Luiz Henrique Mandetta. Foto: Jorge William / Agência O Globo

Aliados do Planalto querem imputar ao ex-ministro da Saúde falhas da atuação do Executivo no início da pandemia

Os depoimentos dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, hoje na CPI da Covid, devem ser marcados pela tentativa de senadores independentes e de oposição de apontar erros do presidente Jair Bolsonaro. Governistas, por sua vez, buscarão imputar a Mandetta, que tem atuação crítica a Bolsonaro, falhas da atuação do Executivo federal no início da pandemia.

O Palácio do Planalto quer aproveitar este primeiro dia de depoimentos para tentar diminuir o impacto das cobranças sobre a gestão de Eduardo Pazuello, que será ouvido amanhã. A estratégia é que senadores governistas critiquem Mandetta, por exemplo, pela orientação inicial de que as pessoas não procurassem imediatamente um médico ao sentir os primeiros sintomas de Covid-19. Ele também será questionado sobre o plano de logística para atender estados e municípios com medicamentos e respiradores, e acordos para adquirir vacinas.

A intenção do Palácio do Planalto é tentar comparar essas ações com o que foi feito depois por Pazuello, para tentar refutar a tese de que o governo foi omisso. Dentro da estratégia está também um treinamento de Pazuello, que incluiu uma reunião no sábado na qual o ex-ministro repassou pontos de sua gestão ensaiando respostas para a CPI.

Em outra frente, o Planalto vai insistir na tese de que agiu conforme decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que, em abril do ano passado, estabeleceu que estados e municípios têm autonomia para definir regras sobre isolamento social.

A estratégia do bloco independente e de oposição, por outro lado, é pressionar Mandetta e Teich a falarem de momentos em que tentaram agir para impedir o agravamento da pandemia e entraram em conflito com Bolsonaro. Um ponto crucial é a pressão para que o Ministério da Saúde indicasse remédios sem eficácia para Covid-19.

Para o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), os depoimentos dos ministros vão fixar uma “linha do tempo” da atuação do governo na pandemia e serão úteis para definir as responsabilidades pelas decisões.

— É saber se houve responsabilidade, negligência, incompetência, desídias, omissões, que possa definir na responsabilização de alguém, né? Eu torço para que não aconteça, mas para que não aconteça eles precisarão trazer argumentos e provas — diz Calheiros.

A estratégia do grupo majoritário deve ser diferente com Pazuello. No caso do general, o interesse é fazer com que ele reconheça ter cumprido ordens do presidente.

Acostumado com o ambiente do Congresso, Mandetta, que é ex-deputado federal, tende a centrar esforços em mostrar como o Brasil não se preparou para ter mais opções de vacinas. Ele classificou a atitude como “um erro” recentemente, em bate-papo transmitido na internet.

— Acho que esse é um erro, de tudo que eu vi lá para atrás, e agora estamos pagando (pela) falta (de vacina (…) Se pegássemos três, quatro (contratos de vacinas, em vez de apostar apenas na AstraZeneca), estaríamos chegando a 200 milhões (de doses garantidas).

Já o ex-ministro Nelson Teich, de perfil mais discreto e que passou apenas um mês na pasta, será instado a falar das pressões sofridas para assinar uma recomendação de uso ampliado da cloroquina e hidroxicloroquina. Ao GLOBO, o médico já admitiu em entrevista que sua saída se deve ao episódio:

— Foi um gatilho (a pressão para ampliar uso dos medicamentos) que me fez enxergar que eu não teria autonomia e legitimidade para fazer as mudanças que precisavam ser feitas. (O Globo)

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