26/05/2018 14h06

Por: Cleiton Zóia Münchow

Existem vários tipos de fantasmas e alguns podem ser muito perigosos, Virginia Woolf sabia muito bem disso, a escritora se viu obrigada a matar um deles, foi legitima defesa, caso de vida ou morte. Em 1931 Virginia partilhou a descrição dessa batalha em conferência para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres quando, por ocasião do encontro, leu um pequeno ensaio, possivelmente, escrito para ocasião: Profissão para mulheres. Convidada a falar sobre sua profissão como escritora ela conta que, tão logo pegou a caneta, já nas primeiras páginas, topou com o fantasma de uma mulher, a qual, depois de a conhecer, em irônica homenagem a um poema, chamou de Anjo do Lar. Bela e boa porque pura, a fantasma queria interferir diretamente em sua escritura, paralisar suas mãos e pensamentos, não admitia que uma mulher escrevesse e, se escrevesse, pensava ela, ao menos fosse para o agrado dos homens. Virginia recorda de um de seus primeiros trabalhos, ela precisava fazer uma resenha sobre o livro de um romancista famoso, ao iniciar a escrita a fantasma apareceu atrás dela e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Esta escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeei; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente, seja pura”. Com essas ideias o Anjo do Lar queria guiar a caneta de Virginia.

Entre Virginia e a página em branco constituiu-se um espaço como campo de batalha, com a fantasma a escritora precisou entrar em disputa pela caneta, a escrita era o que ela considerava como única ação em que tinha algum mérito próprio, e era justamente isso o que o Anjo do Lar queria dela tirar. Consciente de que poderia viver sem se comportar como a mulher fantasma exigia, Virginia partiu para cima dela e agarrou-lhe pela garganta com a finalidade de esganá-la. Demorou muito tempo para matar o Anjo que insistia em viver, mas a escritora, precavida, durante o processo, assim que sobre a página avistava a sombra de suas asas ou o brilho de sua auréola, atirava-lhe o tinteiro. Caso algum tribunal resolvesse indaga-la sobre a morte do anjo, a legitima defesa seria a desculpa: “Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo”. A dificuldade em matar o fantasma é enorme, pois sua natureza é fictícia e, como bem observou a escritora, “é muito mais difícil matar um fantasma que a realidade”, a luta é dura e nos faz perder muito tempo.

Em 1928, n´Um Teto Todo Seu, Virginia construiu um exemplo que nos parece útil ao entendimento do processo de produção fantasmática, ela inventa uma personagem e a aplica a um caso concreto fazendo aparecer a verdadeira face do fantasma, seu processo de produção. Judith é o nome da personagem que Virginia Woolf cria para ser a irmã de Shakespeare. Como bem nos alerta a escritora, o dramaturgo não teve nenhuma irmã, mas se tivesse uma com talento ao dele equivalente, o que se passaria? Poderia ela, nascendo com as mesmas aptidões literárias do irmão, desenvolver obra com genialidade igual a dele? A resposta de Virginia é negativa. Os motivos são simples: ela não teria as mesmas condições sociais e materiais que o irmão e, portanto, mesmo que tivesse uma tão maravilhosa inclinação para a literatura quanto o irmão, seu talento feneceria. A irmã de Shakespeare, Judtidh, não teria acesso ao mesmo tipo de educação que o irmão, seria obrigada a se casar e se, por acaso, recusasse o casamento seria espancada pelo pai. Mesmo que fugisse de casa para tentar uma vida mais livre que lhe possibilitasse viver de seus escritos, não conseguiria, pois lhe seria negado o ingresso no universo teatral que lhe garantiria o sustento. A imaginária irmã de Shakespeare, depois de todas as tentativas de viver de sua arte, nos diz Virginia Woolf, “matou-se numa noite de inverno e agora está enterrada em alguma encruzilhada onde agora param ônibus em frente ao Elephant and Castle”. O Anjo do Lar é o fantasma de Judith e sua natureza ficcional é totalmente ancorada na realidade.

Matar o Anjo do Lar, escreveu Virginia, “foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do lar fazia parte da atividade de uma escritora” e ainda vai levar muito tempo, pensa a autora, “até que uma mulher possa sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precisa matar, uma rocha que precise enfrentar”. O Anjo do lar se refere a uma experiência real das mulheres, se de fora talvez não seja possível perceber uma diferença entre um homem e uma mulher escrevendo, de dentro, pensa Virginia, há uma diferença fantasmática. As mulheres escritoras, diferentemente dos homens escritores, precisam enfrentar as tormentas e os incômodos causados pela presença do Anjo do lar. Esse fantasma, temos razões para supor, se configura sob outras faces quando trata de assombrar outras minorias. Socialmente produzido, com a finalidade de obter nossa servidão, ele instaura o medo nas expressões mais vitais do nosso desejo. Foi ao começar a escrever que Virginia Woolf viu o fantasma, e escrevendo conseguiu mata-lo, para ela, era uma questão de escrita, de expressão das forças impessoais que não podem ser mensuradas pelo poder, uma questão de vida e morte.

Cleiton Zóia Münchow

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