Tiago Alinor Hoissa Benfica

No meio do caminho tinha uma pedra: o crescimento da UFGD e as amarras do autoritarismo

A volta dos discursos do Comando de Caça ao Comunista parece estar mais em voga atualmente do que fora, em Mato Grosso/Mato Grosso do Sul, na década de 1970

13/06/2020 08h19 - Por: Folha de Dourados

 
O governador Pedro Pedrossian, que nomeou o primeiro diretor do então CPD/CEUD, aparece no fundo da fotografia, ao lado do senhor de terno branco, Salomão Baruki, primeiro diretor do ISPC/CPC, hoje, câmpus da UFMS de CorumbáO governador Pedro Pedrossian, que nomeou o primeiro diretor do então CPD/CEUD, aparece no fundo da fotografia, ao lado do senhor de terno branco, Salomão Baruki, primeiro diretor do ISPC/CPC, hoje, câmpus da UFMS de Corumbá
 
 Tiago Alinor Hoissa Benfica Tiago Alinor Hoissa Benfica

Clique aqui e curta nossa página no Facebook

Por Tiago Alinor Hoissa Benfica - Doutor em História. Autor da Tese "História e Universidade: a institucionalização do campo histórico na Universidade Estadual de Mato Grosso/Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (1968-1990)". Professor da educação básica (SEDUC-MT) e do ensino superior (UNEMAT-Sinop)

A história da Universidade Federal, em Dourados nos mostra que, desde o seu início, ela esteve sincronizada, ou mesmo, foi impulsionada pelas demandas econômicas e pela força política das lideranças do município; o que reverberou em iniciativas bem planejadas para o ensino superior na região. Prefeitos e vereadores, ainda na década de 1970, pensavam conseguir, para a cidade, uma grande quantidade de cursos de graduação, a fim de suprir as demandas de mão de obra técnica para o setor agropecuário; e eles também eram receptíveis aos discursos que clamavam para uma melhoria do "nível cultural" da população, o que, obviamente, implicava a expansão do sistema de ensino para alfabetizar os cidadãos. Aquela classe política também acolhia iniciativas no campo das letras, das poesias, das artes, sem, é claro, descuidar-se das solenidades cívicas, algo muito valorizado pelo espírito nacionalista dos militares e seus apoiadores.

No ano de 1971, o antigo Centro Pedagógico de Dourados, então pertencente à Universidade Estadual de Mato Grosso, portanto, antes da divisão do estado e da criação de Mato Grosso do Sul, começa suas atividades com, tão somente, dois cursos (o extinto Estudos Sociais e o curso de Letras) e seguiu uma trajetória de crescimento muito especial, a ponto de o CPD/CEUD (antigas siglas para a unidade da UEMT/UFMS de Dourados), conseguir alcançar sua independência de Campo Grande. A criação da UFGD, em 2005, no primeiro governo Lula, foi um projeto político também articulado por um grupo de professores com influência na esfera federal, que superou, meritocraticamente, os interesses políticos conservadores, e até mesmo, a época da então "vacas magras", do governo neoliberal da década de 1990.

Esse clima de otimismo, de crescimento contínuo, foi quebrado, quando essa "independência" das instâncias decisórias, duramente conquistada e coroada com a implantação da UFGD, é solapada pela mudança das regras do jogo. Ocorre que, com o desrespeito ao resultado das eleições internas da Universidade em 2019, o que configura uma "intervenção" na reitoria, por parte do governo federal, é um fato autoritário que nos remete, novamente, aos "bons tempos" dos militares, ou melhor, bom para os amigos dos donos do poder. E existem indicações na história de que práticas autoritárias já aconteceram na atual UFGD? Sim, mas há contrastes com relação aos acontecimentos de hoje.

Na década de 1970, para se ocupar um cargo importante na esfera pública, além de certa competência necessária para determinada função, era preciso ser amigo de um político ou general, ou ao menos frequentar algum dos grupos de poder do lugar. Por esse motivo, o primeiro diretor da Universidade em Dourados foi nomeado, diretamente, pelo governador Pedro Pedrossian, portanto, não foi escolhido pelas instâncias internas à Universidade; porém, como se tratava do início da existência de uma instituição, naquele momento, isso não parecia ser um problema. Mas o clima amistoso que reinou no "CEUD", durante alguns anos, com um diretor que parecia fazer um trabalho exemplar, deixou de existir quando o "chefe" foi confrontado por alguns professores, na metade da década de 1970, que exigiam melhores condições de trabalho, e questionavam-lhe certas práticas obscurantistas e autoritárias. Resultado: os líderes do "movimento sedicioso" que iniciaram uma "greve" foram demitidos pelo diretor. Esta triste lembrança na história dos primeiros professores da UFGD teve sua página virada após um ano, quando ganhou força as denúncias de ordem financeira contra o dirigente, e o mesmo acabou por ser exonerado: chega um ponto que nem o compadrio político suporta certas ações. A reviravolta foi tal que os professores demitidos, e que haviam permanecidos na cidade, foram recontratados com a federalização da Universidade, e alguns deles traçaram uma trajetória que rumou na formação de um grupo que lutava pela criação da UFGD.

Apesar dessa rusga que estremeceu a Universidade de Dourados, o clima era agradável entre os docentes, mesmo nos "anos de chumbo" da ditadura militar. Houve até uma famosa "república" de professores, sede de muitos churrascos entre os docentes, com discussões políticas que podiam se inflamar, e esse espaço nunca foi desrespeitado pela polícia. Quem ocupava os postos de mando da Universidade, na maioria das vezes, estava filiado à ARENA, ou então não deixava de manifestar ideias conservadoras sobre a estrutura socioeconômica da região, hoje referidas como ideias de "direita". Mas a princípio, para o cidadão democrata, haver pessoas politicamente de direita ou de esquerda não era necessariamente um problema: o problema era quando havia o desrespeito às regras na escolha das lideranças de setores da administração institucional, e os gastos financeiros mal explicados.

E hoje, como está a UFGD? A volta dos discursos do Comando de Caça ao Comunista parece estar mais em voga atualmente do que fora, em Mato Grosso/Mato Grosso do Sul, na década de 1970. E quando se achava que as conquistas das práticas democráticas seguia um aperfeiçoamento contínuo, como, por exemplo, a realização das eleições internas na universidade e o respeito ao seu resultado, hoje temos o retorno de práticas autoritárias ao estilo da ditadura militar, que tolhe princípios democráticos, e por isso, vemos que a reitoria da UFGD está sob intervenção, sob o pretexto de uma gestão "pró-tempore". Mas essa comparação não deixa de ser grosseira, porque, em um dado momento da ditadura, os militares que tomaram o poder em 1964 construíram um projeto para as universidades públicas, mas hoje, o único objetivo que o governo federal realmente deixa claro, é o de colocar seus correligionários, os seus amigos e os amigos dos amigos nos postos de mando, de poder, nas instituições do Estado brasileiro.

O atual contexto de interferência verificado na UFGD é mais um obstáculo ao seu processo de consolidação, contudo, assim como no passado, ele será superado, e os personagens nele envolvidos figurarão na trajetória da história da educação superior em Mato Grosso do Sul, e serão lembrados por suas posições e ações, políticas e ideológicas, que optaram em se estabelecer.

 

Envie seu Comentário