Desde 1968 - Ano 56

14.2 C
Dourados

Desde 1968 - Ano 58

InícioColunistasColunista'O purgar é aqui mesmo? (s.m.j.)', por João Roberto Giacomini

‘O purgar é aqui mesmo? (s.m.j.)’, por João Roberto Giacomini

João Roberto Giacomini –

Há quem imagine o purgatório como uma espécie de sala de espera celestial. Um lugar indefinido, situado entre a glória e a condenação, onde as almas aguardariam, pacientemente, a sua vez de ingressar na eternidade.

Não duvido que exista.

Mas, se me permitem uma observação sem qualquer pretensão teológica, apenas fruto das pequenas percepções que a vida insiste em oferecer, começo a suspeitar que boa parte do purgatório já esteja em pleno funcionamento por aqui.

O purgar é aqui mesmo.

Não nas grandes tragédias que ocupam os jornais, nem nos acontecimentos extraordinários que acabam transformados em documentários. O verdadeiro purgar acontece nas minúcias. Nos detalhes. Nas pequenas situações que passam despercebidas pela maioria das pessoas, mas que se acumulam silenciosamente sobre os ombros de quem ainda conserva alguma sensibilidade.

Começa logo cedo.

Alguém lhe deseja um excelente dia sem sequer erguer os olhos do celular.

Outro pergunta como você está sem a menor intenção de ouvir a resposta.

Um terceiro já possui opinião formada a seu respeito antes mesmo de conhecê-lo.

E assim seguimos.

Somos analisados.

Julgados.

Sentenciados.

Tudo em procedimentos sumários.

Sem defesa prévia.

Sem contraditório.

Sem recurso.

A sentença costuma ser proferida pela aparência, executada pela fofoca e confirmada pela indiferença.

Há pessoas que passam anos carregando acusações que jamais lhes foram formalmente apresentadas. Outras são condenadas por palavras que nunca disseram. Algumas, mais desafortunadas, são responsabilizadas até mesmo pelas intenções que jamais tiveram.

O curioso é que quase ninguém percebe.

Vivemos cercados de especialistas em falar e cada vez mais órfãos de quem saiba escutar.

Escutar de verdade.

Não aquela escuta protocolar, que apenas aguarda a oportunidade de interromper. Nem aquela atenção temporária que dura até a próxima notificação do telefone.

Escutar é uma arte em extinção.

Talvez por isso tantas almas caminhem por aí como quem atravessa desertos invisíveis.

Carregam dores que não encontram ouvidos.

Transportam explicações que ninguém deseja conhecer.

Guardam histórias que jamais serão contadas porque o mundo parece ter desenvolvido uma estranha alergia à profundidade.

Tudo precisa ser rápido.

Breve.

Instantâneo.

Superficial.

Até os julgamentos.

Sobretudo os julgamentos.

Basta um comentário deslocado.

Uma fotografia mal interpretada.

Uma frase retirada do contexto.

Pronto.

Forma-se um tribunal.

Reúne-se o júri.

Publica-se a sentença.

Arquiva-se a verdade.

E a vida continua como se nada tivesse acontecido.

Nessas horas, penso que talvez o sofrimento não esteja apenas nas dores que suportamos, mas também nas explicações que jamais teremos oportunidade de oferecer.

Quantas vezes desejamos apenas dizer:

— Não foi bem assim.

Mas ninguém pergunta.

Ninguém quer saber.

O veredito já foi redigido.

Assinado.

Carimbado.

Transitato em julgado na comarca das aparências.

E então compreendo algo curioso.

Talvez o purgatório não seja o lugar onde Deus nos purifica.

Talvez seja o lugar onde aprendemos a sobreviver sem a aprovação dos homens.

Aprendemos que nem toda acusação merece resposta.

Que nem toda injustiça exige combate.

Que nem toda incompreensão precisa ser corrigida.

Algumas feridas cicatrizam apenas quando deixamos de tocá-las.

Algumas batalhas terminam quando abandonamos o campo.

Alguns julgamentos envelhecem sozinhos até se transformarem em poeira.

A fé, então, assume um papel silencioso.

Não como espetáculo.

Não como discurso.

Mas como abrigo.

Porque chega um momento em que a única defesa possível é continuar caminhando com a consciência tranquila.

Quem sabe da própria verdade dorme melhor.

Quem conhece as próprias intenções sofre menos com os equívocos alheios.

Quem deposita sua confiança em algo maior não precisa vencer todas as discussões para preservar a paz.

E assim seguimos.

Entre boletos, compromissos, filas, mensagens não respondidas, promessas esquecidas e expectativas frustradas.

Seguimos purgando.

Um dia de cada vez.

Uma incompreensão de cada vez.

Uma esperança de cada vez.

Talvez o purgatório não esteja escondido entre o céu e a terra.

Talvez esteja entre aquilo que somos e aquilo que imaginam que sejamos.

Entre a verdade dos fatos e a versão que resolveram contar.

Entre o que carregamos no coração e aquilo que o mundo insiste em enxergar.

Mas, se for realmente assim, há uma boa notícia.

Todo purgatório pressupõe passagem.

Nenhum purgatório foi feito para ser morada definitiva.

E enquanto atravessamos os nossos pequenos infernos burocráticos, emocionais e cotidianos, seguimos aprendendo.

Seguimos sendo lapidados.

Seguimos crescendo.

Até porque, convenhamos, se existe um lugar onde a alma é testada diariamente, talvez não seja necessário procurar muito.

Basta sair de casa numa segunda-feira pela manhã.

- Publicidade -

MAIS LIDAS