Uma homenagem aos sábios que nunca precisaram de diploma para compreender a vida.
Meu avô não conhecia Sócrates. Aliás, se alguém lhe dissesse que Sócrates havia afirmado que uma vida sem exame não merecia ser vivida, provavelmente ele perguntaria:
— Mas exame de quê? De sangue? Porque, se for de consciência, tem muito doutor que não passa.
Meu avô tinha pouca escola, nenhuma familiaridade com os grandes tratados filosóficos e uma desconfiança quase científica de quem precisava de palavras compridas para explicar coisas pequenas.
Não sabia o que era epistemologia, ontologia ou hermenêutica. Mas sabia, com espantosa precisão, quando alguém estava mentindo, quando uma galinha estava prestes a botar e quando um político aparecia na cidade porque se aproximava a eleição.
E não precisava de nenhum dos três para fazer um diagnóstico.
Certa vez, descobri que Descartes havia construído uma das mais famosas proposições da filosofia: Penso, logo existo.
Fiquei impressionado.
Meu avô, que pensava enquanto capinava, comia, consertava porteiras e desconfiava dos vizinhos, teria achado a conclusão um desperdício de raciocínio.
— Ora, meu filho, se o sujeito precisa pensar para saber que existe, é porque nunca levou uma topada no escuro.
Para ele, a existência era comprovada pela dor no dedinho do pé, pela conta do armazém e pela mulher chamando da cozinha pela terceira vez.
Principalmente pela terceira vez.
Aristóteles, que dedicou boa parte de sua inteligência à compreensão das virtudes, ensinava que a excelência moral se forma pelo hábito e que a virtude se encontra, em muitas circunstâncias, no equilíbrio entre os extremos.
Meu avô chegara a conclusão semelhante sem jamais frequentar o Liceu de Atenas.
— Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.
E completava:
— Quem come tudo hoje passa fome amanhã. Quem guarda tudo para amanhã morre sem saber o gosto.
Aristóteles precisou de uma obra inteira para explicar a prudência. Meu avô precisava apenas de uma panela de feijão e da visita inesperada de três parentes.
E distribuía o feijão com uma justiça que faria corar muitos ministros de tribunais superiores.
Quando conheci Heráclito e sua ideia de que tudo flui e se transforma, lembrei-me imediatamente de meu avô diante de uma enxurrada.
O filósofo grego ensinava que não entramos duas vezes no mesmo rio, pois as águas estão sempre mudando.
Meu avô dizia:
— Água passada não move moinho.
A diferença é que Heráclito observava o movimento universal da existência. Meu avô observava que a chuva tinha levado metade da cerca e que filosofar não a colocaria de volta.
— O mundo muda, meu filho. E, se você não consertar essa cerca, amanhã muda de dono também.
Foi assim que compreendi a distância entre a filosofia teórica e a filosofia aplicada: uma explica a transformação do universo; a outra impede que as vacas do vizinho transformem a sua horta em sobremesa.
Nietzsche apareceu mais tarde em minha vida, com sua crítica à moral convencional, seu questionamento dos valores estabelecidos e sua defesa da capacidade humana de superar a si mesma.
Meu avô não conhecia Nietzsche.
Mas conhecia o compadre Juvenal, que passava a vida reclamando de tudo.
— A chuva está demais, o sol está demais, o governo está demais, a mulher fala demais…
Meu avô o interrompia:
— Juvenal, você já experimentou reclamar menos e fazer alguma coisa?
Não sei se Nietzsche teria aprovado a resposta. Mas suspeito que teria encontrado ali um interessante exemplar da vontade humana tentando sair da cadeira.
Juvenal, infelizmente, preferiu permanecer sentado.
E continuou reclamando.
Quando li Kant, descobri o imperativo categórico e sua exigência de que nossas ações possam obedecer a princípios válidos universalmente.
Achei uma maravilha.
Meu avô, sem conhecer Königsberg, já possuía um sistema moral completo.
— Não faça com os outros aquilo que você não gostaria que fizessem com você.
