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O que é cis-heteronormatividade e por que ela pode trazer infelicidade

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02/06/2018 09h03

O que é cis-heteronormatividade e por que ela pode trazer infelicidade

Por: Folha de Dourados

(*)Marcos Carvalho

Faz parte da cis-heteronormatividade defender a ideia de que existe apenas um jeito de ser saudável e feliz. Esse jeito único, para a cis-heteronormatividade, inclui:

1) ser uma pessoa heterossexual, ou seja, sentir atração afetiva/sexual somente pelo sexo/gênero diferente do seu;

2) ser uma pessoa cis, ou seja, estar em total acordo com o gênero atribuído no nascimento. Uma pessoa cis é aquela que, ao nascer, foi classificada como do gênero masculino ou feminino e aceitou tal classificação para sua vida; Vale lembrar que gênero é uma construção social com base no sexo biológico da pessoa.

No entanto, os seres humanos são muito diferentes entre si. Muitas pessoas não se encaixam nos pré-requisitos acima. Por exemplo, a pessoa pode ser bissexual (sentir atração física e/ou sexual por mais de um gênero/sexo), pode ser homossexual (sentir atração física e/ou sexual pelo gênero/sexo semelhante ao seu), pode ser transgênero, questionando as ideias tradicionais do gênero que lhe atribuíram no nascimento, etc.

Dessa forma, a cis-heteronormatividade é muito cruel, pois nega a própria existência de quem é diferente. Isso acontece de duas formas principais: Uma ativa e outra por omissão/apagamento.

A forma ativa ocorre por meio de ações diretas contra as pessoas que não se encaixam na lógica cis-heteronormativa, por exemplo:

a) quando grupos se organizam para patologizar/tratar como doentes pessoas LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, dentre outros);

b) quando tentam impedir (por medidas políticas/jurídicas, discursos, etc.) o casamento entre pessoas de mesmo sexo;

c) quando duas pessoas de mesmo sexo/gênero são perseguidas por andarem de mãos dadas em locais públicos;

d) quando constrangem uma travesti com piadas ou insistem em chamá-la usando pronomes masculinos, tendo ela já solicitado o uso de termos no gênero feminino.

Já a omissão/apagamento ocorre quando se tenta ocultar/apagar tudo o que não estiver de acordo com a cis-heteronormatividade. Por exemplo:

a) Partir do pressuposto de que todas as pessoas são heterossexuais – Isso pode obrigar pessoas LGBTQ+ a terem que se “assumir”, ao passo que pessoas cis e heterossexuais não precisam reafirmar a própria existência a todo momento;

b) não mostrar relacionamentos entre pessoas LGBTQ+ em campanhas publicitárias/novelas/teatro, etc. gerando sentimento de invisibilidade nas pessoas não representadas;

c) mostrar apenas uma forma de relacionamento possível na mídia, geralmente, casais monogâmicos heterossexuais, podendo gerar o sentimento de que, a única forma possível e saudável de se relacionar é essa.

Quais as consequências, então, da cis-heteronormatividade sobre as pessoas que não se encaixam nesse padrão? São muitas. Tais pessoas costumam sofrer mais que a média da população na vida em sociedade (na família, no trabalho e relacionamentos, por exemplo). Muitas vezes são vistas como doentes. Algumas são expulsas de casa. Outras não conseguem emprego por fugir do padrão cis-heteronormativo. Algumas acabam se suicidando por conta da enorme pressão que sofrem de todos os lados para que se encaixem no que é considerado “certo”. Outros exemplos podem ser citados:

  1. mais de 70% das/os estudantes brasileiras/os que se consideram parte da sigla LGBT já sofreram bullying por conta dessa condição na escola[1];

  2. a expectativa de vida média de pessoas transexuais é de 35 anos, menos da metade da média nacional (75,5 anos)[2];

  3. o Brasil é o país que mais mata LGBT[3];

Também podemos abordar as consequências psicológicas desse quadro social:

  1. Pessoas LGBT tem de 3 a 7 vezes mais chances de se suicidarem que pessoas heterossexuais;

  2. pessoas LGBTQ+ têm grandes chances de sofrer de uma condição conhecida como estresse de minoria, ou seja, por enfrentar um contexto social desfavorável, sofrem de estressores ambientais com mais frequência que outros grupos, tendo chances maiores de desenvolver problemas psicológicos em comparação com o restante da população, tais como depressão e problemas de ansiedade.

