Janine Holc

'Negacionismo do Holocausto e ascensão da extrema direita são movimentos ligados', diz pesquisadora

Segundo Janine Holc, tentativas de negar as atrocidades do regime nazista são tão antigas quanto a Segunda Guerra, mas ganham força na atualidade

27/01/2020 08h10 - Por: Folha de Dourados

 
Sobreviventes do Holocausto atrás de cerca de arame farpado no dia da liberação de Auschwitz Foto: Yad Vashen Archives / Via ReutersSobreviventes do Holocausto atrás de cerca de arame farpado no dia da liberação de Auschwitz Foto: Yad Vashen Archives / Via Reuters

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Ana Rosa Alves, em O Globo

Há exatos 75 anos, soldados soviéticos ingressaram no campo de extermínio de Auschwitz, onde cerca de 1,1 milhão de pessoas foram mortas pelo nazismo, liberando os cerca de 7 mil prisioneiros que continuavam lá. A data, desde então, é relembrada não só por sua importância histórica, mas também para homenagear o sofrimento do povo judeu e de todos aqueles exterminados pelo regime de Adolf Hitler.

O significado do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, no entanto, tem ultrapassado sua importância histórica, levantando reflexões sobre o crescimento do antissemitismo, da extrema direita e do discurso de ódio mundo afora. Em entrevista ao GLOBO, Janine Holc, professora de Ciências Políticas da Universidade Loyola, em Maryland, nos Estados Unidos, afirmou que esses fenômenos não apenas estão relacionados como também como põem em risco a memória do genocídio do povo judeu.

Qual é o significado histórico e político da liberação de Auschwitz?

A palavra Auschwitz significa mais que simplesmente o campo de extermínio Auschwitz. Hoje, ela é usada como um sinônimo para todo o Holocausto e para o projeto nazista de tentar exterminar não só a civilização judaica da Europa, mas também outros grupos, como os ciganos e os homossexuais. Esse significado, então, é duplo: há o evento histórico de fato, no qual os soldados da União Soviética chegaram em Auschwitz em janeiro de 1945 e perceberam, pela primeira vez, a extensão do que os nazistas faziam lá. A liberação também se tornou um símbolo para relembrar o Holocausto e como entendemos a história do Holocausto, no geral.

Como vê as tentativas de negacionismo dos fatos que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial?

Primeiramente, o negacionismo do Holocausto ocorre desde a liberação de Auschwitz. Nós a vemos no julgamento de Eichmann [Adolf Eichmann, um dos mais conhecidos líderes nazistas e mentores do Holocausto], quando ele tenta apresentar sua versão. Testemunhas, na ocasião, tiveram que apresentar e dar seus depoimentos para que deixar claro aquilo que de fato aconteceu. Nos anos 1970 e 1980, no entanto, houve um crescimento na sofisticação do negacionismo do Holocausto. Nós vemos historiadores como David Irving desenvolvendo o que aparentam ser pesquisas históricas reais e verídicas que tentam mostrar que o Holocausto não aconteceu. Isso tornou o combate ao negacionismo ainda mais difícil.

E como isso se traduz hoje?

Hoje, eu vejo algumas coisas importantes: esse movimento está se tornando muito mais organizado. Assim, as tentativas da extrema direita antissemita de negar o Holocausto fazem parte de uma rede muito sofisticada — ela é física, com pessoas que viajam, e virtual, na internet. Outro ponto é que isso acaba se misturando com a ascensão de movimentos nacionalistas em muitos países pelo mundo. Governos nacionalistas, como os da Hungria e da Polônia, estão usando alguns dos movimentos antissemitas para aumentar sua própria legitimidade e impulsionar sua própria agenda.

Isso, de alguma maneira, é simbiótico com a ascensão de figuras de extrema direita, como Viktor Orbán, Marine Le Pen, Matteo Salvini?

Eu acho que cientistas políticos, jornalistas e críticos culturais ainda não entenderam e desvenderam completamente como o antissemitismo e o negacionismo do Holocausto presentes desde 1945 estão relacionados com o crescimento atual do populismo e do nacionalismo. Eu acho que esse elo existe, mas seu funcionamento é uma questão interessante porque você tem esses líderes, mas também há pessoas votando neles. Você tem grandes grupos de eleitores que estão dispostos a votar em plataformas políticas e retóricas que são, fundamentalmente, anti-humanistas. Este é um quebra-cabeça que nós estamos começando a montar.

A maior disputa de narrativas sobre a Segunda Guerra Mundial diz respeito às versões defendidas pela Rússia e pela Polônia. Como você vê esse processo?

A Rússia de Vladimir Putin vem se tornando muito estratégica no que diz respeito à sua política externa e muito habilidosa em manipulações, como nos vemos nas eleições americanas de 2016 [nas quais suspeita-se que Moscou tenha agido em benefício do presidente Donald Trump]. Assim, quando Putin e seus aliados veem qualquer oportunidade para atacar algo consensual dentro da Otan (a aliança militar ocidental), eles podem aproveitá-la.

Também há uma compreensão dentro da Rússia de que o país não é suficientemente reconhecido por seu papel na derrota do nazismo. A União Soviética perdeu 26 milhões de cidadãos, ou mais, durante a guerra e foram eles que liberaram Auschwitz. Eles não se veem como responsáveis, mas como vítimas e libertadores.

Nos últimos anos, temos visto tentativas do governo polonês de negar a participação do país no Holocausto. Isso é relacionado, de alguma maneira, com a ascensão da extrema direita ou é uma questão mais interna?

Eu diria que o Lei e Justiça (PiS), partido do poder na Polônia, se vê como uma vítima do revisionismo histórico. Eles argumentam que a Polônia sempre foi uma vítima e que, agora, historiadores estão utilizando as experiências dos judeus para apontar sua cumplicidade com o regime nazista e minimizar seu sofrimento. Até agora, a Polônia nunca havia ingressado no negacionismo do Holocausto. A maior parte da população polonesa sabe muito bem como é viver sobre a ocupação nazista, então nunca negariam o que aconteceu.

Muitas forças no governo, no entanto, acham que a ênfase na experiência do povo judeu minimiza a verdade da experiência polonesa. Eles as entendem como duas narrativas indissociáveis. Assim, se tornam mais vulneráveis às correntes antissemitas e às fantasias nacionalistas.

Isso é apenas uma maneira ver os fatos por lentes diferentes ou há algum perigo concreto?

Vivemos em um momento muito perigoso, é importante salientar. É especialmente perigoso para comunidades judias e para os LGBTIs da Polônia, que também são alvo da retórica do governo. Você vê indivíduos adeptos dessa retórica portando armas e atirando em sinagogas — é, fisicamente, bastante perigoso.

A Rússia também torna este momento bastante crítico, demonstrando sua disposição para ultrapassar fronteiras com a ocupação da Criméia [que começou em 2014]. Os Estados Unidos, por sua vez, questionam a Otan e o comprometimento dos integrantes europeus. Tudo isso faz com que este seja um momento bastante perigoso para a região.

 

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