Outro dia percebi uma coisa curiosa.
Não aconteceu durante uma grande viagem, nem depois de uma experiência extraordinária dessas que costumam render fotografias bonitas e legendas inspiradoras.
Aconteceu numa sexta-feira comum.
Daquelas que passam despercebidas pela história da humanidade.
Eu estava diante de algo que, anos atrás, teria me deixado empolgado. Não era nada grandioso. Apenas uma daquelas situações que antes ocupavam espaço na minha cabeça, consumiam meu tempo, despertavam expectativa.
E, de repente, percebi que já não me despertavam mais.
Não porque eu tivesse deixado de gostar.
Continuo gostando de muitas coisas.
A diferença é que hoje sei que gostar e dedicar a vida não são exatamente a mesma coisa.
Com o tempo vamos descobrindo que energia também é patrimônio.
Talvez o mais valioso deles.
Dinheiro perdido pode ser recuperado.
Objetos podem ser substituídos.
Tempo e energia, não.
Quando gastamos um, inevitavelmente estamos gastando o outro.
Talvez por isso eu tenha começado a observar mais atentamente as pessoas.
Não para julgá-las.
Apenas para tentar compreender o que cada uma veio fazer por aqui.
Algumas parecem determinadas a experimentar tudo o que o mundo pode oferecer. Correm atrás de bens, conquistas, viagens, títulos, experiências, prazeres. Não há nada necessariamente errado nisso. O curioso é perceber que muitos chegam exatamente onde desejavam chegar e, ainda assim, continuam procurando alguma coisa.
Como quem encontra a porta certa e descobre que a chave abre apenas outra porta.
Outros parecem ter escolhido uma missão diferente.
Querem construir uma família.
Ver os filhos crescerem.
Depois os netos.
Encontram felicidade em fotografias de aniversários, em almoços de domingo, em cadeiras ocupadas ao redor de uma mesa.
Há ainda aqueles que desejam deixar alguma marca.
Escrevem livros.
Plantam árvores.
Criam projetos.
Ensinam alguém.
Às vezes a obra é pequena aos olhos do mundo, mas enorme para quem foi alcançado por ela.
E existem os que passam a vida procurando algo que sequer cabe nas palavras.
Buscam Deus.
Não uma ideia sobre Deus.
Não uma discussão sobre Deus.
Mas Deus.
Como quem sente que existe uma casa que ainda não encontrou, embora carregue a saudade dela desde o nascimento.
Cada pessoa parece caminhar em direção a uma resposta diferente.
Talvez por isso aquilo que para um é tragédia, para outro seja apenas contratempo.
Aquilo que para um representa sucesso, para outro não tenha importância alguma.
O problema começa quando passamos a viver objetivos que não são nossos.
Quando gastamos a vida inteira perseguindo expectativas alheias.
Comprando sonhos fabricados por desconhecidos.
Competindo em corridas cujo prêmio jamais desejamos de verdade.
Vejo isso acontecer todos os dias.
Pessoas exaustas tentando impressionar gente que nem gostam.
Pessoas sacrificando a paz para manter aparências.
Pessoas colecionando conquistas sem jamais experimentar contentamento.
Enquanto isso, quase despercebidos, existem os outros.
Os que ajudam sem anunciar.
Os que repartem.
Os que escutam.
Os que constroem.
Os que fazem do próprio cotidiano um lugar um pouco melhor do que encontraram.
E talvez sejam esses os que compreenderam algo importante.
A vida não acontece no dia em que tudo dá certo.
A vida acontece agora.
Nesta conversa.
Neste abraço.
Nesta leitura.
Neste telefonema que adiamos.
Nesta gentileza que ninguém verá.
Neste gesto simples que não mudará o mundo inteiro, mas mudará o mundo de alguém.
Não sei exatamente qual é o objetivo de cada pessoa nesta existência.
Suspeito que ninguém saiba completamente.
Mas tenho aprendido uma coisa.
Há uma enorme diferença entre esperar que algo bom aconteça e decidir viver algo bom.
Uma atitude depende do futuro.
A outra depende de nós.
E talvez seja justamente aí que a vida, silenciosamente, comece.



