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‘Passam os anos e nada muda’: moradores vivem medo após vazamentos em estruturas

Moradores de comunidades próximas a áreas de mineração em Congonhas e Ouro Preto vivem dias de apreensão após dois extravasamentos registrados em menos de 24 horas em estruturas da Vale. Mesmo sem registro de vítimas ou casas diretamente atingidas, a população relata medo, sensação de abandono e falta de informações claras sobre os impactos ambientais e os riscos na região.

Às margens dos rios afetados, moradores do bairro Mota, uma das áreas mais baixas da região e cercada por mineradoras, relatam que a água chegou perto das casas e reacendeu traumas antigos. “A gente não fica tranquilo. Ainda mais num momento como esse, depois de tudo que aconteceu em Brumadinho. A Vale soltou uma nota dizendo que está tudo tranquilo, mas como que fica tranquilo se o meio ambiente foi atingido?”, questiona o pedreiro Adriano Faria, morador da comunidade há 15 anos. Ele afirma que a população convive diariamente com poeira, lama e incertezas. “A riqueza sai daqui e a comunidade fica abandonada. Passam os anos e nada muda.”

Outro morador, o caminhoneiro Ailton Martins Bento, de 59 anos, conta que presenciou o aumento repentino do volume de água no Córrego da Água Santa, que recebe rejeitos de diferentes mineradoras. “Eu vi a água subindo e falei que o córrego ia transbordar. Pulou por cima da ponte. Faz mais de 30 anos que eu não via isso. Com três mineradoras aqui, era para ser uma área mais segura, mas não é”, relata. Segundo ele, o córrego deságua no rio Maranhão e impacta várias comunidades ao longo do trajeto. “O rio era usado para pesca. Hoje ninguém pesca mais.”

Moradores também criticam a falta de ações conjuntas das empresas e a ausência de comunicação direta com a comunidade. “A gente ficou sabendo pela mídia. Não veio Defesa Civil, não veio ninguém explicar o que aconteceu, dizer se estava seguro ou não. A gente sabe muito pouco”, afirma Adriano.

Para quem vive à sombra das mineradoras, o sentimento é de insegurança permanente. “Não teve vítima, graças a Deus, mas o impacto psicológico, ambiental e social fica. A gente vive em cima de uma riqueza enorme, mas é tratado como se não existisse”, resume um morador.

Em nota, a Vale informou que “realiza periodicamente ações preventivas de inspeção e manutenção de suas estruturas, que são seguras” e que “as causas dos dois extravasamentos estão sendo apuradas e os aprendizados extraídos serão imediatamente incorporados aos planos de chuva da companhia”.

Confira a nota da Vale na íntegra:

“A Vale esclarece que os extravasamentos de água identificados em Congonhas e Ouro Preto no domingo (25) foram contidos. Ninguém ficou ferido e a população e as comunidades próximas não foram afetadas.

Nenhuma das duas situações tem qualquer relação com as barragens da Vale na região, que seguem sem alterações nas suas condições de estabilidade e segurança e são monitoradas 24 horas por dia, 7 dias por semana. A Vale esclarece, ainda, que não houve carreamento de rejeitos de mineração, apenas água com sedimentos (terra).

A Vale realiza periodicamente ações preventivas de inspeção e manutenção de suas estruturas, que são seguras. A empresa reforça esses procedimentos durante o intenso período chuvoso. As causas dos dois extravasamentos estão sendo apuradas e os aprendizados extraídos serão imediatamente incorporados aos planos de chuva da companhia. A Vale segue à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários.”

Vazamentos
O primeiro vazamento ocorreu na madrugada de domingo (25), em uma cava de mineração da Mina de Fábrica, da Vale, em Ouro Preto, na divisa com Congonhas. Segundo a Prefeitura de Congonhas, mais de 200 mil litros cúbicos de água, o equivalente a cerca de 88 piscinas olímpicas, extravasaram da estrutura, arrastando sedimentos e rejeitos para córregos e rios da região. Dois cursos d’água foram atingidos.

Apesar de não se tratar de uma barragem, o prefeito de Congonhas alertou que a estrutura possui mais de 200 milhões de metros cúbicos de água e rejeitos e não é monitorada pela mineradora. O Ministério de Minas e Energia informou, em nota, que determinou à Agência Nacional de Mineração a adoção de medidas urgentes para garantir a segurança das comunidades e a proteção ambiental.

Na manhã desta segunda-feira (26), um segundo extravasamento foi confirmado na Mina Viga, também da Vale. A Defesa Civil acompanhou a ocorrência e constatou o transbordamento de água para o rio Maranhão. Segundo o município, não houve bloqueio de vias nem comunidades diretamente atingidas, mas o impacto ambiental está sendo avaliado. A Prefeitura de Congonhas lamentou o novo episódio, ressaltando a gravidade de duas ocorrências em um intervalo tão curto.

Suspensão de alvarás
A Prefeitura de Congonhas, nesta segunda (26), determinou a suspensão imediata dos alvarás de funcionamento de atividades associadas às minas de Fábrica e de Viga, da mineradora Vale.

Segundo o documento, os rompimentos provocaram o transporte de água e sedimentos para cursos d’água do município, configurando um risco ambiental concreto. A prefeitura aponta possíveis impactos na qualidade da água, nos ecossistemas locais e na segurança da população e determina que algumas atividades permanecerão suspensas até que a empresa responsável comprove a eliminação ou o controle dos riscos identificados.

Entre as determinações, o município exige a adoção imediata de medidas emergenciais, incluindo a limpeza das áreas afetadas e ações de mitigação ambiental.

(Informações R7)

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