Crônica

Paraguaia

24/07/2020 14h57 - Por: Folha de Dourados

 
Elairton Gehlen Elairton Gehlen

Clique aqui e curta nossa página no Facebook

Elairton Gehlen - escritor

Hoje fui andar pela rua, com máscara e mantendo aquele cuidado com a distância de outras pessoas, encontrei, sentado numa mureta dessas que ficam embaixo das vitrines, do lado de fora da loja, um homem com uma fotografia na mão direita, olhava para ela conversando e acariciava a foto com a outra mão. A vitrine atrás dele mostrava roupas femininas.

Parei instintivamente e fiquei olhando a vitrine, mas atento ao homem da mureta com cara de apaixonado. Ele me olhou com aquele olhar perdido e disse: Eu olho a fotografia e sinto o desejo de conversar com ela, a fotografia mesmo!, dá vontade de saber o motivo desse sorriso gostoso, essa expressão de alegria, a espontaneidade dos gestos, o corpo todo que parece se mover, com uma lata de refrigerante na mão sempre a me oferecer: quer?

Quero! Ele disse com um sorriso incontido. Quero tomar do refrigerante, pegar na mão e já que esses olhos são tão lindos, quem sabe não posso passar a mão pelos cabelos e acariciar o rosto. A fotografia continua sorrindo e os olhos dizem que sim. Pode, pode sim! A fotografia, ele continuou dizendo, traz a praia para dentro desta rua e eu mergulho nas ondas e nesse vai e vem até me afogar nesse mar de ilusões. Não há matemática que explique essa distância tão grande que estou desse lugar em que mergulhei, toco o infinito e há um infinito entre eu e ela.

Não resisti a esse comentário. É um poeta! Só um poeta consegue conversar com uma fotografia com tanto sentimento. Me aproximei e olhei para a mulher da foto, era muito bonita mesmo, não sei precisar a idade, mas que importa a idade se o olhar é sereno e alegre, o rosto expressa um sorriso maravilhoso e o corpo parece mesmo estar balançando numa música jovial, com uma lata de refrigerante na mão, estendida para mim, quer dizer, para o poeta da mureta da loja de roupas femininas.

Gostou? A pergunta quase me derrubou, me escorei na vitrine e fui me sentando na mureta ao lado do poeta, sentando e levantando e andando de lado até ficar à uma distância segura. Na matemática do amor parece que as equações nem sempre dão o resultado esperado, continuou o poeta, tem sempre uma variável indeterminada ou uma função infinitesimal, principalmente se a incógnita for uma paraguaia! Ela é paraguaia? É, sim, e veio para o Brasil só para me atentar! É a tua esposa? Quem dera!

‘Quem dera!’ foi a expressão mais triste que já ouvi em toda minha vida. Pensei em consolar o poeta, mas para que? Não me senti no direito de tirar a poesia que estava com ele. Levantei-me e fui pela rua procurando poesia nos rostos das pessoas. Que falta me faz uma fotografia!

 

Envie seu Comentário