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O Brasil livre (?) da crise

Opinião – 04/12/2009

     A
grande surpresa para todos os brasileiros foi o país passar sem
problemas pela crise internacional que quebrou grandes corporações nos
EUA e na Europa e turbilhonou o mercado de todo o mundo. Mas, além de
blindar-se em relação à tormenta, ainda vemos o alegre Brasil
emprestando dinheiro ao FMI (onde até há pouco era grande
devedor), o mercado imobiliário festejando recordes em financiamentos
de casas e a indústria crescendo a níveis invejáveis. Tudo isso é muito
bonito. Mas, para merecer comemoração, deve ser real e sustentável.
            Em nada adiantará termos um “booommm”
de produção na economia e a conseqüente elevação do consumo se o nosso
lastro não for suficientemente sólido para pagar a conta. Se o aumento do consumo de veículos, eletrodomésticos, moveis,
imóveis e outros bens estiveram lastreados apenas na desoneração fiscal
e na expansão do crédito, temos motivos de preocupação para médio e
longo prazo. O crescimento que agora se festeja pode ser apenas uma
perigosa bolha de efeito retardado e, logo após o seu espocar, teremos
a recessão, até mais violenta do que se tivéssemos enfrentado a crise
original, de peito aberto e fazendo os ajustes necessários.
            O
povo, enquanto consumidor, precisa ser urgente e convincentemente
informado se a onda de desenvolvimento hoje vista é real ou
constitui-se apenas estratégia governamental, largamente usada no
passado, para escapar da crise. Se for real, sustentada pela produção
da economia nacional, poderemos ficar tranqüilos e continuar
consumindo. Mas se for resultado apenas da renúncia fiscal e do
afrouxamento do crédito, temos de nos precaver. Um dia a economia terá
de chegar ao seu ponto de ajuste e se ela for movida exclusivamente a
crédito e a fórmulas estranhas à produção, a recessão chegará. Tudo que
sobe desce, principalmente se não têm sustentação.
            Se
a economia nacional é realmente capaz de absorver o impacto das
isenções e da concessão de crédito, estamos no caminho certo. Mas se
esses elementos não puderem se integrar permanentemente à matriz
econômica, certamente teremos o retrocesso. E, quando a bomba estourar,
será o caos.
            Incentivar o consumo e expandir crédito são
formas de combater a recessão em curto prazo. Mas, se o país não tiver
lastro para agüentar as conseqüências, é o caminho do caos. Espera-se
que o governo populista do presidente Lula seja responsável o
suficiente para não criar falsas expectativas e, principalmente, para
não induzir a população a consumir aquilo que não pode comprar.
            Agora
que a tormenta internacional já parece estar sob controle, tanto o
governo quanto as entidades que ditam o tom da economia nacional, têm o
dever de informar a população e ao empresariado, detalhadamente, sobre
as perspectivas da economia nacional. Mesmo que isso possa não atender
aos interesses político-eleitorais do presidente e de seu grupo. O povo
não pode, por causa de uma eleição, ser enganado e consumir mais do que
pode para, depois, ter de amargar a triste hora de pagar a conta dos
excessos cometidos.
            Cautela, seriedade e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém…
 
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – presidente da APOMI (Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo)
[email protected]

Fonte: Folha de Dourados

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