Dada a gravidade desse quadro, o que é possível fazer?

Lidando com a cis-heteronormatividade

Se você se encontra em algum lugar fora do que é considerado correto pela cisheteronormatividade e sofre por conta disso, saiba que não está só. É muito comum se sentir assim. Há muitas pessoas, pouco informadas, dizendo que você está fazendo algo errado. O sentimento de inadequação não é raro. Também não é raro o sentimento de querer ser diferente, negando o que se sente.

Uma forma de lidar com isso é conhecer mais sobre o assunto e, por consequência, conhecer mais sobre si próprio. Por exemplo, se os papeis tradicionais de gênero (masculino/feminino) não te agradam, comece a pesquisar sobre o tema. Leia sobre gênero fluido, não binaridade de gênero, etc. Se você se sente desconfortável com sua bissexualidade, já que muitos negam a existência da mesma, que tal começar a ler os mais recentes estudos mostrando que a bissexualidade é algo documentado e tão saudável quanto a heterossexualidade e homossexualidade, por exemplo? Esse conhecimento trará clareza de que, se há algo errado, certamente não é com você, mas com um mundo (cis-heteronormativo) que considera apenas uma forma de existir como saudável. Outra forma de se ajudar é procurar pessoas que já passaram por situações parecidas, inclusive na internet, onde há muitos grupos sobre o tema. Além disso, você poderá buscar um/a profissional psi, com conhecimento sobre o tema, o/a qual poderá lhe auxiliar no processo de se posicionar frente a si próprio e à cis-heteronormatividade. Um/a profissional capacitado/a poderá te ajudar, por exemplo, a refletir sobre as seguintes questões:

  1. Não tenho certeza do que sou/gosto no campo da sexualidade. Como lidar com a angústia da incerteza? Algum dia vou chegar a alguma conclusão?

  2. “Sair do armário” é uma obrigação? Preciso mesmo me abrir com minha família? Tenho que “sair do armário” em todos os lugares novos que eu chegar?

  3. Se eu “me assumir”, que consequências isso terá sobre minha vida profissional?

  4. É possível ter um relacionamento não me enquadrando nas ideias tradicionais sobre gênero e sexualidade? Preciso mesmo ter um relacionamento para ser feliz?

  5. Como lidar com colegas de trabalho preconceituosos?

  6. Não me identifico com as pessoas LGBTQ+ que conheço. Sinto que não faço parte desse grupo. Mas também não me encaixo no modelo cis-heteronormativo. Como lidar com isso?

Você e o/a profissional poderão aprofundar as reflexões sobre os tópicos que lhe trazem angústia e pensar em possíveis estratégias para lidar com: 1) o que você sente/pensa sobre você mesmo e 2) com o mundo ao seu redor. Construir uma vida com menos sofrimento mesmo em uma sociedade, ainda, bastante cis-heteronormativa, é possível. O primeiro passo será dado por você.

Resumindo:

A cis-heteronormatividade inclui a ideia de que existe apenas um jeito certo de existir (heterossexual, cis, etc.). Isso traz consequências negativas para a vida de grande número de pessoas, já que os seres humanos são diversos e muitos não se encaixam nesse modelo. As consequências psicológicas incluem depressão e ansiedade. Muitos questionamentos podem surgir quando não nos identificamos com o modelo cis-heteronormativo. Pesquisar sobre o tema pode nos auxiliar a ter melhor autoconhecimento. O auxílio de um profissional psi qualificado também poderá ser de grande auxílio para lidar com as questões que nos afligem, tornando possível estarmos mais alinhados com nosso desejo e construir uma existência com mais sentido e menos sofrimento.

*O presente texto faz parte de um conjunto de atividades planejadas para a Parada do Orgulho LGBT+ de Dourados-MS que ocorrerá no dia 30 de junho de 2018 (https://www.facebook.com/events/2061648017450329/). Convidamos pessoas comprometidas com a vida da população LGBT+ douradense a escreverem textos jornalísticos acerca das lutas dessa população. Agradecemos, em especial, a todas as pessoas que, gentilmente, cederam seus textos e ao Jornal Folha de Dourados que se disponibilizou a publicá-los. O texto de hoje foi escrito por Marcos Carvalho, psicólogo jurídico e clínico, mestre em Psicologia pela UFPR (onde pesquisou sobre gênero e sexo no contexto do trânsito). Atuou como docente nos cursos de Administração e Psicologia da Unigran.

 Marcos Carvalho

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