Reinaldo de Mattos Corrêa –
Existe uma tensão silenciosa atravessando o Brasil contemporâneo. De um lado, cidades crescendo como labirintos de concreto, consumo e ansiedade. Do outro, povos indígenas tentando preservar formas ancestrais de existir em meio à expansão de um modelo econômico que transforma terra, água e até relações humanas em mercadoria. Em regiões como Dourados, essa tensão aparece de maneira quase brutal, revelando feridas históricas ainda abertas sob a superfície do País.
Muitos habitantes urbanos acreditam respeitar os povos indígenas, mas o respeito verdadeiro exige mais do que frases bonitas em datas comemorativas ou discursos emocionados nas redes sociais. Respeito verdadeiro exige ruptura com séculos de condicionamento colonial. Durante muito tempo, escolas, igrejas, governos e meios de comunicação repetiram a ideia de que indígenas representariam atraso diante do chamado progresso moderno. A repetição contínua dessa narrativa produziu uma espécie de hipnose coletiva.
A sociedade industrial construiu uma visão de mundo baseada na produtividade permanente. O valor humano passou a ser medido pela capacidade de gerar lucro, consumir produtos e competir dentro do mercado. Nesse contexto, comunidades que valorizam espiritualidade, coletividade, relação equilibrada com a natureza e modos diferentes de organizar a vida acabam vistas como “improdutivas” ou incompatíveis com o desenvolvimento econômico. A ironia é profunda: uma civilização que enfrenta colapso ambiental, epidemias emocionais e destruição acelerada dos recursos naturais continua acreditando representar o ápice da inteligência humana.
Grande parte do preconceito também nasce do medo da diferença. A cultura urbana contemporânea funciona através de padronizações intensas: padrões de comportamento, de linguagem, de consumo e até de felicidade. Povos indígenas preservam cosmologias, idiomas e práticas comunitárias que escapam dessa lógica dominante. E tudo aquilo que escapa ao padrão costuma provocar desconforto em sociedades acostumadas a controlar e classificar a realidade.
Outro fator decisivo envolve o apagamento histórico. Muitas cidades brasileiras foram erguidas sobre territórios indígenas enquanto a memória desses povos desaparecia lentamente dos currículos escolares e das narrativas nacionais. Milhões de pessoas caminham diariamente por ruas com nomes indígenas sem conhecer a história, a cultura ou os conflitos relacionados aos povos originários daquela região. Uma sociedade sem memória torna-se vulnerável à repetição da violência.
Em Mato Grosso do Sul, a relação entre expansão econômica e direitos indígenas evidencia esse conflito de maneira intensa. Setores ligados ao agronegócio frequentemente enxergam territórios indígenas como barreiras para crescimento financeiro. O choque entre essas visões revela duas formas radicalmente diferentes de compreender a terra. Para o mercado, a terra representa ativo econômico. Para muitos povos originários, representa organismo vivo, espaço espiritual, memória coletiva e continuidade da existência.
Existe ainda um elemento psicológico raramente discutido: a crise interior das sociedades urbanas. O modelo contemporâneo produziu abundância tecnológica acompanhada por solidão, ansiedade e sensação permanente de vazio. Nesse cenário, povos que ainda preservam vínculos comunitários fortes e relação íntima com a natureza acabam funcionando como espelho desconfortável. Eles lembram algo que a civilização urbana perdeu ao longo do caminho.
A dificuldade de respeito também está ligada ao modo como conhecimento é reconhecido no mundo moderno. A sociedade urbana costuma valorizar diplomas, títulos acadêmicos e poder econômico acima de outras formas de sabedoria. Um ancião indígena carregando séculos de memória oral frequentemente recebe menos legitimidade pública do que especialistas treinados para repetir discursos técnicos. Isso revela uma hierarquia cultural profundamente desigual.
Apesar dessas barreiras, mudanças importantes começam a surgir. Jovens indígenas ocupam universidades, produzem cinema, literatura, pesquisa científica e movimentos culturais capazes de ampliar a presença dos povos originários no debate público. Ao mesmo tempo, cresce em diferentes setores da sociedade brasileira a percepção de que os conhecimentos indígenas possuem importância decisiva diante das crises ambientais e humanas do século XXI.
Nesse contexto, iniciativas acadêmicas como as possíveis e necessárias implantações de cursos de graduação em Antropologia na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) poderão representar mais do que expansão universitária. Poderão criar espaços de diálogo real entre saberes ancestrais e produção contemporânea de conhecimento. Um diálogo capaz de questionar a lógica colonial ainda presente em muitas estruturas educacionais brasileiras.
O desafio do Brasil contemporâneo talvez seja exatamente este: abandonar a arrogância civilizatória construída ao longo de séculos e reconhecer que desenvolvimento não pode continuar significando destruição cultural, devastação ambiental e aprofundamento da desigualdade. Povos indígenas não representam fragmentos congelados do passado. Representam possibilidades concretas de repensar o futuro.
No fundo, o respeito verdadeiro nasce quando desaparece a ideia de superioridade cultural. Nasce quando a sociedade urbana compreende que tecnologia sem consciência produz apenas destruição sofisticada. E nasce, principalmente, quando o país percebe que a sobrevivência espiritual e ecológica do próprio Brasil talvez dependa da capacidade de escutar aqueles que aprenderam, há muito tempo, a viver em relação profunda com a terra.
Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.



