‘Nelsinho Trad e seus fantasmas reais’, por Oscar Ramos Gaspar
Campo Grande – 27/01/2010
Voçorocas, muriçocas, rede municipal de saúde de Campo Grande transformada em caso de polícia…O prefeito Nelsinho Trad não precisaria, definitivamente, de mais nada para dizer que tem um começo de ano azedo.
Só que Nelsinho Trad (PMDB) parece gostar de relações perigosas. Pelo menos do ponto de vista político. Isso talvez explique porque o prefeito decidiu abrir mais duas frentes de combate: rebaixou o percentual do repasse para a Câmara Municipal e ‘precipitou’ o anúncio de seu apoio. Com alto poder de combustão política, essas duas novas iniciativas poderiam ser detonadas mais à frente, em momento mais ameno. Porém, olhando assim, de longe e de fora, parece que o prefeito campo-grandense é adepto da ‘teologia’ de que sem é pra vir vendaval, depois granizo, então que venham vento e granizo juntos. Depois a gente vê o que faz.
Com a gigantesca voçoroca da Avenida Ceará escancarando uma emblemática ‘boca’ que engolirá quatro milhões de reais – a ‘dispensa’ de licitação é tema para outra hora – e um naco da aura de eficiência da administração municipal, Nelsinho Trad já teria um ‘bom’ problema para começar 2010. Afinal a enorme erosão exposta em um dos pontos nevrálgicos do sistema de transportes de Campo Grande, é só lado mais visível (está na banda rica da city) da deterioração de centenas de quilômetros de vias públicas em consequência das chuvas.
Acrescente-se à voçoroca, as horrendas hordas de muriçocas que, em ondas sucessivas de aedes ageypti, se abatem sobre a capital e se corporificam nos míseros e mortais munícipes sob a forma da indecente e insidiosa ‘dengue’. E ganham proporções de novo epidêmicas, quaisquer que sejam as estatísticas e referências que se usem.
Com o fantasma da epidemia dengosa engrossando a demanda, o sistema de saúde municipal expõe sua vexatória fragilidade estrutural, suas fraturas e luxações e feridas mal curadas: faltam médicos, faltam políticas consistentes, regionalização eficaz, hierarquização e por aí afora.
O que nem o mais ácido crítico do sistema de saúde municipal ou o mais ferrenho adversário político de Nelsinho Trad seria capaz de ‘suspeitar’ é que está faltando, imagem, segurança, braço armado, no sistema de saúde. Não, não é ‘guarda’ armado de bombas costais para disparar fumacê de detonar os mosquitos da dengue, não. Diz Nelsinho Trad que está faltando a policiamento mesmo, homens armados de cassetete e revólver, para reprimir os impacientes pacientes que esperam por horas ou dias nas filas das doentes e dolentes unidades de saúde municipais.
Seria cômico, se não fosse dramaticamente trágico, que o prefeito da Capital anunciasse, sem qualquer constrangimento, que está pedindo ao governo do Estado que a Polícia Militar seja usada para conter os ‘ânimos’ dos desanimados munícipes que, cansados de esperar, podem ser, presume-se, considerados uma ameaça a médicos, enfermeiros, técnicos e às próprias instalações.
Mesmo sendo médico considerado e político habilidoso, Nelsinho Trad não se deu conta de que a ‘rebelião da impaciência’ promovida por gente que não suportava mais esperar em uma unidade de saúde, não é consequência da falta de policiamento… mas de atendimento digno, da falta de médicos e de respeito.
Nesse caso, se o governador André Puccinelli, também médico, não ceder policiais militares para guardar unidades de saúde do município, estará evitando uma ilegalidade e contribuindo para que Nelsinho Trad não cometa um grave erro político.
Mas o prefeito Nelsinho Trad, dizíamos lá no longínquo começo, é homem que, parece, gosta de viver perigosamente. Pois não é que, mesmo com tudo isso ainda ‘inventaria’ mais.
Ao reduzir, de 5% pra 4,5% do Orçamento, o percentual de repasse para a Câmara Municipal, comprou briga com o Legislativo. Afinal, mexeu na mais sensível e explosiva questão ‘institucional’: a ‘receita’ da Casa que, como se sabe, não gera um centavo dos milhões que torra. De todo modo, esse impasse pode custar caro a Nelsinho Trad.
Contudo, tudo isso ainda parece pouco para Nelsinho Trad. Ninguém sabe se por intuição política, por matemáticos cálculos ou maquiavélicas deduções, o prefeito peemedebista decidiu antecipar o anúncio formal de seu apoio à petista Dilma Roussef.
Com seu partido, o PMDB, na coligação que sustenta o governo Lula e, formalmente convidado a integrar a chapa da própria Dilma com a indicação de Michel Temer para vice, SERIA natural que Nelsinho Trad proclamasse seu apoio à ministra. ‘Seria’, se o governador André Puccinelli, que se considera mentor, padrinho, paraninfo e patrono político de Nelsinho Trad, não tivesse de enfrentar aqui a candidatura de Zeca do PT, seu arquiinimigo e, claro, parceiro preferencial de Dilma.
O prefeito, dizem, ainda não comunicou formalmente sua decisão a André Puccinelli. Mas o fato de ter antecipado ao distinto público sua decisão de ‘ir com Dilma’, antes de fazê-lo ao voluntarioso governador, pode lhe trazer incômodos tão o mais sérios que as voçorocas e muriçocas.
Fonte: www.blogdooscar.com.br



