Diz Harvard

Contaminação pelo ar causou 59% dos casos de Covid

31/07/2020 06h54 - Por: Folha de Dourados

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Pequenas partículas suspensas no ar tiveram papel decisivo na transmissão da infecção pelo novo coronavírus em um navio de cruzeiro no Japão, que infectou mais de 700 pessoas no início deste ano, de acordo com estudo assinado por pesquisadores de Harvard.

Segundo o artigo, a transmissão pelo ar foi responsável por 59% dos contágios dentro da embarcação, e apenas 41% de todas as transmissões teriam sido feitas pelo contato com as gotículas de saliva. Para chegar a este número, os cientistas recriaram o surto em um computador e observaram os padrões nas taxas de contaminação.

O navio Diamond Princess foi apontada como um dos hot spots da epidemia ainda em fevereiro, quando poucos países confirmavam casos de Covid-19. Com mais de 3,7 mil passageiros, o navio chegou a ficar quase um mês de quarentena em um porto japonês.

"Essas descobertas ressaltam a importância da implementação de medidas de saúde pública direcionadas ao controle da inalação de aerossóis, além de medidas em andamento que visam evitar a contaminação por gotículas", escreveram os autores.

O artigo "Mechanistic Transmission Modeling of COVID-19 on the Diamond Princess Cruise Ship Demonstrates the Importance of Aerosol Transmission" foi publicado em 15 de junho como prévia (pré print) em uma plataforma de textos científicos e submetido a uma publicação. Ele ainda aguarda a revisão pelos pares (outros cientistas), na chamada peer review.

Modelos computacionais

Em um programa de computador, os pesquisadores criaram mais de 21,6 mil cenários possíveis para a infecção, mas apenas 132 deles se mostraram mais próximos à realidade observada no navio e que seguiam critérios específicos, que levaram em conta, por exemplo, o ritmo de contágio.

Também simbolizado por Rt, o "ritmo de contágio" é um número que traduz o potencial de propagação de um vírus: quando ele é superior a 1, cada infectado transmite a doença para mais de uma pessoa e a doença avança. No navio este número ficou entre zero e 0,95.

Os pesquisadores defendem que um modelo computacional pode ajudar a entender melhor como o vírus é transmitido, já que não há estudos empíricos que expõem voluntários intencionalmente à infecção. Segundo eles, abordagens matemáticas apontam para os caminhos mais prováveis de transmissão.

Transmissão aerossol

"Nossos resultados demonstram que a inalação de aerossol foi dominante na transmissão da Covid-19 entre os passageiros a bordo do Diamond Princess", escreveram os autores do estudo. "A quarentena imposta aos passageiros também se mostrou importante, o que prova o impacto deste tipo de intervenção."

Aerossóis são micropartículas muito, muito pequenas, de poeira, poluição, que ficam em suspensão no ar. Em um centímetro cúbico de ar, pode haver de dez a vinte mil aerossóis. O vírus é ainda menor. E pode se colar a essas micropartículas – que se transformam em superfícies de transmissão.

Após pressão da comunidade científica, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a transmissão da Covid pelo ar não pode ser descartada em alguns tipos de ambientes internos específicos, mas incluiu a ressalva de que a infecção reportada por pesquisadores nesses locais pode estar ligada a uma combinação de fatores e que mais estudos são necessários.

Paciente zero

Outro estudo feito com a tripulação do Diamond Princess descobriu que a infecção no navio começou com apenas um passageiro. Publicado na quarta-feira (28) pela revista "PNAS", o artigo avaliou o código genético do vírus que não apresentou alterações à bordo.

Segundo os pesquisadores, a linhagem encontrada entre os viajantes foi exatamente a mesma de Wuhan, na China, onde ocorreu o primeiro surto da doença. O estudo sugere que o vírus se espalhou rapidamente pelo navio em jantares e bailes antes dele ser colocado em quarentena.

Os autores do "Haplotype networks of SARS-CoV-2 infections in the Diamond Princess cruise ship outbreak" conseguiram traçar a sequência completa do RNA do vírus em uma amostra de 73 passageiros e ao menos 29 deles tinham o código idêntico ao inicial. Outros dois grupos foram identificados com pequenas mutações, que acontecem por conta das replicações do vírus.

(G1)

 

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