Redação –
Quase um mês após a morte da pequena Hannah Julia Romeiro Nolasco, de 8 anos, a família segue em busca de justiça e acusa unidades de saúde de Campo Grande de negligência médica. Segundo os pais, a criança passou por diversos atendimentos no CRS Coophavilla II e na UPA Leblon sem receber um tratamento efetivo.
Em relato emocionado, a mãe da menina, Sara Romeira, descreveu uma sequência de atendimentos, agravamento do quadro clínico e, segundo ela, demora no socorro prestado à filha.
De acordo com a família, tudo começou no dia 24 de abril, quando Hannah apresentou febre alta e sintomas gripais. Preocupada, Sara levou a filha ao CRS Coophavilla II, onde a criança passou por consulta médica e recebeu encaminhamento para medicação intravenosa e exame de sangue.
No entanto, conforme o relato, o setor de medicação estava lotado e a espera seria demorada. Com a filha ardendo em febre, a mãe questionou se poderia administrar dipirona em gotas enquanto aguardava. Após autorização médica, a criança tomou o medicamento, realizou o exame de sangue e retornou para casa.
Segundo Sara, nos dias seguintes Hannah apresentou uma aparente melhora. A febre cessou no sábado e no domingo, embora ela permanecesse sem apetite e tossindo bastante. Já na segunda-feira (27), o quadro voltou a piorar.
A mãe contou que Hannah acordou tossindo intensamente e chegou a vomitar após ingerir leite. Diante da situação, decidiu procurar a UPA Leblon para verificar também o resultado do exame realizado anteriormente.
Na unidade, um médico teria informado que a menina apresentava uma “infecção viral”, diagnosticada como influenza. Ainda conforme a mãe, o profissional orientou apenas repouso domiciliar e prescreveu medicamentos como amoxicilina, bromoprida e corticoide.
Sara afirma que relatou ao médico que a filha praticamente não conseguia se alimentar e que só estava ingerindo leite. Mesmo assim, teria sido orientada a suspender o alimento.
Na terça-feira (28), Hannah voltou a apresentar piora significativa. Conforme a família, a criança passou a vomitar repetidamente e começou a apresentar sinais preocupantes, como lábios arroxeados, palidez intensa e olhos inchados.
A mãe relatou que administrou bromoprida em casa, conforme orientação anterior, mas decidiu retornar à UPA Leblon ainda naquela noite. Desta vez, Hannah foi atendida por uma pediatra, que questionou sobre histórico de diabetes na família e solicitou novos exames de sangue, além da medição da glicemia e administração de soro com medicação para enjoo.
Segundo Sara, a glicemia da filha marcou 151 e, ao questionar a equipe, teria ouvido da médica que o índice estava “ótimo”. Após receber o soro, a menina foi liberada novamente.
Já em casa, o quadro clínico voltou a se agravar. A mãe conta que Hannah não conseguia dormir, reclamava de dores nas pernas, braços e nuca, além de continuar vomitando.
“Dor na nuca não é normal”, afirmou Sara ao explicar o motivo de retornar novamente à UPA durante a madrugada.
Segundo a família, ao chegar pela terceira vez à unidade, Hannah já estava bastante debilitada. A mãe afirma que, durante a triagem, a criança apenas foi pesada, sem aferição de saturação, pressão arterial ou outros sinais vitais.
A médica plantonista teria descartado meningite e, ao consultar o sistema, informado que não havia registros dos exames realizados anteriormente. Novos exames e um raio-x foram solicitados.
A partir desse momento, conforme o relato da mãe, começou um “jogo de empurra-empurra” dentro da unidade de saúde.
Sara afirma que precisou circular entre salas de medicação, observação e reavaliação carregando a filha nos braços, enquanto implorava para que a criança fosse medicada. Segundo ela, a equipe alegava falta de vagas e macas disponíveis.
“Mandavam eu ir para um lado, depois para outro. Eu só queria que dessem medicação para minha filha”, desabafou.
Ainda conforme o relato, durante a movimentação Hannah começou a apresentar dificuldade para respirar e perdeu a consciência nos braços da mãe.
“Ela puxou o ar e não achou. Virou o olhinho e endureceu nos meus braços”, contou emocionada.
Somente após a piora extrema, segundo Sara, profissionais conseguiram uma maca e encaminharam a menina para a emergência. A criança já estaria em parada cardiorrespiratória naquele momento.
Do lado de fora da sala de emergência, familiares ouviram que Hannah precisaria ser intubada. A mãe afirma, porém, que percebeu desorganização da equipe e dificuldades para conseguir acesso venoso na criança.
“Minha filha morreu ali por falta de socorro. Ficaram empurrando de um lado para o outro sem medicar ela”, afirmou.
O pai da menina, Jeremias Rodrigues Nolasco, também questiona o atendimento prestado. Segundo ele, Hannah chegou consciente à unidade e não saiu mais com vida.
Após a morte, o caso foi registrado inicialmente como “morte natural”. A família informou que já procurou assistência jurídica e pretende buscar responsabilização sobre o atendimento recebido pela criança.
Natural de Corumbá, Hannah morava havia cerca de cinco meses em Campo Grande com os pais e a irmã.
Nas redes sociais, a mãe publicou uma despedida emocionada para a filha. “Nosso mundo perdeu a cor, perdeu a graça. Nosso chão desabou”, escreveu Sara ao lembrar da menina, descrita pela família como alegre, carinhosa e cheia de sonhos.




