Reinaldo de Mattos Corrêa –
Em uma era marcada por métricas, produtividade e exposição permanente, o fracasso deixou de ser apenas uma experiência humana para se transformar em um tabu moral que redefine relações sociais, profissionais e psicológicas.
Uma cena cada vez mais comum se repete em Dourados e em milhares de cidades brasileiras. Um comerciante fecha as portas após anos de atividade. Um estudante abandona um curso universitário. Um profissional perde o emprego depois de décadas de dedicação. Em vez de acolhimento, reflexão ou compreensão, surge um silêncio constrangedor. Como se a derrota carregasse uma culpa invisível. O fracasso, que durante séculos foi considerado parte inevitável da existência humana, passou a ocupar o lugar de uma espécie de infração moral contemporânea.
A transformação não aconteceu de forma abrupta. Ela foi construída gradualmente por uma cultura que elevou o sucesso à condição de virtude suprema. Livros, palestras, redes sociais e discursos corporativos passaram a vender a ideia de que qualquer resultado estaria diretamente ligado ao mérito individual. Nessa lógica simplificada, vitórias seriam fruto exclusivo de esforço, enquanto derrotas representariam deficiência de disciplina, competência ou visão estratégica. O contexto social, econômico e histórico desaparece da equação, deixando o indivíduo sozinho diante do tribunal da opinião pública.
Em Dourados, onde o agronegócio, o comércio, os serviços e o ambiente universitário moldam boa parte da dinâmica econômica, a pressão por desempenho tornou-se visível em diferentes setores. Empreendedores convivem com oscilações de mercado. Jovens enfrentam disputas cada vez mais intensas por vagas e oportunidades. Trabalhadores observam transformações tecnológicas que alteram profissões inteiras em poucos anos. Ainda assim, quando algo não produz o resultado esperado, persiste a narrativa de que faltou determinação. A complexidade dos processos é frequentemente substituída por explicações simplistas.
O fenômeno ganhou força com a ascensão das plataformas digitais. Nas redes sociais, a vida cotidiana passou a ser editada como uma vitrine permanente de conquistas. Fotografias exibem promoções, viagens, negócios bem-sucedidos e celebrações pessoais. Pouco espaço resta para incertezas, perdas ou recomeços. O fracasso desaparece da paisagem pública, criando uma ilusão coletiva de sucesso contínuo. O efeito psicológico é devastador: quem enfrenta dificuldades passa a acreditar que ocupa uma posição isolada em um mundo onde todos parecem prosperar.
A consequência mais profunda desse processo talvez seja a transformação da identidade humana em uma espécie de currículo ambulante. Pessoas deixam de ser percebidas pela complexidade da trajetória e passam a ser avaliadas por indicadores de desempenho. O valor simbólico de alguém torna-se associado a faturamento, cargos, patrimônio ou reconhecimento público. Quando uma meta não é alcançada, o julgamento deixa de recair sobre uma circunstância específica e passa a atingir a própria dignidade do indivíduo.
Há também uma contradição raramente discutida. A mesma sociedade que celebra histórias de superação costuma esconder os inúmeros fracassos que antecederam cada conquista. Grandes empresas nasceram após tentativas frustradas. Pesquisadores acumularam erros antes de descobertas relevantes. Artistas enfrentaram rejeições sucessivas antes do reconhecimento. A inovação depende da possibilidade de falhar. O aprendizado depende da possibilidade de errar. Ainda assim, o fracasso continua sendo tratado como uma mancha a ser ocultada.
Em uma tarde de chuva, um observador atento pode enxergar a luz atravessando o vidro de uma cafeteria no centro de Dourados. A cena revela pessoas em diferentes fases da vida: algumas comemorando contratos assinados, outras revisando contas atrasadas, outras repensando caminhos profissionais. Do lado de fora, ninguém consegue distinguir quem venceu ou perdeu naquele dia. A imagem sugere uma verdade frequentemente esquecida: trajetórias humanas são processos em movimento, não fotografias congeladas.
Especialistas em comportamento apontam que o aumento dos quadros de ansiedade, esgotamento emocional e sensação de inadequação possui relação direta com essa cultura da performance permanente. Quando o erro deixa de ser compreendido como etapa natural da experiência humana, cada revés assume proporções existenciais. O fracasso deixa de significar um resultado insatisfatório e passa a representar uma suposta falha de caráter. A pressão psicológica resultante produz impactos que ultrapassam o ambiente profissional e alcançam famílias, relacionamentos e comunidades inteiras.
Nesse contexto emerge uma pergunta capaz de romper paradigmas: e se o verdadeiro fracasso não estiver em cair, mas em construir uma civilização que transforma cada queda em condenação moral? A questão desafia pressupostos profundamente enraizados na cultura contemporânea. Talvez a resposta exija uma revisão das métricas utilizadas para medir valor humano, realização e pertencimento social.
O debate ultrapassa a esfera individual. Trata-se de uma discussão sobre o modelo de sociedade que está sendo construído. Uma comunidade que pune o erro tende a produzir medo. Uma comunidade que reconhece a vulnerabilidade humana tende a produzir aprendizado. Entre esses dois caminhos existe uma escolha cultural silenciosa que se manifesta diariamente em escolas, empresas, instituições e conversas cotidianas.
Em Dourados, assim como em outras regiões do país, o tema ganha relevância em um momento marcado por rápidas transformações econômicas e tecnológicas. O fracasso não desapareceu da experiência humana. O que mudou foi a forma como ele passou a ser interpretado. Talvez o maior desafio contemporâneo não seja eliminar derrotas, mas recuperar a capacidade coletiva de enxergá-las como parte legítima da jornada humana. Afinal, uma sociedade madura não é aquela que produz apenas vencedores. É aquela que consegue reconhecer humanidade mesmo quando os resultados não correspondem às expectativas.
Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.





