João Roberto Giacomini – Advogado & Escritor
Há um lugar onde o mar não apenas se faz água, mas voz e destino. Um recanto onde as ondas deixam de ser simples gelo que dança e se tornam ritmos, segredos e histórias escritas com espuma na areia. É nesse território — entre o palpitar da maré e o bater do coração — que vive um homem que aprendeu a escutar as palavras que o mar nunca verbaliza, mas sempre sussurra.
Ele é um poeta — não aquele que escreve para o papel, mas aquele que aprende a se escrever no murmúrio salgado das ondas.
Toda manhã, antes que o sol pinte de ouro a linha do horizonte, ele caminha à beira da água, sentindo sob os pés a trama grossa e fria da areia molhada. São as ondas que o chamam. Não como quem grita, mas como quem canta uma canção antiga — uma cantiga que fala de medos profundos, de desafios que ondulam como as cristas e vales das águas.
— As ondas são frágeis, pensava ele, olhando uma que corria e quebrava, efêmera em sua forma, tão breve quanto um verso não recitado.
Mas a fragilidade é apenas o disfarce. Porque cada onda carrega o peso do tempo — uma erupção lenta de segredos ancestrais, conduzida pelo sopro da lua e pelo braço invisível do vento. Nas ondas, o homem reconhece o paradoxo da existência: eternas e passageiras, simples e complexas, domadas e rebeldes.
Lembra-se de Neruda, que com o mesmo mar fez versos que pulsavam como corações naufragados. “Para que ninguém me admire, digo estas poucas palavras:…”, sussurra o Poeta, em seu íntimo diálogo com o oceano. Porque as ondas o fazem humilde. Elas ensinam que não há grandeza sem o tempo, nem palavra sem silêncio; que a loucura do mar é a sanidade dos sonhos.
Ao debruçar-se sobre as águas, ele vê mais do que água em movimento. Vê personagens — cósmicos e eternos — que dançam, riem e choram: Espíritos líquidos que carregam a melodia da existência, ensaiando passos para eternos bailados desde antes do mundo ter nome. Não são apenas ondas, são ecos da alma.
Às vezes, ele sente o medo. Medo do desconhecido que se esconde entre o azul e o verde, no fundo onde o sol não toca. Onde se perde a noção do tempo e a razão se rende ao mistério. O mar é desafio e advertência, convite e prisão.
Mas, mais do que isso, é o grande espelho do poeta.
Não há rima melhor que o ir e vir das ondas, não há ritmo mais perfeito do que o alinhavo contínuo da maré. E assim ele escreve, não com tinta, mas com a alma imersa — cada pensamento uma onda, cada emoção um refúgio no vai e vem eterno.
Quando a noite cai, o poeta volta para casa acompanhando o cansaço sussurrante do oceano e sabe: ele jamais será apenas um homem. É parte daquele mar, daquelas ondas, dessa melodia infinita que ensina que se pode ser ao mesmo tempo efêmero e eterno, silencioso e estrondoso, medo e coragem.
E assim, quando algum dia o leitor cruzar o caminho da espuma branca que beija a areia, que jamais se esqueça: não são apenas ondas. São poemas líquidos — invitando-o a voltar, sempre voltar. Porque, no mar, como na poesia, cada palavra é convite para escutar — e recomeçar.

