O belo não serve para nada
O belo não serve pra nada, diz a poetisa e escritora Raquel Naveira
Entrevista – 09/06/2008
A escritora e poetisa sul-mato-grossense nesta entrevista fala de uma das mais importantes obras de sua autoria o livro Portão de Ferro que recebeu muitos elogios da crítica especializada.
Nesta entrevista Raquel Naveira que é membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e atualmente circula nos meios literários do Rio de Janeiro e São Paulo fala da importância da poesia, sobre a situação da leitura no Brasil e dia que o belo não serve para nada.
Para ela a criação da beleza justifica a existência da poesia. O poema traz conhecimento, revelações, analogias inesperadas, surpresas. A poesia ensina, tem valor social, age sobre o povo, critica a sociedade, traz alegria profunda, mesmo quando choramos. A poesia para Naveira é documento, é linguagem elástica e precisa. Alimenta nossa alma, nossa essência, como maná no deserto.
Raquel, o que o Livro Portão significa para sua obra?
Portão de Ferro é um livro de poemas em que desenvolvo simultaneamente três linhas distintas de minha poesia: a memorialística, reunindo documentos da sensibilidade que oferecem conotações de interesse cultural quanto ao meio, economia e costumes de minha terra, o Mato Grosso do Sul; a lírico-amorosa, em que se articulam afetividade, drama, feminilidade; e a que poderia se chamar de geral, com doses de filosofia, delírio, reações de identificação com o mundo.
Por que Portão de Ferro? Porque vivo passeando por lugares de minha infância; desvendando os segredos dos nomes, expressões, palavras que ouvi quando criança e que me provocaram fascínio. Foi assim com Nunca-te-vi, região da fronteira com o Paraguai, em que reuni poemas celebrando o invisível, e agora com Portão de Ferro, uma referência a um local da cidade de Campo Grande, que me fez quando menina sonhar com uma passagem para o mistério.
O livro contém 85 poemas, alguns mais curtos, outros de fôlego. Exponho-me sem medo de ridículo, com a coragem dos que são guiados pelo talento. Sou capaz de chorar pela perda de minha cachorra, de vestir-me de sol e lua, de me sentir moça para mergulhar no rio, de correr atrás de bandos de borboletas, de me transportar para dentro de quadros. Minha poesia celebra figuras humanas como Helena Meireles e Humberto Espíndola e penetra no sentimento universal da arte. É ainda uma poesia de amor, de profunda melancolia existencial, um banho nas fontes do coração.
Os tempos se mesclam: alguns revelam uma criança, outros uma mulher madura e amargurada, mas sempre lutando, resistindo, esperando tudo e não esperando nada, apenas vivendo com intensidade. Arrisco-me a criar com a emoção à flor da pele.
Convoco a todos a abrirem esse Portão de Ferro e a entrarem em bosques e florestas regidos pelas leis sobrenaturais da Poesia.
Ao seu ver, qual é a situação da poesia no Brasil atualmente?
Todos os homens têm necessidade de expressão: em amor, em arte, em política, no jogo, no trabalho, todos querem expressar seu doloroso segredo.
Vivemos num mundo de globalização, de fragmentação, de pulverização, de neoliberalismo, de múltiplas mídias. Por toda parte, em cada esquina, em cada praça, por sítios e galáxias, há poetas declamando, escrevendo, bradando poemas. É difícil peneirar o que realmente tem valor literário, uma voz se sobressair nesse contexto, uma personalidade se firmar, um nome marcar. Acontece, é claro, porque há sempre quem tenha um trabalho sério e sensível, carisma, militância, persistência, acesso aos meios de comunicação.
Isso não acontece apenas com a Poesia. Em todos os campos dá-se o mesmo processo. Há uma grande democratização: muitas pessoas se formam, têm um diploma de curso superior, mas não conseguem se firmar em suas profissões ou ofícios. As proporções de marginalização e injusiça são descomunais e cruéis. Um caleidoscópio que forma imagens e mandalas a cada segundo. É preciso focar calmamente o céu para conhecer o brilho das estrelas.
Quem lê poesia no Brasil?
Temos observado que, mesmo os alunos do Curso de Letras, geralmente não têm o hábito de ler poemas. A poesia está em crise. Os meios de comunicação fornecem à população a emoção poética. Há revistas de moda, jardinagem, decoração. Há cinemas, televisões, estádios, autódromos, espetáculos com animadores. A violência e os choques rondam por toda parte. A poesia muito intelectualizada, feita de exercícios puros de linguagem, desligada da realidade comum, sem clareza de expressão, distanciou o público da poesia.
Afinal, a poesia serve para quê?
O belo não serve para nada. A criação da beleza justifica a existência da poesia. O poema traz conhecimento, revelações, analogias inesperadas, surpresas. A poesia ensina, tem valor social, age sobre o povo, critica a sociedade, traz alegria profunda, mesmo quando choramos. É documento, é linguagem elástica e precisa. Alimenta nossa alma, nossa essência, como maná no deserto.
Como é que você vê a crítica literária no Brasil atualmente exercida nos suplementos culturais, especialmente do Rio de Janeiro e de São Paulo?
A crítica literária deveria fazer seu papel de ponte entre a obra literária e o leitor, de forma ampla e democrática. Divulgar o produto livro, as agendas de lançamentos das editoras e das livrarias, publicar resenhas, entrevistas com autores, notícias sobre o mercado editorial e sobre a vida cultural e acadêmica. Nessa rede encontram-se vários interesses pessoais e financeiros, principalmente os das editoras e os dos jornalistas culturais. Se a editora é forte, se tem um serviço de assessoria de imprensa, se tem estratégias de venda, a obra/produto obterá maiores espaços. Se o autor publicou de forma independente ou por editoras pequenas, obterá menos ou nenhum destaque.
Por que ser poeta num país que nega a poesia e prima pelo desencanto de quase tudo?
Como aconselha Rainer Maria Rilke, em Cartas a um jovem poeta, jamais olhei para fora, para a situação do país, para o drama da pobreza e do analfabetismo, para o desencanto e a melancolia. Procurei entrar em mim mesma, investiguei o motivo que me levava a escrever, examinei os recantos profundos da minha alma e confessei: morrerei, se não escrever. Sempre me senti poeta, como uma sina, uma fatalidade, algo superior a mim. Escrever para mim é viver, é respirar, é minha forma de ser e estar no mundo. Construí toda minha vida de acordo com essa necessidade: as leituras, a formação, a dedicação ao magistério de língua portuguesa e literaturas, os livros que escrevi, a militância cultural e acadêmica, a comunicação e o jornalismo. Costurei as dobras de um pano que são sonho e realidade, verso e reverso.
O poeta é levado a sério no Brasil?
A poesia está presente nos currículos; há eventos dedicados à poesia (congressos, simpósios, encontros, saraus); oficinas de poesia; concursos e prêmios que atraem centenas de concorrentes; editores que publicam poesia. Essa velha arte continua a ter espaço na vida de muitas pessoas.
Há também uma relação entre Poesia e Educação. O poeta e o educador ensinam conhecimentos. A poesia ensina a ver o mundo de forma inaugural, nova, intuitiva, é o pasmo essencial de que falava Fernando Pessoa. É o conhecimento do desconhecido, do misterioso, do indizível.
No meu caso, em especial, sempre uni as duas vocações: Poesia e Magistério. Brinco com poemas artefatos. Sou menina pura e velha sábia. (Nicanor Coelho)
* Leia a entrevista na íntegra na Folha impressa desta semana.
Fonte: Folha de Dourados



