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O dia em que Monte Castelo caiu

Artigo – 21/02/2008

Quem assiste seriados como “Band of Brothers” ou filmes como “O resgate do soldado Ryan”, “Círculo de fogo” entre tantos outros sobre a Segunda guerra Mundial, às vezes nem imagina que o Brasil também participou do conflito e que douradenses estiveram lá também. O que conto a seguir é um breve relato para recordar que hoje completa 63 anos da tomada de Monte Castelo na Itália durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) por forças brasileiras:
O Monte Castelo era um monte da região dos Apeninos, uma cadeia montanhosa que praticamente divide a Itália em duas partes, mais ou menos como é a Serra de Maracaju em Mato Grosso do Sul. Sem tomar a cadeia montanhosa, não seria possível avançar para o norte do país e tomar a Alemanha. O Monte Castelo era peça fundamental para tomar este dispositivo.
Na região atuavam forças aliadas de vários países que lutavam contra o nazi-fascismo de Hitler e Mussolini, entre elas tropas brasileiras, em um contingente de mais de 25 mil homens recrutados em vários Estados brasileiros, inclusive de Mato Grosso do Sul, que na época ainda era Mato Grosso. Da região da Grande Dourados, foram convocados mais de 100 soldados, dos quais somente na cidade de Dourados, dois ainda estão vivos e com mais de 80 anos de idade. Os soldados do Brasil ficaram conhecidos como Força Expedicionária Brasileira – FEB.
Os brasileiros haviam chegado à Itália em setembro de 1944, depois de apenas três meses de treinamento, quando o normal eram pelo menos nove meses. O presidente do Brasil na época era Getúlio Vargas, que só autorizou a entrada do país na luta armada após o torpedeamento de vários navios mercantes brasileiros por submarinos alemães na costa de nosso país e pela pressão popular que isso gerou. No Rio de Janeiro e em São Paulo restaurantes e lojas de alemães e italianos foram danificadas pela população como forma de protesto.
Após chegarem na Itália os brasileiros da FEB foram avançando aos poucos e de vitória em vitória chegaram até os pés de Monte Castelo em novembro, porém junto com este avanço veio também o inverno. O comando norte-americano, era hierarquicamente o responsável pelo setor e queria que o Monte Castelo fosse tomado o mais rápido possível, mas progredir era praticamente impossível devido ao fato das tropas alemãs estarem bem protegidas e à falta de planejamento dos generais americanos que não entendiam que só seria capaz tomar o Monte Castelo fossem tomados os montes menores que o rodeavam.
Assim os brasileiros fracassaram na tomada em 24, 25 e 29 de novembro na tomada do Monte e não puderam nem ao menos resgatar os corpos dos mortos que ficaram lá até a tomada definitiva quase três meses depois. A alternativa foi esperar pelo final do inverno. No período de dezembro de 1944 a fevereiro de 1945 a frente onde os brasileiros combatiam ficou marcada pela disputa palmo a palmo entre patrulhas germânicas e brasileiras que se revezavam noite após noite para capturar prisioneiros e assim obter informações e pela troca de “donos” dos locais, hora ocupados por alemães, hora por brasileiros.
Mas foi em 21 de fevereiro, com comando da missão totalmente brasileiro, apoio aéreo da Força Aérea Brasileira e vários pelotões envolvidos, que o Monte foi tomado. Os combates começaram às 6h da manhã e só terminaram pela madrugada com a vitória brasileira. Os alemães recuaram para o norte da Itália e assim cada vez mais progressivamente nos meses seguintes até a rendição em abril de 1945 de mais de 14 mil alemães para os brasileiros em Fornovo, também na Itália.
Após a guerra os soldados voltaram para casa, tinham ficado quase uma ano combatendo juntos. Os oficiais da FEB tiveram contato com as idéias militaristas norte-americanas e queriam mudanças na política brasileira, talvez por isso o presidente Getúlio Vargas tenha extinguido a FEB tão logo o conflito terminou. Esses Oficiais foram em sua grande maioria os “golpistas” de 1964 que afundaram o país em uma DITADURA (assim mesmo em “caixa alta”).
Ao soldado simples, coube voltar à vida normal, ser professor, agricultor, servidor público, gari, as mais variadas ocupações sem ter direito a um centavo de pensão ou à assistência psicológica. Houve casos de pessoas feridas em batalha que voltaram com problemas graves de saúde e que tiveram de se virar para pagar seu tratamento. Não foram poucos os que viraram alcoólatras ou mendigos. A primeira pensão só foi paga já na década de 80, quase 40 anos depois do final da guerra. Ex-combatentes morreram sem ver seu direito sendo cumprido. Hoje sequer eles são lembrados. Em Dourados, por exemplo, não há nada que lembre a FEB, as comemorações quando acontecessem, ficam restritas aos quartéis.
Não quero criticar quem quer que seja com minhas palavras, mas parece que nossa sociedade ainda tem preconceito contra a FEB, confunde ou generaliza alguns Oficiais golpistas com todos os demais integrantes da FEB. Parece que a sociedade não entende que o soldado simples não tem ligação nenhuma com a barbárie de 64 que tirou do cidadão seus direitos.
Só para finalizar, parabéns veteranos ainda vivos, um saúdo especial às famílias dos que já se foram e saibam que eles foram importantes para o país e para a derrota do nazi-fascismo . Eis o nome de alguns ex-combatentes de Dourados:
Adolfo Martins Leite,Agenor Amaral, Alcides Martins Rosa, André Dutra Marques, Angélico de Castro, Antônio Alves da Costa, Antônio de Souza Chaves, Antônio Galdino, Antônio Scardine, Antônio Simão de Souza, Baltazar Saldanha, Cabo Ataíde da Conceição Machado, Cândido Fructuoso de Mattos, Coronel José Alves Marcondes, Dorival Bandineli, Elpidio Dias Norberto, Floriano Bonadimann, George Marks, Gumercindo Fernandes da Silva, Januário Antunes Maciel, João Bispo, João Manoel Colmán, Jorge Marques, José Genuíno dos Santos, Juvêncio Flores, Manoel Lins de Oliveira, Melanias Bronel, Napoleão Francisco de Souza, Odorico Machado, Oscar Barroso, Pompilho Castro, Ramão Faques, Ramão Ribeiro, Saturnino Rodrigues Lopes, Tomaz Bairros, Valdomiro Azambuja, Vicente Chimirri e Waldomiro Otanho.
Esses são só os douradenses. Se o leitor quiser saber mais sobre a FEB, acesse estes link’s: Link 1, Link 2, Link 3. Saudações febianas e até mais.
 
Helton Costa
Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo e pós-graduando em Estudos da Linguagem. É estudioso da FEB totalmente contra a Ditadura Militar de 64!

Fonte: Folha de Dourados

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