John M. Barry

'Se a vacina demorar ou não for 100% efetiva, muita coisa vai mudar', diz autor de 'A grande gripe'

Escrito pelo historiador John M. Barry, 'A Grande Gripe' é livro de cabeceira de Bill Gates

03/07/2020 15h03 - Por: Folha de Dourados

 
O historiador John M. Barry. Foto: CHRIS GRANGER / DivulgaçãoO historiador John M. Barry. Foto: CHRIS GRANGER / Divulgação

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Repetir que a verdade é a arma mais poderosa contra uma pandemia se tornou quase um mantra para o jornalista e historiador americano John M. Barry, professor da Faculdade de Medicina Tropical e Saúde Pública da Universidade de Tulane.

Barry é o autor de "A Grande Gripe" (Ed. Intrínseca), obra seminal sobre a pandemia de influenza que matou mais de 50 milhões de pessoas entre 1918 e 1919. Bill Gates, o fundador da Microsoft que se tornou o maior filantropo do mundo no combate de epidemias, diz que este é um de seus livros de cabeceira em tempo de coronavírus.

Na obra, Barry mostra como a gripe espanhola se espalhou graças à Primeira Guerra e à política. Ele vê paralelos com a Covid-19 e alerta que o Brasil se tornou uma "notável" exceção entre os países que não reconhecem a gravidade da situação. Para ele, o presidente Jair Bolsonaro é "um idiota perigoso".

Que paralelo o senhor faz entre a postura dos líderes mundiais hoje e os da época da gripe espanhola?

As motivações são totalmente diferentes, mas os resultados são bastante parecidos. Em 1918, a maior parte do mundo estava em guerra, e os líderes de muitos países não queriam permitir que o público recebesse notícias negativas. Elas poderiam impactar o esforço de guerra ou abalar o moral. Países europeus censuravam a imprensa e nos Estados Unidos houve autocensura. A influenza desembarcou nesse contexto e muitos governos simplesmente resolveram mentir. Hoje, quase todos os líderes do mundo, em algum grau, reconhecem que esta é uma pandemia grave.

E o Brasil?

O Brasil tem sido uma notável exceção ao consenso mundial. Alguns líderes, como os da Coreia do Sul e da Alemanha, para citar apenas dois, têm dado grande sustentação política ao combate da pandemia. As pessoas apreciam a verdade. Já outros líderes, como Donald Trump, são enganadores. Mesmo depois após ter declarado que seu país estava "em guerra", Trump continuou a enganar o povo americano e a minimizar o impacto da pandemia. E sua popularidade têm caído nas pesquisas.

Como o senhor vê o posicionamento de líderes que negam a ciência, como os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro?

Serei diplomático. Eles são idiotas perigosos.

O combate à Covid 19 tem sido comparado a uma guerra, o senhor acha essa metáfora correta?

Certamente é uma guerra para a comunidade científica. Estamos num momento em que a Humanidade é atacada, e os cientistas se voluntariam para ajudar. Mas esse engajamento varia quando se fala de governos, de nações e mesmo da sociedade civil.

O combate de pandemias pode levar ao autoritarismo?

Qualquer crise pode levar a isso, incluindo esta que atravessamos. Certamente, o rastreamento de contatos de infectados pode levar a abusos, dependendo da forma como for realizado. Mas, no momento, a maioria dos líderes de países democráticos que tentaram fazer movimentos nessa direção (autoritária) cometeram erros tão grandes, que acabaram por se enfraquecer politicamente.

Como o senhor chegou à hipótese de que os EUA são a provável origem da gripe espanhola?

Os primeiros casos detectados no mundo aconteceram no Kansas, em janeiro de 1918. No livro, investigo essa hipótese e traço o caminho da doença até a Europa. Porém, as pesquisas prosseguiram depois que concluí o livro e penso que, baseado em novos estudos epidemiológicos, é mais provável que o vírus tenha surgido na China. Outras hipóteses incluem a França e o Vietnã. Nunca saberemos de verdade.

Quais são hoje os lugares do mundo onde podem surgir vírus potencialmente pandêmicos?

Na selva, seja na Amazônia ou na África.

A doença inflamatória associada ao coronavírus tem mecanismos aparentemente semelhantes aos da gripe espanhola, embora sejam infecções causadas por vírus diferentes. O mundo não deu a devida importância ao estudo de complicações de infecções virais?

De fato, as tempestades de citocinas (substâncias produzidas pelo sistema imunológico) deflagradas por ambos os vírus são muito similares. Muitos recursos foram alocados contra ameaças virais, como HIV, zika, Mers, Sars e vários vírus influenza potencialmente pandêmicos. Mas os vírus nos trazem problemas muito difíceis de resolver. Eles não estão vivos, logo não podemos matá-los.

A gripe espanhola ensinou alguma coisa ao mundo?

Ela demonstrou a eficiência do distanciamento social e do lockdown. O mundo acabaria por tomar essas medidas, independentemente do passado porque elas fazem sentido, mas a experiência de 1918 provou sua grande eficácia.

O senhor acha a Covid-19 mudará, de fato, algo na sociedade?

Depende de por quanto tempo perdurará a pandemia. Se conseguirmos desenvolver uma vacina em breve e ela for eficiente, acredito que as coisas voltarão ao normal pré-pandêmico muito depressa. Mas se a vacina demorar ou não for quase 100% efetiva, muitas coisas irão mudar, de hábitos pessoais à cultura, ao trabalho e à arquitetura, por exemplo. (O Globo)

 

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