E acrescentava uma cláusula de responsabilidade prática:
— Principalmente se o outro for maior que você.
Era uma ética de extraordinária simplicidade, com uma pequena ressalva de sobrevivência física.
Kant procurava fundamentar a moral na razão. Meu avô procurava evitar que os filhos roubassem goiabas do vizinho.
Ambos defendiam princípios. Mas somente meu avô precisava responder pessoalmente ao proprietário das goiabas.
Um dia, encontrei Epicuro, injustamente confundido por muita gente com um defensor dos prazeres desenfreados.
Na verdade, o filósofo valorizava os prazeres simples, a amizade, a tranquilidade e a ausência de sofrimentos desnecessários.
Meu avô já praticava o epicurismo havia décadas.
Sentava-se à sombra de uma mangueira, tomava café numa caneca de esmalte descascado e dizia:
— Rico é quem precisa de pouco para ser feliz.
Eu, menino, não compreendia.
Achava que riqueza era possuir automóvel, relógio de ouro e uma casa com mais quartos do que pessoas.
Meu avô possuía duas calças boas, um rádio que só funcionava quando queria e uma cadeira de balanço que rangia como se estivesse contando histórias.
Era feliz.
O rádio, nem sempre.
Certa tarde, apareceu um sujeito importante, desses que chegam à roça com sapatos tão brilhantes que parecem nunca ter pisado no chão.
Falou sobre a felicidade, o desenvolvimento humano, a realização pessoal e a necessidade de alcançar níveis superiores de consciência.
Meu avô ouviu tudo com atenção.
Depois perguntou:
— O senhor já almoçou?
O visitante respondeu que não.
— Então sente e coma. Filosofia de barriga vazia costuma dar conclusões erradas.
Epicuro teria gostado daquela recepção.
O sujeito importante também gostou, principalmente da carne de panela.
Schopenhauer, que examinou profundamente o sofrimento e o desejo humano, teria encontrado em meu avô um interlocutor de respeito.
Meu avô dizia:
— A gente sofre pelo que não tem e, quando consegue, arruma outra coisa para querer.
Não era exatamente a formulação do filósofo alemão, mas explicava com bastante eficiência o comportamento de meu tio Anselmo.
Anselmo queria uma bicicleta.
Conseguiu a bicicleta e passou a querer uma motocicleta.
Comprou a motocicleta e começou a desejar um automóvel.
Adquiriu o automóvel e passou a reclamar do preço da gasolina.
Meu avô acompanhou aquela evolução tecnológica do sofrimento e concluiu:
— Esse menino não quer transporte. Quer motivo para se aborrecer.
Schopenhauer talvez escrevesse um tratado.
Meu avô voltou a descascar laranjas.
Sêneca, o estoico romano, ensinava que não controlamos todos os acontecimentos, mas podemos trabalhar a maneira como reagimos a eles.
Meu avô descobriu isso quando uma tempestade derrubou o telhado do galinheiro.
Enquanto todos lamentavam o prejuízo, ele observou as galinhas espalhadas pelo terreiro e disse:
— Chorar não levanta telha. Vamos buscar a escada.
Era estoicismo com martelo, prego e uma galinha desconfiada.
E havia também o tempo.
Ah, o tempo!
Santo Agostinho refletiu profundamente sobre ele e reconheceu a dificuldade de explicar algo que parecia tão familiar.
Meu avô resolvia o problema de maneira mais objetiva.
— O tempo é uma coisa engraçada: quando a gente é menino, ele não passa; quando fica velho, não espera.
Eu perguntava:
— Mas, vô, o que é o tempo?
Ele respondia:
— É aquilo que você está perdendo enquanto me faz essa pergunta em vez de ir buscar água.
Nunca soube se era uma definição filosófica.
Mas era uma ordem perfeitamente compreensível.
Platão também teria dificuldades naquela casa.
Sua célebre alegoria da caverna, na qual pessoas confundem sombras com a realidade, talvez encontrasse resistência inicial.
