Crônica sobre paqueras, timidez e a distância que cabe numa tela
Nos anos 80, ninguém precisava de sinal para amar.
Bastava dar algumas voltas e sentar no banco certo da praça, na hora certa, e esperar que o coração fizesse o resto.
A timidez era o primeiro adversário de qualquer paquera. Vencê-la já contava como declaração.
Não existia mensagem de “oi, tudo bem?” mandada às três da manhã só para conferir se a pessoa ainda estava acordada. Existia o telefone fixo, de fio comprido o suficiente para chegar até debaixo da escada, e a torcida silenciosa para que ninguém mais da casa estivesse ouvindo a ligação por outro aparelho.
Existiam bilhetinhos dobrados em triângulo, passados de mão em mão até chegar à pessoa certa — e o pavor de que chegassem à errada.
Olhos nos olhos era o algoritmo daquele tempo. Não havia curtida, havia rubor. Não havia “visto por último”, havia aquele instante em que os dois desviavam o olhar ao mesmo tempo, fingindo interesse repentino em qualquer outra coisa no mundo.
Pegar na mão era vitória. Vitória de verdade, dessas que a gente lembra o lugar exato onde aconteceu, a música que tocava, o vestido, a camisa, o cheiro de poeira ou de chuva.
Um beijo, então, era acontecimento de calendário. Tinha data. Tinha testemunha escondida atrás de árvore. Tinha depois — meses de comentário sussurrado pela escola inteira.
Hoje observo, no ônibus, na fila do banco, na mesa do bar, casais inteiros sentados frente a frente, cada um dentro da própria tela, como dois países vizinhos que resolveram fechar a fronteira.
Estão juntos e ausentes ao mesmo tempo. O coração já não acelera por quem está na frente — acelera por uma notificação que pode ser de qualquer um, menos de quem importa naquele momento.
Não é saudosismo bobo, nem vontade de voltar no tempo para suar o mesmo tanto sem ventilador.
É outra coisa.
É a suspeita de que trocamos o tremor de esperar alguém olhar de volta pelo conforto de nunca mais precisar esperar por nada.
A timidez sumiu. Mas levou junto aquele acelerar de peito que só ela sabia provocar.
Hoje se conquista rápido. Descarta-se mais rápido ainda.
Talvez o problema nunca tenha sido a tecnologia.
Talvez seja que aprendemos a estar em todos os lugares ao mesmo tempo — e, com isso, esquecemos como se fica inteiro em um só.
(Por João Roberto Giacomini – advogado e cronista)


