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O templo do consumo: o shopping center como nova catedral moderna

Reinaldo de Mattos Corrêa –

No coração das cidades contemporâneas, entre vitrines iluminadas e corredores climatizados, ergue-se uma construção que ultrapassa a mera função comercial. O shopping center deixou de representar apenas um espaço de compra para assumir uma dimensão simbólica comparável à das antigas catedrais medievais. Em Dourados, onde o crescimento urbano alterou hábitos sociais nas últimas décadas, basta observar o fluxo humano nos fins de semana para compreender que ali ocorre mais do que circulação econômica. Famílias inteiras atravessam portas automáticas em busca de pertencimento, entretenimento, proteção climática e até consolo emocional.

Durante séculos, as catedrais organizaram a vida coletiva. Não eram apenas edifícios religiosos, mas centros de encontro, contemplação, prestígio social e orientação simbólica. Na contemporaneidade, boa parte dessa experiência migrou para ambientes privados administrados por conglomerados econômicos. O silêncio contemplativo dos vitrais deu lugar à música ambiente; o cheiro de incenso foi substituído pelo aroma artificial lançado diante das cafeterias; os antigos sinos cederam espaço aos anúncios promocionais. Ainda assim, permanece intacta a lógica ritualística: deslocamento coletivo, repetição de hábitos, reverência visual e sensação de transcendência cotidiana.

Em Dourados, cidade marcada pelo agronegócio, pela expansão universitária e pela intensa circulação regional, o shopping transformou-se em espécie de praça pública coberta. Jovens caminham pelos corredores como peregrinos urbanos em busca de identidade social. Casais ocupam mesas de alimentação como quem participa de liturgias afetivas discretas. Crianças observam brinquedos com o mesmo assombro que antigos fiéis dirigiam às imagens douradas dos altares europeus. Existe ali uma pedagogia silenciosa do desejo, moldada pela arquitetura, pela iluminação e pela disposição estratégica das vitrines.

Especialistas em urbanismo apontam que os centros comerciais modernos foram concebidos para prolongar permanências e estimular experiências emocionais. A ausência de relógios visíveis, os corredores sinuosos e a iluminação homogênea produzem uma sensação de suspensão temporal. Não por acaso, muitos visitantes descrevem o shopping como “refúgio” diante da violência urbana, do calor extremo ou da desordem das ruas abertas. O espaço comercial converte-se, assim, em abrigo psicológico e território de estabilidade simbólica em tempos marcados por ansiedade coletiva.

Existe ainda uma dimensão social menos evidente. Em cidades médias brasileiras, como Dourados, o shopping passou a funcionar como palco de validação pública. Estar ali significa participar de uma espécie de comunidade visual baseada em aparência, circulação e consumo simbólico. A roupa exibida, o restaurante frequentado e até o café carregado nas mãos operam como sinais contemporâneos de pertencimento social. O consumo, nesse cenário, deixa de representar simples aquisição material para adquirir valor quase espiritual, associado à ideia de reconhecimento e autoestima.

A pergunta que atravessa silenciosamente cada corredor talvez seja mais perturbadora do que parece: o que acontece com uma civilização quando a experiência de transcendência passa a depender de vitrines iluminadas? Trata-se de uma questão que ultrapassa economia ou comportamento. Ela toca diretamente a arquitetura emocional da vida moderna. Se antigas sociedades buscavam sentido diante do sagrado, a contemporaneidade parece procurar preenchimento diante das marcas, dos produtos e das imagens publicitárias que prometem felicidade instantânea.

Sociólogos observam que os shopping centers prosperaram paralelamente ao enfraquecimento dos espaços públicos tradicionais. Praças perderam movimento; calçadas tornaram-se hostis; centros históricos enfrentaram abandono gradual. Em contrapartida, ambientes privados climatizados passaram a oferecer sensação de ordem, segurança e previsibilidade. Tal fenômeno revela uma mudança profunda na experiência urbana brasileira. O encontro espontâneo das ruas cede terreno à convivência regulada por câmeras, normas internas e estratégias de mercado cuidadosamente planejadas.

Há também um aspecto arquitetônico carregado de significado. As catedrais medievais impressionavam pela verticalidade, pela luz filtrada e pela monumentalidade capaz de provocar fascínio coletivo. O shopping reproduz esse impacto através de escadas rolantes monumentais, átrios amplos e fachadas brilhantes. A estética do encantamento permanece viva, ainda que orientada por outra lógica civilizatória. O cidadão moderno contempla vitrines com intensidade semelhante àquela dedicada, em séculos passados, aos relicários religiosos. A diferença encontra-se no objeto da devoção.

Mesmo diante desse cenário, seria simplista reduzir o shopping a mero símbolo de alienação coletiva. Para muitos trabalhadores, o espaço representa emprego, renda e sobrevivência econômica. Para adolescentes, funciona como território de sociabilidade. Para idosos, oferece conforto climático e circulação segura. O fenômeno revela ambiguidades profundas da vida urbana contemporânea: ao mesmo tempo em que estimula consumo incessante, também supre lacunas deixadas pela ausência de planejamento urbano e pela deterioração dos espaços públicos tradicionais.

Em Dourados, onde modernização e tradição convivem em tensão permanente, o shopping center emerge como espelho da própria cidade. Entre cafeterias, cinemas e vitrines, desenha-se um retrato da sociedade atual: acelerada, visual, fragmentada e permanentemente sedenta por experiências capazes de preencher vazios invisíveis. Talvez a grande ironia do século XXI resida justamente nisso: após séculos proclamando racionalidade absoluta, a humanidade continua procurando templos — apenas mudou a arquitetura da fé.

Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.

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