Ateleu Rolin - Fotos: Ilson Boca Venancio

Ilson Boca Venâncio –

Para falar sobre essa relação é bom se atentar no tempo da história quando ela nos conta da chegada dos povos brancos na região territorial Guarani Caiuás.

Um dos meus personagens, Sr Ateleu Rolin, repassa para mim o que os mais antigos contavam.

Quando o povoado de Dourados começou a se formar havia curiosidade dos dois lados, em saber um sobre o outro, os que aqui já estavam e os que chegavam.

Conta que eles ficavam acompanhando de longe o movimento das famílias que iam chegando à região formando suas fazendas e cada casa que se construía formando o povoado de Dourados.

Em seu relato lembra quando eram pequenos seus pais falavam para que não chegassem perto de estranhos que era perigoso, aí quando avistavam uma pessoa vindo em sua direção se escondiam.

Contam que aos poucos foram se aproximando, pois sempre tinha alguns que aprendiam e falava o Guarani que vinha falar pelos outros e a aproximação acabou acontecendo. No começo com a troca de presentes, e aos poucos foi se formando um hábito comercial entre os dois povos.

Havia objetos de interesse entre ambos e os hábitos de consumo foram se fazendo entre eles criando um vínculo comercial favorável a ambos.

“Nossas plantilhas começaram a ser trocadas por botinas, calça e camisa, que passaram a ser necessários para quem tinha que conviver com a cidade” relata.

Os índios passaram a vir com frequência a cidade vender os seus produtos da cadeia alimentar como mandioca, batatas, palmitos, frutas, ervas e também seu artesanato tradicional como flechas, colares, cocares, entre outros. 

Já tinham a agricultura de subsistência e aos poucos foi se estabelecendo uma relação comercial deixando a relação mais fortalecida em bases comerciais.

Essa conversa me fez vir a memória a minha infância, quando eu ficava observando minha mãe no portão de casa, conversando na língua Guarani com os índios para efetuar as compras e trocas.

Ateleu me conta que com a criação da feira esse comércio se intensificou porque passou a ter um ponto de comércio livre

“A aldeia sempre produziu muito para vender na feira, diretamente na banca, também como ambulante ou como fornecedor para a revenda. O fato da aldeia ser próxima da cidade sempre facilitou os negócios”, diz ele.

O meu personagem pertence ao povo originário, da etnia Guarani Caiuás aqueles que já habitavam aqui há séculos, que não sabe precisar há quantos! O seu calendário era contado pelas fases da lua em um tempo contínuo, não por dias meses e anos.  

As primeiras relações do povo da aldeia, com os homens do povoado foram comerciais, através de trocas, tendo sido os índios os primeiros agricultores da nossa região, além de tudo o que a natureza oferecia.

Dedicam-se a cultivar produtos de seu consumo, como mandioca, milho, cana, batata doce, abóbora, palmito entre outros.

O relacionamento comercial era difícil para os índios que pouco entendiam de valores monetários. Para eles o valor era relacionado a necessidade e não ao valor da moeda.

Logo os homens do povoado perceberam que o índio não era ambicioso, que sempre que se desfaziam de seus bens era simplesmente para conseguir em troca, aquilo que necessitavam, assim eles sempre pechinchavam procurando um jeito de conseguir o que queria pelo menor valor que fosse possível.

Tornou hábito de os indígenas virem para cidade fazer seus negócios, se tornando vendedores ambulantes.

Há algum tempo atrás era bem comum ver indígenas vendendo colares e flechas na rua, hoje já não e tão comum.

Mais a venda a domicilio da mandioca batata doce, abóbora, milho verde ainda é bem comum.

“Essa relação do nosso povo com a cidade, trouxe a troca de muitos hábitos alimentar que vejo como positivo, também o acesso de nossos filhos a escolas e a universidade”, afirma.

Apesar também de pontos negativo como doenças, prostituição, alcoolismo e por último as drogas.

“O álcool é muitas vezes usado como troca por produtos de maior valor, se aproveitando do estado de embriagues”, diz Ateleu.

Com a criação da Feira Livre muitos moradores da aldeia, ao invés de ficarem percorrendo a cidade, vinham a até ela. Como não possuíam uma banca, ficavam nas bordas da feira para comercializar os seus produtos, outros andavam pela feira vendendo seus artesanatos de flechas e colares.

O feirante indígena me conta que começou a vir vender na feira a convite do seu sogro Nestor Inarde, um dos mais antigos feirantes e que não mais queria vir vender na feira.

“Ele não queria mais vir e me ofereceu a sua banca, isso já faz mais de trinta anos”, mas fornecia os produtos para a revenda.

Afirma que a aldeia sempre produziu muito para vender na feira, diretamente na banca, também como ambulante ou como fornecedor para a revenda.

Na nossa feira livre era comum a venda dos artesanatos que traduz a cultura indígena.

Para mim que desde pequeno aprendi a consumir os produtos da aldeia por serem produtos que não oferecem riscos à saúde humana, que admiro e respeito a cultura desse povo acolhedor e amigo Caiuás e Guaranis, os meus agradecimentos por essa nossa conversa que resultou em mais uma história da nossa Feira Livre da Rua Cuiabá.

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