Dona Antonia - Fotos: Ilson Boca Venancio

Ison Boca Venâncio –

A minha história oral de hoje enfoca quatro personagens da etnia Guarani Caiuás tradicional, que sempre priorizaram a produção artesanal: o casal Dona Antônia e Seu Argemiro Arce, Roberto Chipê e Kunha Yxapy.

O casal produz e vende seus trabalhos na feira há mais de cinco décadas. “Eu vendo na feira livre, desde quando a feira era na rua do fórum”, diz Dona Antônia. Seus trabalhos são flechas, colares, cocar, e demais peças que fazem parte de adereços que compõem a sua cultura tradicional.

“Quando a gente vende nossas peças, cópias originais dos adereços sagrados da nossa cultura aproveitamos o diálogo para falar o que significa para nós cada objeto”, afirma. Essa é uma forma de conscientização e resistência, ensinar para os mais novos sobre as suas tradições.

Dona Antônia gosta de lembrar que entre a nação Guarani eles já tiveram momentos de união mais estreitos e idealiza que essa união possa ser restabelecida e fortalecida pelas rezas de seus caciques em torno de objetivos comuns: mais saúde e equilíbrio entre todos.

“Quando nossos caciques estão mais unidos, se reunindo e rezando pelo seu povo para espantar as doenças e coisas ruins, as coisas melhoram para o seu povo. A gente conquista mais coisa, escolas, saúde, organização e assistência”, explica.

Seu Argemiro complementa que é preciso preservar a cultura do seu povo, que é a prova da sua existência. Diz em tempos que havia união, “a vida da aldeia era melhor”.

Chipê me diz que a forma de relação do índio era bem diferente do homem branco, para eles a natureza é nossa mãe e merece todo respeito.

Ele acompanhou a trajetória de crescimento de nossa cidade e observava que a medida que a cidade crescia foi acabando as árvores da área urbana, em alguns momentos chegando a faltar lenha para cozinhar, pois anteriormente os fogões eram tocados a lenha.

Diz que: “Eles tinham o costume de cortar de uma só vez muitas árvores, as que serviam para uso de suas necessidades ou vender vendiam, e o restante queimavam só por queimar, para limpar a terra, assim logo faltou lenha para o fogão e começaram a comprar esse produto da aldeia”.

Isso foi estreitando os laços entre a população da cidade com a indígena. Lembra que foi muitas vezes com seus pais e tios levar lenha para vender na cidade.

Entre eles, na aldeia, no começo usavam para lenha nos fogões paus secos das árvores que morriam pela idade, mais com o tempo, pela influência do povo da cidade, as nossas reservas foram desaparecendo, a nossa agricultura também foi sofrendo mudanças.

Conta-me que também tinha participação na feira livre periodicamente em tempo de guavira. Essa fruta apreciada por toda a nossa população!  Catava e levava na feira para vender, assim também fazia na colheita do milho verde, do jatobá, jenipapo, fruto do caraguatá, esse muito usado para o preparo de xarope, manga e outras ervas e frutos da nossa cultura.

Chipê fala da sua cultura tradicional, da dança e reza que equilibra o corpo promovendo saúde, e que isso é muito importante para todos. Destaca que preservar os ensinamentos dos antigos, sobre como colher e utilizar os remédios que a natureza oferece na forma de plantas e ervas, evitam doenças em nosso corpo e com a dança e reza em forma de cantos servem para reforçar o bem espiritual junto ao criador.

Gosta de realçar que o seu principal trabalho para venda é o artesanato tradicional, e é através dele que difunde a sua cultura. Aonde ele vai sempre leva consigo seus artesanatos para dar continuidade a preservação da sua cultura e tradição, além de expor para venda nos entrepostos e lojas especializadas em artesanato.

Chipê me contou que teve um tempo que a prefeitura disponibilizou uma banca para eles venderem artesanato na feira, mas que ele mesmo só foi um dia. Não se sentiu à vontade.

“É um tipo de comércio que é melhor fazer como ambulante, assim a gente vai atrás do freguês, conversa com ele, fala da nossa cultura e o significado de cada peça do nosso artesanato”.

Conta que a sua participação na feira sempre foi temporã, na época da guavira, de milho verde e mandioca. Disse que tinha um espaço no final da feira entre a Avenida Presidente Vargas e Cafelândia que era permitido para a aldeia, logo aquele local ficou conhecido como o ponto da mandioca, afinal, a tradicional mandioca amarelinha ou branca, não pode faltar na nossa mesa. Já o artesanato ele prefere vender em entreposto onde o turista vai procurar ou o ambulante.

Já Kunha Yxapy relembra que tinha apenas seis anos de idade quando ia com sua avó a feira livre vender o que ela produzia.

Diz ter saudades daquele tempo, porque ir à cidade além do preparo dos produtos para venda, também tinha o preparo das pessoas para sair de casa. “Isso já faz tempo, hoje a gente não faz mais isso, muitas coisas em nossos costumes mudaram com o passar do tempo com o avanço da tecnologia, comunicação, acesso as escola e universidade, informação, muitas coisas mudaram”!

Para mim que sempre convivi com muito prazer com os povos originários, com quem muito tenho a aprender sobre as tantas culturas existentes dessa nossa América do Sul, fico muito grato pela liberdade de conversa que me permitiu escrever mais uma história da nossa Feira Livre da Rua Cuiabá.

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