Minas Gerais tem se tornado um cenário central na disputa e expansão das maiores organizações criminosas do Brasil. O que antes era uma presença discreta, iniciada por volta de 2010, transformou-se em uma atuação intensificada nos últimos cinco anos, especialmente na capital e Região Metropolitana
Segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), o estado lida hoje com a presença consolidada do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e do Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP), ambos do Rio de Janeiro.
A influência dessas organizações é refletida no sistema prisional. Dados da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) indicam que o número de detentos ligados ao PCC e ao CV saltou de 1.900 em 2019 para aproximadamente 3.200 até março de 2026, um aumento de 68%.
Um dado alarmante revelado por Greco é a localização das lideranças que atuam em solo mineiro. Devido a restrições de operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia, muitas lideranças buscaram refúgio naquele estado. “Desses 50 alvos principais [de Minas], 45 estão no Rio”, revelou o secretário, destacando a importância das operações integradas entre as unidades da federação para capturar esses líderes
Para o secretário da Sejusp, Rogério Greco, a dinâmica dessas organizações exige estratégias distintas de combate. Em entrevista ao Jornalismo da RECORD Minas, ele explicou que, enquanto as facções fluminenses focam no domínio territorial, o PCC possui uma estrutura mais difusa. “O PCC é como se fosse uma metástase. Ele tá no corpo inteiro, você não sabe exatamente onde é que esse camarada tá”, afirmou o secretário
Greco ressalta que o foco do Estado tem sido o asfixiamento financeiro: “A gente atua no combate, principalmente à parte financeira dessas facções. E quando você começa a sangrar financeiramente as facções, elas começam a minguar”.
Papel do Sistema Prisional
O combate não se restringe às ruas. Com 166 unidades prisionais e cerca de 82 mil presos, o sistema penitenciário mineiro é a principal fonte de dados para as forças de segurança.
Segundo Greco, a integração entre as polícias Civil, Militar e Penal é o diferencial de Minas Gerais. “Quase tudo acontece dentro do sistema prisional. Então as lideranças todas basicamente estão presas e eles tentam se comunicar de todo jeito. E aí a gente faz operações basicamente diárias”, explicou
A Polícia Penal tem sido fundamental na extração de informações, seja através da apreensão de celulares ou de bilhetes (“catuques”). Recentemente, uma operação mobilizou cerca de 2.000 policiais penais apenas para coleta de inteligência dentro das unidades
Tráfico Internacional
A expansão do crime organizado em Minas também explora a vasta geografia do estado. A operação “Mar de Minas”, realizada em conjunto com a Marinha, revelou que facções utilizam a malha fluvial mineira para atividades ilícitas. “Muitas coisas ali [em barcos e casas em represas] dizem respeito à lavagem de dinheiro”, afirmou Greco
A conexão com o tráfico internacional também ficou evidente com a recente prisão de Douglas de Azevedo Carvalho, o “Mancha”, na Bolívia. Líder da facção local TDD, Mancha mantinha aliança com o PCC para o transporte de drogas rumo à Europa e Ásia, demonstrando que grupos locais estão cada vez mais vinculados a organizações de alcance global
Além de Mancha, na semana passada, Patrick Fernandes de Oliveira, de 33 anos, apontado como um dos criminosos mais perigosos de Minas Gerais, foi capturado em uma operação internacional após anos de fuga, no Paraguai. Nos últimos anos, ele assumiu a liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC) na região da Vila Francisco Mariano, em Contagem, com expansão para Ribeirão das Neves.
Apesar do cenário desafiador, o secretário assegura que as forças de segurança mantêm a supremacia. “O estado sempre vai ser mais forte do que qualquer facção”, pontuou Greco.
(Informações R7)
