Pantanal de MS

Liderança indígena relata situação dramática dos índios com a Covid

Pastor e líder terena diz que povo indígena sofre com falta de atenção, desinformação e preconceito

30/07/2020 08h12 - Por: Folha de Dourados

 
Médica Viviane Orro e o pastor Jader Oliveira - Foto: reproduçãoMédica Viviane Orro e o pastor Jader Oliveira - Foto: reprodução

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"Quando a pandemia apareceu, já se anunciava aos quatro ventos que a nossa imunidade é zero no caso de problemas respiratórios, nosso organismo não absorve. Estamos sofrendo porque nenhuma ação preventiva foi feita. Compartilhamos casas, terrenos, não temos divisão de cercas. A vida comunitária, que sempre foi a nossa força, agora vem a ser nossa fraqueza".

O desabafo é de um índio da nação terena que vive em Aquidauana: Jader Jorge de Oliveira, 58. Formado em teologia e pós-graduado em Filosofia, ele é presidente há 25 anos da Uniedas (União das Igrejas Evangélicas da América do Sul), criada em 1972 e pioneira em formar e enviar índios missionários para as comunidades originárias de várias regiões. Fundada em Mato Grosso do Sul para "formar obreiros autóctones por meio do ensino secular e teológico para plantação de igrejas autóctones", a Missão Indígena Uniedas tem ramais em outros estados, entre os quais Mato Grosso, Rondônia e São Paulo, trabalha com 29 etnias, possui dois centros de treinamento teológico e dois centros de formação secular.

Jader participou de uma das lives (transmissões ao vivo pela Internet) que a médica e ex-secretária municipal de Saúde de Aquidauana Viviane Nogueira Orro vem realizando às terças e quintas para debater a pandemia da Covid-19, analisar os seus impactos, conferir as intervenções do poder publico e orientar as comunidades. Ontem (terça-feira, 28), a liderança terena fez um relato emocionado e revelador sobre a situação dramática de seu povo que, no município, soma cerca de 7,4 mil indivíduos em 10 aldeias. Os números oficiais divulgados ainda sofrem questionamentos, mas calcula-se que até o início desta semana o contágio atingiu mais de 100 índios e ao menos nove morreram em consequência da Covid-19.

DIREITOS - Ao analisar para Viviane as causas que envolvem o drama de seu povo, Jader observou que muitos direitos garantidos aos povos indígenas pela Constituição de 1988 até hoje não foram efetivados dentro das comunidades, como as políticas diferenciadas de educação e saúde. "Com isso, a dificuldade de não entender nossa vida comunitária passa a ser um agravante. Nossa força passa a ser um agravante na pandemia. Quando a pandemia apareceu, já estava anunciado aos quatro ventos que a nossa imunidade é zero no caso de problemas respiratórios, o nosso organismo não absorve. Estamos sofrendo porque nenhuma ação preventiva foi feita. Compartilhamos casas, terrenos, não temos divisão de cercas. A vida comunitária, que é a nossa força, agora vem a ser nossa fraqueza".

Jader aponta uma contradição que agrava mais a situação, ao salientar que apesar dos avanços e da rapidez da tecnologia a desinformação continua ainda muito presente nas comunidades. O pastor destaca outro fato: os líderes indígenas são ignorados pelo poder publico quando são tomadas decisões que lhes dizem respeito. "Nossos líderes não fazem parte da gestão do município. São apenas anunciados sobre o que vai ser feito ou o que não vai ser feito", lamenta.

IMPACTOS E PRECONCEITO - Para o líder evangélico terena, é preciso entender que nas aldeias a pandemia não afeta somente a área da saúde, mas afeta a vida econômica, a social e a familiar. "Há uma grande preocupação com o estado psicológico do povo. Sofremos, além disso, com o preconceito. Se nem a sociedade que já está mais acostumada ao sistema, se o mundo não está conseguindo enfrentar a pandemia, então imagine quem, como nosso caso, só recebe a informação. Só recebemos a informação, não fazemos parte dela".

Jader faz questão de expor outra face do problema, informando que os agentes indígenas recebem protocolos e ordens da Secretaria de Saúde, "lá na ponta, isso chega bem tarde. Mas eles [os agentes] têm se esforçado, têm trabalhado. Prova disso é que metade do efetivo está afastada, com sintomas. Já perdemos metade do efetivo porque eles estão enfrentando as dificuldades".

Sobre os investimentos públicos no enfrentamento da doença Jader Oliveira faz questão de enfatizar: "As informações que nos chegam dão números elevadíssimos sobre os milhões destinados para o combate ao coronavírus. Mas estas informações só chegam agora, quando a situação já é crítica, alarmante. Não recebemos um alerta, uma necessária prevenção. Não quero aqui isentar nossa comunidade. Assim como temos dificuldade na cidade pra manter o isolamento, então pra quem vive aqui na comunidade a situação é pior".

ALERTAS – Desde que o estado de calamidade publica começou a vigorar em Mato Grosso do Sul, a médica e ex-secretária municipal de Saúde Viviane Orro passou a fazer sucessivas intervenções para orientar a população, propor e cobrar providências das autoridades, além de apontar falhas e deficiências que prejudicam o enfrentamento da pandemia. Para isso, Viviane recorre a gravação de vídeo e outros recursos das redes sociais.

Viviane tentou levar sua experiência e os seus conhecimentos à rede publica municipal de Saúde, oferecendo-se como voluntária, sem remuneração, para reforçar o contingente de profissionais na luta contra o coronavírus. Entretanto, sua presença foi vetada pelo prefeito aquidauanense Odilon Ribeiro (PSDB). Ele vai tentar a reeleição e certamente não deseja por perto uma concorrente, embora o que esteja em jogo sejam a vida e a saúde de seres humanos e não o voto dos eleitores.

Com um médico para cerca de 7,4 mil índios em 10 aldeias distantes entre si, Aquidauana vive uma situação que preocupa autoridades brasileiras e mundiais que acompanham os desafios dos povos originários. Até o início da semana eram 73 casos e seis mortes. Élton Vieira, o único médico, desabafa: "Atender a todos ao mesmo tempo é impossível. Não há efetivo e nem carro suficientes para toda essa logística".

A Funai (Fundação Nacional do Índio) está sem estrutura mesmo. Os pátios dos Distritos Sanitários Indígenas estão cheios de veículos quebrados, alguns já destinados à sucata. A Dsei informa que são cerca de 150 veículos sem uso há quase 10 anos. Por causa desta e de outras deficiências o Ministério Publico Federal (MPF) ajuizou ação publica para reparar a insuficiência de médicos, a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), a inexistência de isolamento e de barreiras sanitárias, que só existem por iniciativa dos próprios índios.

PREFEITURA ATRASADA - Pressionada pelos fatos e com atraso, a prefeitura aquidauanense enviou três médicos e três profissionais de enfermagem. Entretanto, os índios reclamam que a equipe não fica o dia todo nas aldeias porque necessitam de atenção o tempo todo. O Dsei informou que os veículos parados não serão mais utilizados porque são velhos demais e inservíveis.

Foram destinados R$ 634 mil pelo Ministério da Saúde para aquisição de medicamentos destinados às aldeias. Porém, o ambiente nas aldeias hoje é desolador em virtude do desânimo de seus moradores. Antonio dos Santos, cacique da Aldeia Limão Verde, diz: "A gente não quer ver nossos irmãos sendo enterrados por falta de atendimento". Cecildo Gabriel emenda: "As pessoas precisam olhar para nós com mais carinho".

 

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