Redação –
A fotógrafa francesa Alexa Brunet, ligada à Aliança Francesa, está em Dourados, Mato Grosso do Sul, onde desenvolve um trabalho artístico voltado à investigação das crenças, da espiritualidade e da diversidade cultural no Brasil e na América Latina. A artista está no Estado acompanhada do professor da UEMS Adilson Crepalde e concedeu entrevista exclusiva à Folha de Dourados, ao jornalista Juliel Batista, na qual falou sobre sua trajetória, motivações, influências e os objetivos da residência artística que realiza no país.
Com mais de duas décadas dedicadas à fotografia e à arte contemporânea, Alexa Brunet construiu uma carreira marcada pela pesquisa documental aliada à encenação poética, explorando temas como religiosidade popular, rituais, memória, identidade e relação entre o ser humano e a natureza. Em Mato Grosso do Sul, o foco do trabalho está nas comunidades indígenas, especialmente Guarani-Kaiowá, e nas formas visíveis e invisíveis de viver a espiritualidade.
“Sou muito interessada nas culturas onde as crenças ainda estão vivas”
Durante a entrevista, Alexa se apresentou e falou sobre o início de sua trajetória artística:
“Meu nome é Alexa Abagnale, sou francesa. Trabalho como fotógrafa há cerca de cinco anos nesse formato mais pessoal, mas minha trajetória na arte é mais longa. Sempre estive muito interessada em trilhas, caminhos antigos, especialmente na França, que falam sobre maneiras de desenhar, de representar o mundo de alguma forma.”
“Sempre estive muito interessada em trilhas, caminhos antigos”

Segundo ela, o interesse pelas crenças surgiu a partir de estudos históricos e literários:
“Li um livro sobre o desenho de um personagem do século XIX, e isso despertou em mim a vontade de explorar como essas formas antigas de pensar e representar o mundo continuam presentes hoje.”
Alexa destacou que seu trabalho não se limita à estética, mas busca compreender processos culturais vivos:
“Eu me interesso por culturas onde a tradição ainda está presente, onde os crentes ainda vivem essas práticas, onde o idioma, os rituais e o espírito continuam em movimento.”
“Eu me interesso por culturas onde a tradição ainda está presente, onde os crentes ainda vivem essas práticas, onde o idioma, os rituais e o espírito continuam em movimento.”

América Latina, Brasil e a força da diversidade cultural
A fotógrafa explicou que sua pesquisa a levou naturalmente à América Latina e ao Brasil:
“Trabalhei nos Estados Unidos, na Louisiana, por exemplo, onde há uma forte herança africana e europeia misturada. O que me interessa é captar essa religiosidade que permanece em mobilidade, que não está congelada no passado.”
“O que me interessa é captar essa religiosidade que permanece em mobilidade, que não está congelada no passado.”

No Brasil, Alexa afirma ter encontrado uma complexidade cultural ainda mais intensa:
“Aqui, especialmente no Brasil, há uma mistura muito forte de origens africanas, europeias e indígenas. Isso cria algo único. Não importa se a pessoa é branca ou não, o que importa é essa herança compartilhada, que se transforma.”
Ela ressaltou que o trabalho no Mato Grosso do Sul dialoga diretamente com essa diversidade:
“O ponto central do meu trabalho é a mistura de origens, de interesses e de espiritualidade. É isso que me trouxe até aqui.”
“O ponto central do meu trabalho é a mistura de origens, de interesses e de espiritualidade. É isso que me trouxe até aqui.”

Arte como processo coletivo
Alexa enfatizou que não enxerga sua produção artística como algo individual:
“Não é apenas o meu trabalho. É um trabalho de todos nós juntos. Não é um fim, é um processo coletivo.”
Ao ser questionada sobre o impacto que espera alcançar, afirmou:
“Acredito que o meu trabalho pode ajudar as pessoas a aprenderem mais sobre as culturas indígenas, sobre o desenvolvimento desses povos e também sobre a relação com a natureza. Falamos do futuro, do planeta, do estado do mundo.”
“Falamos do futuro, do planeta, do estado do mundo.”
Ela também destacou que não se trata de impor interpretações:
“Não sou psicóloga, não quero explicar tudo. É mais um contexto para que as pessoas se envolvam com a realidade e, juntas, construam algo.”

“O que os olhos não veem”
Durante sua permanência no Brasil, Alexa Brunet desenvolve a residência fotográfica “O que os olhos não veem”, prevista para ocorrer ao longo de janeiro de 2026, com quinze dias dedicados ao Mato Grosso do Sul.
O projeto propõe uma exploração visual das crenças brasileiras, especialmente nas regiões do Mato Grosso do Sul e do Sertão, por meio de encenações colaborativas com moradores das comunidades. A proposta é fazer emergir uma memória invisível dos rituais vernaculares, integrando relatos, desenhos, mapas, objetos simbólicos, fotografias e sons.
Entre os conceitos abordados está a dualidade entre Teko Porã (modo ideal de viver) e Teko Jojá (equilíbrio possível no mundo imperfeito), fundamentais na cosmologia Guarani-Kaiowá. Elementos como vestimentas, instrumentos espirituais, arte da reza, língua e conhecimentos tradicionais poderão ser incorporados às composições fotográficas.
A residência também prevê oficinas participativas, encontros intergeracionais, caminhadas de reconhecimento do território, criação de mapas imaginários, encenações fotográficas e registros sonoros. Ao final, o material produzido deverá resultar em exposições, cadernos de residência e apresentações públicas, tanto no Brasil quanto na rede das Alianças Francesas.

Quem é Alexa Brunet
Nascida em 1977, Alexa Brunet é fotógrafa francesa formada pelo Art College de Belfast e pela École Nationale Supérieure de la Photographie (ENSP) de Arles. Integrou o Collectif TRANSIT a partir de 2004 e vive atualmente na região de Ardèche, na França.
Trabalha tanto para a imprensa quanto em projetos autorais desenvolvidos na França e no exterior, sempre em diálogo com escritores, jornalistas e outros artistas. Sua produção é marcada por uma abordagem documental combinada a imagens simbólicas e encenadas, influenciadas pelo cinema, pela pintura e pela literatura.

Alexa já participou de residências e exposições em importantes festivais e instituições, como a Bienal de Arquitetura de Veneza, Rencontres Internationales de la Photographie (Arles), Images Singulières (Sète) e Centre Atlantique de la Photographie (Brest). É autora de diversos livros, entre eles POST ex-Yougoslavie, Habitants atypiques, Dystopia e Abrégé des secrets.
Em Dourados e no Mato Grosso do Sul, Alexa Brunet dá continuidade a uma trajetória artística que cruza fronteiras, culturas e espiritualidades, reafirmando a arte como espaço de escuta, encontro e construção coletiva.

