Pular para o conteúdo
Domingo, 8 de novembro de 2026 Dourados 26 °C

Desde 1968 Ano 58

Desde 1968 · Ano 58

Agora
Colunistas

‘O casamento de Brunilda’, crônica do escritor Elairton Gehler

'O casamento de Brunilda', crônica do escritor Elairton Gehler

Elairton Gehlen – escritor –

– Mãe, estou tão feliz!! 

Mais que feliz, a Brunilda estava radiante! Novo Sarandi é uma cidade pacata, onde todos se conhecem e não dá para fazer um evento sem que a notícia se espalhe. 

– A Vó, mãe, ela vai na festa? 

– Não, filha, não fica bem, ela nem fala mais. Melhor ela ficar em casa, já contratei uma cuidadora. 

Brunilda olhou-se no espelho e viu a Lua, e o mel escorrendo. Tão distante a Lua quanto o tempo que haveria de durar a paixão; tão doce o mel quanto o amor que espreme os corpos e retorce o favo, colhe o doce sabor em cada gota nas entranhas do bem querer. Já colhera o fruto, é verdade! Contratado em Cartório. Não fosse a pandemia e o padre já os teria abençoado há tempos! Mas, como, se não for acompanhado de uma grande festa? Agora, sim, diante de Deus e dos homens, o mesmo Deus que não faz acepção de pessoas e homens que se acham melhores que os outros, Brunilda irá se casar! 

– Que bom que o tio chegou. Uma viagem tão longa, pensei que talvez não viesse.  

A distância e o parentesco têm quase a mesma medida. Laços que amarram o tempo, nós que seguram sentimentos de pertencimento. A Vó que agora já não fala palavra, gerou o tio, as tias e o pai, é a mesma que, ainda garota, viera do Sul em aventuras da família para recomeçar a vida por esse descampado. Se ela falasse, o que diria?  

– Olha, mãe! – Brunilda tirara os olhos do espelho para pô-los através da janela. – Um bem-te-vi, está fazendo seu ninho onde até ontem uma pomba rola chocava seus filhotes… 

O seu ninho haveria de ser original. Nada de bem-te-vis, nem de chupins. Os filhotes haverão de ser chocados em brumas de Avalon.  

– O Padre vai nos abençoar, mas ele não há de mandar na minha casa. É bom ser mãe? 

A mãe passava as mãos pelos cabelos da filha, puxando um cacho por sobre o ombro. A mão espalmada acolhia a mecha de loiros cheia de sonhos de meninice. Um filme se lhe passa na memória. É bom ser mãe? Fechou a mão e virou-se para a janela, queira esmurrar parte do passado. A filha vai se casar. 

– Sim, filha, é bom… 

– A Vó não vai na festa, já não pode mais. A tia que mora ali do outro lado da rua, a irmã da Vó, ela vai? 

– Não filha, ela também já está muito velha, não a convidei, ela anda bengala, não ia ficar bem lá na festa. 

– Quando meus filhos se casarem, vai ser feio se eles te convidarem para a festa? 

Anuncie na Folha de Dourados

Desde 1968 informando Dourados e a Grande Dourados.

Fale com o comercial