Meu avô não gostava de gente que acreditava em tudo o que via.
— Nem tudo que reluz é ouro.
E advertia:
— Tem gente que enxerga muito e entende pouco.
Se Platão lhe explicasse que muitos vivem presos às aparências, meu avô provavelmente concordaria.
— Conheço uns quatro assim. Dois são meus parentes.
Mas suspeito que o maior confronto aconteceria com Diógenes.
O filósofo cínico, célebre por sua vida austera e por desafiar convenções sociais, teria encontrado um adversário formidável naquele velho que não dava importância a títulos nem cerimônias.
Conta-se que Diógenes pediu a Alexandre, o Grande, que saísse da frente de seu sol.
Meu avô teria dito algo semelhante a qualquer autoridade que lhe atrapalhasse o descanso:
— O senhor pode ser muito importante lá na cidade, mas aqui está fazendo sombra na minha cadeira.
E, se Alexandre insistisse, talvez ainda ouvisse:
— Aproveite e feche a porteira quando sair.
Hoje, depois de tantos livros, percebo que meu avô nunca precisou conhecer os filósofos para enfrentar as mesmas perguntas que os inquietavam.
O que é uma vida boa?
Como devemos tratar os outros?
Por que desejamos tanto?
O que fazer diante do sofrimento?
O que realmente importa?
Ele respondia com café, enxada, silêncio, paciência e uma coleção de ditados que pareciam ter sido escritos por uma academia invisível, instalada entre o fogão a lenha e o galinheiro.
Não possuía diplomas.
Não frequentava congressos.
Não usava palavras em latim para impressionar os vizinhos.
E, quando alguém dizia a priori, a posteriori ou ad infinitum, provavelmente perguntaria se aquilo era remédio, doença ou nome de cavalo.
Mas sabia uma coisa que muitos de nós, cercados de livros, demoramos uma vida inteira para descobrir: conhecimento não é a mesma coisa que sabedoria.
O conhecimento pode nos ensinar a explicar o mundo.
A sabedoria, quando aparece, ajuda-nos a viver nele.
Não quero diminuir Aristóteles, Sócrates, Kant ou qualquer desses gigantes. Seria uma tolice. Meu avô, aliás, detestava gente que precisava diminuir os outros para parecer maior.
Quero apenas imaginar o que aconteceria se todos se reunissem numa tarde de domingo, debaixo daquela mangueira.
Sócrates começaria fazendo perguntas.
Descartes tentaria estabelecer uma certeza.
Kant procuraria um princípio universal.
Nietzsche questionaria os valores da reunião.
Schopenhauer explicaria por que ninguém ficaria satisfeito.
Epicuro pediria mais café.
E Diógenes reclamaria que alguém estava fazendo sombra.
Meu avô ouviria pacientemente aquela assembleia extraordinária.
Depois se levantaria, olharia para os homens mais sábios do mundo e diria:
— Muito bem. Agora que todo mundo já explicou a vida, alguém pode me ajudar a lavar a louça?
Imagino o silêncio.
Séculos de filosofia diante de uma pia cheia de pratos.
Aristóteles talvez propusesse uma distribuição equilibrada das tarefas. Kant defenderia que ninguém deveria exigir dos outros aquilo que não estivesse disposto a fazer. Sócrates perguntaria o que significa, afinal, lavar. Descartes precisaria ter certeza de que a louça existia.
Meu avô pegaria o pano de prato.
— Enquanto vocês decidem, eu vou secando.
E talvez fosse nesse instante, diante da maior reunião filosófica de todos os tempos, que eu finalmente compreendesse a grandeza daquele homem que mal completara os primeiros anos de escola.
Ele não precisava vencer uma discussão sobre a vida. Precisava apenas saber vivê-la.
E, se algum filósofo lhe perguntasse onde aprendera tanta coisa, tenho certeza de que responderia:
— Na escola da vida, meu filho. O problema é que lá a prova vem antes da explicação.



