TIME DE ROBINHO

Gestão, investimento e fãs constroem a nova força do futebol turco

Başakşehir, do brasileiro Robinho, pode furar o "Big Three" com apenas 30 anos de existência

30/06/2020 13h40 - Por: Folha de Dourados

 
Robinho foi titular na última partida do Istambul Basaksehir (Foto: Divulgação/Istambul Basaksehir) Robinho foi titular na última partida do Istambul Basaksehir (Foto: Divulgação/Istambul Basaksehir)

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Nos arredores do porto de Rumeli, lado europeu de Istambul, a histórica cidade turca, um bairro surgiu entre fábricas de munição para o Império Otomano e escritórios militares. Seus moradores, conhecidos por fazer muito com poucos recursos, os Başakşehir. A região ganhou status de distrito apenas em 2009, mas seus pouco mais de 300 mil habitantes já têm um orgulho: o seu clube de futebol, que está a poucas rodadas de faturar o primeiro título nacional da sua história.

O que hoje assombra Galatasary, Besiktas e Fenerbahçe nasceu pequeno, oriundo das ligas amadores da cidade. Até 2006, circulava pelas divisões menores do futebol turco, alternando entre a segundona (TFF First League) e a terceirona (TFF Second League). Foi quando o jovem empresário Goksel Gumusdag se tornou presidente do clube, que então chamava-se IBB (Istanbul Buyuksehir Belediyesispor), ou o clube metropolitano do município. Depois de idas e vindas, ele hoje é o mandatário do time do brasileiro Robinho e de outras estrelas internacionais que formam o poder do líder da Süper Lig.

Três anos após a chegada do novo presidente, o Istambul terminava a liga em sexto. Em 2011, chegou à final da Copa da Turquia, perdendo para o gigante Besiktas nos pênaltis. A arquibancada, porém, não acompanhava a ascensão nos gramados e em seus jogos, o Estádio Olímpico de Istambul ficava às moscas. Visionário, Gumusdag viu no recém-criado bairro de Başakşehir uma potencial casa para garimpar novos torcedores. A vizinhança também é o berço do partido AK, do atual presidente da Turquia, Recep Erdogan, que era prefeito de Istambul no período de maior desenvolvimento da localidade nos anos 1990.

Enquanto isso, o técnico Abdullah Avci, que trabalhou no Galatasaray e nas seleções de base da Turquia construía um time forte, responsável pelos sucessos relatados acima, que o guindaram à seleção principal do país em 2011. Já com o novo estádio em construção, a saída do treinador e do presidente desestabilizou o clube, que caiu para a segunda divisão em 2013, voltando na temporada seguinte e já na nova casa: o Fatih Terim, com capacidade para cerca de 18 mil pessoas. Era a virada definitiva do Başakşehir como uma instituição forte.

Aqui está a primeira diferença para os gigantes Gala, Fener e Besiktas. Oito acionistas controlam o futebol do Istambul desde 2014, demolindo a antiga estrutura de entidade associativa tradicional, com a dos outros três da cidade. A baixa cobrança de uma torcida ainda pequena e com poucas expectativas ajuda no planejamento de médio e longo prazos. "Quando você não é dono do clube, tem que pensar nas eleições", sentenciou Mustafá Erogut, diretor-executivo em entrevista a um site inglês. A gestão atual do campo baseia-se na contratação de grandes nomes experientes, como Emmanuel Adebayor, Robinho, Demba Ba e outros, e na boa observação e formação de talentos como Cengiz Under, comprado por 500 mil euros de um time menor em 2016 e vendido à Roma no ano seguinte por 13,4 milhões de euros.

Em sua volta ao clube, em 2014, Abdullah Avci construiu um modelo de jogo em seu trabalho de cinco anos, encerrado em 2019. Uma defesa forte e fechada e um contra-ataque letal numa mistura interessante entre experientes e jovens que levou o Başakşehir às suas primeiras competições europeias, as fases preliminares da Liga Europa em 2015 e a Champions League dois anos depois. Não a toa é o atual vice-campeão nacional. O desafio agora é massificar a marca do clube, ganhando a confiança dos torcedores do futuro, contra a tradição de gerações de pais e avós, ligada aos três titãs da cidade.

O clube alinha sua imagem à modernidade e à juventude. Um centro de formação com 11 campos dá oportunidade aos garotos do bairro no futebol, além de abrir suas portas à comunidade em uma cidade com pouco espaço verde, embora colada ao Mar de Mármara. A primeira torcida organizada do clube é a "1453 Basaksehirliler", criada em 2014. Eles correm o bairro dando palestras e oferecendo ingressos com desconto nas escolas, além de proibir xingamentos e violência dentro do grupo. O público médio chegava, em 2018, a 5 mil pessoas. O número no nome da torcida é o ano da conquista de Constantinopla pelos Otomanos, um "afago" ao partido AK, conservador e fã do antigo regime.

Por mais que o clube e seus torcedores neguem, a política faz sim parte da cultura do clube. Há acusações de racismo contra a população curda, por exemplo. Os torcedores dizem que são apenas patriotas e nacionalistas. "Ideologias ficam do lado de fora do estádio", alegam. Os rivais, cada vez mais preocupados com esse modelo aparentemente sustentável, reclamam do apoio do governo. Erdogan esteve na inauguração do estádio e dizem que um time de bairro pequeno não deveria ter um suporte tão grande do Estado, que nega essa ligação. O presidente se diz torcedor do Fenerbahçe desde criança.

Com os clubes do "Big Three" mergulhados em escândalos de corrupção, falta de dinheiro e o êxodo dos craques estrangeiros após a pandemia, esse filho caçula de uma das cidades mais apaixonadas por futebol no mundo tem boas chances de romper a barreira do "quase". O empate contra o Galatasaray por 1 a 1 e os tropeços do Trabzonspor abrem caminho para o título inédito. Sábado que vem, o adversário é o Antalyaspor, a partir das 14h45, às margens do Mediterrâneo, jogo que a RedeTV! mostra para todo o Brasil. Se vencer, pode abrir até cinco pontos do vice-líder, que tem o Gala pela frente também. Nada mal para quem nasceu perto do mar e quer conquistar um país inteiro.

(Marcelo do Ó/RedeTV!)

 

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