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‘O museu dos defeitos alheios’, por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini – advogado & escritor

Tenho a impressão de que existe um museu espalhado pelo mundo inteiro.

Não cobra ingresso.

Não recebe verbas públicas.

Não aparece nos roteiros turísticos.

Mas vive lotado.

É o Museu dos Defeitos Alheios.

Desde criança aprendemos a colecionar alguma coisa. Figurinhas, selos, moedas, calendários, chaveiros, tampinhas de refrigerante… Conheci até quem guardasse sabonetes de motel, coleção cuja utilidade jamais foi esclarecida pela ciência. Mas nenhuma delas cresce tão depressa quanto a coleção dos defeitos dos outros.

Há pessoas que são verdadeiros curadores desse museu.

Possuem uma memória fotográfica dedicada exclusivamente àquilo que, segundo a própria interpretação, você fez de errado. E perceba o detalhe: segundo a interpretação delas, porque a verdade dos fatos costuma ser apenas um detalhe inconveniente quando o objetivo é ampliar o acervo.

Você pode acertar noventa e nove vezes.

Basta uma única situação mal compreendida para ganhar uma vitrine inteira.

O curioso é que esses curadores jamais enviam uma mensagem para compartilhar uma boa notícia.

Nunca.

Às três da manhã, o celular faz aquele discreto plim do WhatsApp.

Você desperta assustado.

Imagina um acidente.

Abre a conversa.

É um áudio de oito minutos.

O assunto?

Alguém que, na visão do narrador, acaba de cometer o maior pecado da história da humanidade.

Pronto.

Mais uma peça incorporada ao museu.

O problema é que muita gente acredita ocupar um lugar privilegiado nessa amizade.

Não ocupa.

Está apenas conhecendo o método de trabalho.

Enquanto você escuta, educadamente, aquele interminável catálogo de imperfeições humanas, o HD do curador já começa, silenciosamente, a arquivar as suas.

Hoje ele lhe envia um áudio, às três da manhã, contando os defeitos de alguém.

Amanhã, às duas da manhã, enviará outro áudio para outra pessoa.

O personagem será você.

Porque, no Museu dos Defeitos Alheios, as exposições são itinerantes.

O colecionador muda apenas a plateia.

O enredo permanece rigorosamente o mesmo.

Existe outra característica fascinante nesses curadores.

Eles não explodem.

Arquivam.

Guardam frases, esquecimentos, atrasos, silêncios, interpretações, expectativas frustradas e pequenas mágoas como quem abastece um depósito de munição emocional.

Durante meses — às vezes anos — parecem tranquilos.

Até que chega o grande dia.

Sem qualquer aviso, descarregam uma verdadeira bazuca de lembranças cuidadosamente conservadas.

Não importa se o episódio aconteceu na semana passada ou quando a televisão ainda tinha antena de bombril.

Tudo ressurge com riqueza de detalhes.

Eles não procuram compreender.

Procuram condenar.

E, finalmente, inauguram mais uma exposição no museu.

Mas talvez a característica mais curiosa seja outra.

O curador do Museu dos Defeitos Alheios nunca se apresenta como adversário.

Muito pelo contrário.

Ele abraça.

Sorri.

Pergunta como está a família.

Convida para um café.

Escuta seus problemas.

Diz que você pode contar com ele para tudo.

Em determinado momento, emocionado, olha nos seus olhos e afirma:

— Você já faz parte da família.

E você acredita.

Quem não acreditaria?

O problema é que, nesse museu, fazer parte da família não garante imunidade.

Apenas facilita o acesso ao acervo.

Porque quanto mais próximo você estiver, maior será a coleção que ele fará sobre você.

Até que chega o dia em que você deixa de ser visitante.

Transforma-se em exposição.

Descobre, então, que aquele abraço caloroso era apenas o credenciamento para entrar no museu.

E que a frase “você já faz parte da família” significava apenas que sua fotografia havia sido colocada na ala das exposições permanentes.

Foi então que compreendi uma das maiores ironias da convivência humana.

Nem toda amizade que termina representa uma perda.

Às vezes, representa apenas o encerramento de uma visita guiada.

Porque amizade verdadeira não coleciona defeitos.

Coleciona histórias, risadas, lealdade, perdão e a maravilhosa capacidade de continuar gostando das pessoas, mesmo sabendo que nenhuma delas é perfeita.

Por isso, quando encontro alguém que conhece todos os defeitos da humanidade, apenas sorrio.

Aprendi que quem vive inaugurando salas no Museu dos Defeitos Alheios cedo ou tarde reservará uma vitrine para mim também.

E, sinceramente…

Prefiro visitar museus de arte.

Neles, pelo menos, as obras expostas costumam revelar o melhor do ser humano.

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