MS tem só 20 vagas para tratar jovens usuários de drogas
Faltam vagas – 13/04/2008
O risco de prisões em flagrante durante roubos à mão armada, as surras da polícia, a reprovação da namorada, os problemas de saúde. Nada Estava nos planos de Fernando* quando decidiu experimentar o primeiro cigarro de maconha. “Eu estava curioso”, conta. O garoto de 16 anos, que começou a usar drogas aos 10, está entre os 15 adolescentes atendidos no Centro Recomeçando, a única instituição pública a tratar pacientes dependentes de substâncias psicoativas em Mato Grosso do Sul.
Na casa, Fernando é considerado o mais aplicado. Dá conselhos aos demais jovens e planeja trabalhar com grafite automotivo quando sair do tratamento, que dura nove meses. Fazer as pazes com a namorada e ajudar a família são as prioridades dele. “Para tudo existe perdão”.
Segundo a coordenadora do centro, Maria Carmem Ibanez do Amaral Gonçalves não é possível mensurar quantos estão à espera da mesma oportunidade garantida a Fernando, mas reconhece que superam a quantidade de vagas oferecidas no centro Recomeçando: apenas 20 no total. A coordenadora diz ainda que são apenas duas vagas para tratamento de desintoxicação, que antecede o período no Centro, atendimento realizado gratuitamente só no Hospital Regional de Campo Grande.
Demanda – A reduzida oferta de uma chance após as drogas, fica ainda mais dramática quando comparada aos registros policiais. Adolescentes são aprendidos quase que diariamente no Estado, ou por transportar entorpecentes, ou por crimes que no final das contas são justificados para compra de drogas para consumo próprio. O Recomeçando é um centro administrado pelo governo do Estado. As atividades começaram em 2002 como a forma de suprir a falta de um local para jovens usuários de drogas.
Maria Carmem diz que eles só chegam ao local quando tomam a decisão por conta própria. O tratamento não é imposto. Muitas vezes existe uma recomendação, feita por um juíz diretamente ao adolescente envolvido em crimes.
No centro, os dependentes químicos freqüentam atividades de terapia ocupacional, ensino fundamental e médio, além de serviço de saúde. Após cinco meses de tratamento é feita a primeira avaliação e o adolescente decide se conclui, ou não, o trabalho. A visita da família só acontece a cada dois meses.
Solidão – A falta da mãe e das irmãs foi um dos principais problemas enfrentados por João*, 14 anos, iniciar o tratamento. “O primeiro mês foi muito complicado, mas agora minha mãe está contente com o resultado”. A família é quase uma contradição na vida de João que aos 10 anos começou usar uma mistura de pasta base de cocaína e maconha como fuga das surras que recebia do pai. “Depois de tudo isso que aconteceu ele me disse que não vai mais me bater”.
Também é conturbada a família de Pedro*, e 14 anos. Ele e outro irmão vieram de Corumbá, distante 426 quilômetros de Campo Grande, em busca de liberdade. Há um mês no centro, ele lembra que pediu para o juiz da Vara da Infância em Corumbá para tentar livrar-se das drogas. “O juiz disse que me ajudaria e me ajudou. Chamou minha mãe e ela falou do meu irmão”.
Tratamento – A recuperação dos rapazes não é linear, como explica a terapeuta ocupacional Gislaine Trentine. Muitos desistem no decorrer do tratamento, mas muitos também pedem para voltar. O único fator que impede o retorno é a expulsão, provocada em situações extremas de agressão, depredação do patrimônio público ou porte de drogas dentro do centro.
Os responsáveis gostariam, contudo, de mais investimentos no local. Parte do prédio necessita de manutenção e faltam recursos para incrementar as atividades dos garotos, que vêm de todo o Estado. A expectativa é que o Estado libere verbas para a construção de um tanque de piscicultura e um criatório de galinhas. “Queremos ser referência neste trabalho”, explica Gislaine.
*Os nomes são fictícios para proteger os adolescentes.
Fonte: Campo Grande News



