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‘O dia em que ele começou a se despedir sem dizer’, por João Roberto Giacmini

Ele não disse a ninguém.

E, ainda assim, alguma coisa começou a faltar antes mesmo de qualquer ausência.

Não foi um pensamento. Era mais baixo, mais difuso — como um leve desalinhamento entre o corpo e o lugar onde ele sempre coube sem esforço.

Naquela quinta-feira, demorou diante do armário. As camisas alinhadas, o cheiro conhecido de tecido guardado. Escolheu uma antiga. Não por gosto. Por reconhecimento.

No café, não havia pressa — e isso não era uma escolha.

Mexeu o açúcar devagar demais. O som da colher tocando a xícara parecia deslocado. Ficou observando o movimento por tempo suficiente para que o gesto deixasse de ser banal.

A esposa perguntou se ele estava atrasado.

Ele respondeu que não.

Ao sair, parou no portão.

Não foi decisão. Foi o corpo que suspendeu o movimento. Passou a mão pelo ferro frio, como quem verifica algo que não se explica.

Ali, algo começou.

Não um começo claro.

Um desvio mínimo.

O dia seguiu. Reuniões, respostas, vozes que se alternavam sem deixar marcas. Em dois momentos, riu. O som saiu correto.

Mas entre uma tarefa e outra, havia pausas que não eram comuns.

Ele passou a olhar as pessoas com atenção incomum. Pequenos gestos ganharam peso: uma mão sobre a mesa, o fim de uma frase, o jeito de alguém se calar antes de terminar.

Como se algo precisasse ser guardado.

No fim da tarde, recusou um compromisso. Disse que precisava voltar mais cedo. Ninguém estranhou.

Mas não era cansaço.

Era outra coisa que ainda não tinha palavra.

Em casa, abriu uma gaveta esquecida. Papéis, fotografias, um relógio parado.

Tentou dar corda. O mecanismo respondeu com um estalo seco e voltou ao silêncio.

Ficou olhando o relógio por tempo suficiente para que aquele silêncio deixasse de ser ausência.

Sentou-se na beira da cama.

E percebeu — não como ideia, mas como ajuste — que não era o relógio que havia parado.

Era outra coisa.

Não havia medo.

Isso era o mais estranho.

O medo daria forma. Aquilo não dava.

À noite, jantou normalmente. Participou da conversa. Riu no momento certo.

Mas entre uma fala e outra, havia intervalos onde ele não estava completamente ali.

Não era distração.

Era distância.

Antes de dormir, apagou a luz e permaneceu acordado. O encanamento, a madeira, a respiração ao lado — tudo como sempre.

E, ainda assim, havia uma diferença que não se localizava em nada.

Pensou em dizer algo.

Mas qualquer frase pareceria excessiva ou insuficiente.

Então não disse.

De manhã, acordou antes do despertador.

A luz no quarto ainda não era dia. Ficou deitado por alguns segundos, ouvindo a casa.

Tudo seguia.

Levantou-se.

Diante do armário, não hesitou. Pegou a primeira camisa.

No espelho, não demorou.

Ao sair, passou pelo portão.

Não parou.

E foi apenas nesse gesto ausente — nessa falha mínima onde antes havia um contato — que se tornou possível perceber:

não era que algo estivesse começando a ir embora.

Era que alguma coisa já tinha ido.

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