que representam perigo não somente no ambiente hospitalar restrito, mas, também, na sociedade como um todo, uma vez que elas já transcendem os limites das unidades de saúde e são muito prevalentes em infecções comunitárias, gerando situação sanitária delicada e perigosa, sobrecarregando ainda mais os sistemas de saúde do Brasil e do restante do mundo”, explica a pós-graduanda.
 
Ela conta que já havia passado pela experiência da busca por possíveis novos medicamentos durante o mestrado, quando pesquisou sobre a hiperuricemia (excesso de ácido úrico no sangue), também na Faculdade de Ciências da Saúde da UFGD, e que tal vivência é gratificante.
 
“É gratificante tanto para mim quanto para o grupo de pesquisa, pois sabemos que bactérias multirresistentes representam um grande problema dentro de UTIs em todo o mundo e estão frequentemente associadas a altas taxas de morbidade e mortalidade. Ou seja, comprovar que uma substância pode ser nova candidata no tratamento dessas infecções é de extrema importância”, comenta Marcia, alegando que pretende seguir atuando nessa linha de pesquisa e que novos trabalhos já vêm sendo elaborados.
 
A leitura completa do artigo publicado pelo grupo de pesquisa, em inglês, pode ser feita pelo link: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0926669022005489?via%3Dihub.

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