Ricardo Minella –
A Missão Evangélica Caiuá completa hoje 97 anos de atuação contínua entre povos indígenas, com sede em Dourados e um legado que combina evangelização, educação e saúde pública — incluindo um hospital exclusivo para atendimento indígena. Fundada em 28 de agosto de 1928, a instituição atravessou quase um século mantendo a proposta de servir integralmente as comunidades, especialmente os Kaiowá, Guarani e Terena.
Criada pelo missionário presbiteriano Rev. Albert Sidney Maxwell, a Missão nasceu após expedições de reconhecimento que atravessaram o antigo Mato Grosso e parte da Amazônia. Maxwell encarou malária, percorreu cerca de 4.800 km a cavalo, dormiu ao relento e desceu por 40 dias os rios Aripuanã e Madeira numa canoa de 13 metros, antes de concluir que Dourados seria o local mais adequado para a obra. Em 1929, ele e a esposa, Mabel, instalaram a sede no então distrito de Ponta Porã.

Os primeiros anos foram de logística difícil: Dourados tinha cerca de 2 mil habitantes, o correio chegava quatro vezes por mês e a estação ferroviária mais próxima ficava a 320 km. Para assegurar base de trabalho, Maxwell comprou uma área de 1.011 hectares junto à reserva. A equipe inicial reunia o médico Nelson de Araújo (que viria a ser prefeito de Dourados), o agrônomo João José da Silva e o professor Esthon Marques.
Desde o começo, a Missão adotou um ministério holístico — assistência educacional, técnica, médica, odontológica e espiritual. A instalação em 1928 contou com a cooperação da Junta Missionária à qual Maxwell pertencia e de IPB, IPI e Igreja Metodista (esta última não mais integra o arranjo atual). O modelo de integração entre fé e serviços sociais permanece como marca institucional.
Na saúde, um marco foi a inauguração, em 1º de março de 1963, do Hospital e Maternidade Porta da Esperança, hoje referência de média complexidade para a população indígena de Dourados e região. Ao longo das décadas, a estrutura ganhou alas para enfrentar surtos — como o de tuberculose nos anos 1970/80 — e consolidou serviços com financiamento 100% SUS.

A área educacional também avançou: linguistas ligados à missão trabalharam na alfabetização bilíngue e na tradução da Bíblia para o Kaiowá, com o Evangelho de Marcos publicado em 1986 e a Bíblia completa entregue em 2012. Em 1980, foi fundado o Instituto Bíblico Felipe Landes para formar lideranças indígenas. Mais recentemente, a Missão celebrou 60 anos do hospital (2023) e registrou a aprovação do primeiro estudante indígena da Aldeia Jaguapiru em Medicina na UFGD (2021).
No campo da gestão pública, a Missão firmou convênios com o Ministério da Saúde para apoiar a saúde indígena em diversos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), movimento intensificado a partir de 2018, além de manter parcerias com a SESAI. Esses arranjos ampliaram o alcance das ações em estados da Amazônia e do Centro-Oeste.
Ao completar 97 anos, a Missão Evangélica Caiuá segue fiel ao lema de estar “a serviço do indígena para a glória de Deus”, combinando assistência espiritual com resultados concretos em educação e saúde — especialmente por meio do Porta da Esperança — e preservando a identidade dos povos atendidos.
