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O épico de um homem só

Leia artigo: – 24/03/2008

Wilson Rodrigues Carvalho*
 
Não tenho conhecimento profundo, técnico e conceitual, de teatro. Dou palpites mais seguros sobre cinema e literatura. Quanto a arte dos palcos, sou um apreciador. Dentro deste processo, mais voltado para o prazer do que para a análise crítica, aprecio sobremaneira o monólogo. A primeira peça que li – e da qual nunca assisti nenhuma montagem – foi um monólogo, Valsa nº 6, do Nelson Rodrigues. Foi paixão a primeira leitura. Li outros gêneros, mas passei a considerar o monólogo como a “grande arte” do teatro, da mesma forma como considero o conto como a “grande arte” da literatura. Mesmo que os críticos não o considerem. Eu não me importo com a opinião dos críticos.
Nos anos seguidos de atividade, como apreciador teatral, assisti a muitas montagens, de Chapeuzinho Vermelho, passando por Moliére, Artaud, Albee, até Plínio Marcos e Bortolotto. Uma mistura que, apesar da aparência, não é nada indigesta. No final das contas, todos os gêneros de uma determinada arte acabam por absorver recursos uns dos outros. Mas a peça que marcou minha carreira de apreciador chamava-se Dona Doida. O brilhante texto era de autoria da mineira Adélia Prado, e a interpretação – soberba, magnânima –  era da Fernanda Montenegro. A sensação que me tomou durante a encenação era de que eu estava diante de um ser infinitamente superior a todos os outros da face da terra, e eu me punha a questionar se a força surgia do texto ou da interpretação. Claro que, algum tempo depois, conclui que a força de um monólogo surge da união perfeita entre os dois elementos citados.
Recentemente, revivi a experiência onírica e transcendental – algo divino, num certo sentido que não envolve um Deus de alguma religião. Assisti A descoberta das Américas, uma adaptação da comédia de Dario Fo, escrita na ocasião das comemorações dos 500 anos do descobrimento, em 1992. O texto é assinado pela diretora, Alessandra Vanucci, e pelo ator, o soberbo Júlio Adrião. O que vi foi algo que torna qualquer adjetivo mesquinho para descrevê-lo.
Pela primeira vez na carreira de apreciador, eu vi um épico de um homem só.
No cinema, o épico é um dos meus gêneros prediletos, e sei das dificuldades inerentes para se realizar algo digno de levar esse nome. Não existe meio-termo no épico, quando se trata de recursos e de capacidade de ambientação em todos os níveis da reconstituição histórica. Muito dinheiro não garante, por si só, a qualidade de um épico. E sem dinheiro não existe pesquisa histórica que possa se transformar num épico de qualidade. A simples menção a um épico já nos traz as imagens grandiosas de milhares de figurantes, figurinos complexos e detalhados, cenários magníficos, batalhas complexas em longos e suntuosos planos, com edição vertiginosa e impactante. Mas, somente para retomar o fio, estamos falando de cinema, e não de teatro. No épico A descoberta das Américas, cujo narrador é um apaixonante anti-herói (sou um apreciador da história contada do ponto de vista deles), o recurso é precisamente um: o ator. Não há cenários, mas é possível ver, com todos os detalhes e grandiosidade, a partir das descrições do ator, as caravelas, a floresta densa e assustadora, o mar revolto, a lua, as tempestades, o desembarque dos espanhóis e a recepção, ao mesmo tempo hostil e curiosa, dos índios. Não há sons, mas é possível ouvir, a partir da sonoplastia vocal realizada pelo ator, todos os estrondos e raios da tempestade, os relinchos dos cavalos, a virulência das flechas e munições disparadas pelos canhões cortando os ares, os gritos dos índios e dos espanhóis. Não há nenhum personagem, além de Johan, o narrador, mas é possível ver todos eles, como nas impagáveis passagens em que os índios ameaçam devorar Johan e seus quatro companheiros espanhóis e logo após uma terrível batalha, se vê obrigado a usar seu talento de “costurador” de velas de caravelas para, literalmente, costurar toda uma tribo rasgada pelas flechas do inimigo. Ou na magistral passagem em Johan, após se tornar um semideus, por conta de uma previsão de tempestade que se mostrou acertada, se vê obrigado a “cristianizar” os índios, para que estes não fossem mortos pelos espanhóis. É possível ver com clareza todos os índios sentados diante daquele homem esfarrapado que os catequiza de forma sarcástica, numa crítica feroz do autor. Não há nada no palco, além de um ator, mas é possível assistir ao épico, completo e grandioso, como no cinema.
            Para nosso deleite, algumas coisas na vida, as artes entre elas, nos dispensam da necessidade de conhecimento técnico e conceitual prévio, para uma profunda apreciação, cheia de significados e emoções que não precisam ser explicados para perdurar, na mente e na alma.
 
*Wilson Rodrigues Carvalho é escritor e membro do Conselho Consultivo Permanente do Grupo Literário Arandu

Fonte: Folha de Dourados

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