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Memória, a justiça e o julgamento do tempo: Por que a história sem Filosofia não sabe julgar o passado?

Reinaldo de Mattos Corrêa (*) –

Introdução

Se, nos artigos anteriores, demonstrou-se que a História, privada da Filosofia, perde o chão que a sustenta — e que nenhuma graduação em História é legítima sem a presença institucional da Filosofia — impõe-se agora uma terceira questão, de natureza simultaneamente ética e epistemológica: a capacidade de julgar o passado.

A história que se recusa ao confronto com a filosofia moral, com a ética e com a teoria da justiça não é apenas incompleta — ela é funcionalmente incapaz de distinguir entre memória e ressentimento, entre justiça e vingança, entre interpretação e propaganda. Toda sociedade que delega ao historiador a tarefa de julgar o passado sem lhe fornecer as ferramentas conceituais para tanto produzirá, inevitavelmente, ou uma história servil às paixões do presente, ou uma história covarde diante delas.

I. Problema do Julgamento Histórico Não é Acessório — É Central

Existe uma tradição persistente, em setores da historiografia contemporânea, que trata o julgamento moral dos fatos históricos como uma contaminação do trabalho científico pelo moralismo. Segundo essa visão, o historiador deve descrever, explicar, contextualizar — mas jamais julgar.

O argumento, embora superficialmente plausível, revela uma incompreensão profunda do que significa compreender historicamente. Compreender historicamente não é apenas situar cronologicamente; é também avaliar as ações humanas à luz dos valores que as orientaram e das consequências que produziram. E avaliar é, inevitavelmente, julgar.

A objeção positivista ao julgamento histórico confunde neutralidade com indiferença, e objetividade com ausência de critérios. O historiador que se recusa a julgar porque se considera incapaz de fazê-lo com objetividade já realizou, sem percebê-lo, um julgamento filosófico: o de que os valores são irredutivelmente subjetivos e, portanto, inacessíveis à razão.

Essa tese é, ela própria, filosófica — e raramente é assumida como tal por aqueles que a praticam. O resultado é uma história que se pretende científica, mas que carrega, em seu silêncio sobre o bem e o mal, uma filosofia moral implícita e, quase sempre, incoerente.

II. Impossibilidade de uma História “Pura” da Ética

Quem afirma que a história deve manter-se afastada da filosofia moral implicitamente sustenta que existe uma história “pura” da ética — um registro descritivo de sistemas éticos sem qualquer pretensão avaliativa. Essa posição, porém, é insustentável.

Quando o historiador estuda, por exemplo, a ética escravocrata da Roma antiga ou a moral nazista, ele não pode simplesmente descrevê-las como quem descreve a flora de uma região. Ele se depara com práticas que mutilaram vidas, negaram a humanidade de seres humanos e institucionalizaram a crueldade. Descrever sem avaliar, nesse caso, não é prudência metodológica — é cumplicidade epistemológica.

A Filosofia fornece à história as categorias necessárias para distinguir entre éticas que ampliam a capacidade humana de florescimento e éticas que a destroem. Sem essas categorias, o historiador transforma-se em um cronista de horrores que os apresenta como meros fatos, equivalentes em dignidade histórica a atos de heroísmo ou de bondade.

Essa equivalência formal não é objetividade; é falência moral travestida de rigor científico. A história que não sabe julgar o nazismo da mesma forma que sabe julgar a resistência a ele não é história — é arquivo.

III. Memória, Justiça e os Limites do Tempo

A relação entre memória histórica e justiça é outro ponto em que a filosofia se mostra indispensável à história. Memória não é simples retenção do passado; é construção significativa do passado orientada para o presente. E toda construção significativa pressupõe critérios de relevância, valor e sentido — todos eles filosóficos.

Quando uma sociedade busca “fazer justiça” ao seu passado, precisa responder a perguntas que transcendem a mera factualidade:
O que significa punir ou perdoar?
A justiça retroativa é compatível com o Estado de Direito?
A memória deve servir à reconciliação ou à resistência?

Essas perguntas não encontram resposta em arquivos ou em métodos historiográficos; exigem confronto com a teoria da justiça, com a filosofia do direito e com a ética do perdão.

A ausência de formação filosófica leva muitos historiadores a tratar a memória e a justiça histórica de modo puramente empírico, catalogando memórias concorrentes sem capacidade de arbitrar entre elas. Essa postura, que se pretende neutra, acaba por sancionar o poder de quem possui maior capacidade de impor narrativas.

Memórias marginalizadas, silenciadas ou reprimidas exigem não apenas espaço no registro histórico, mas o reconhecimento de que sua supressão foi injusta. E reconhecer uma injustiça é, necessariamente, julgar. O historiador sem filosofia está desarmado diante dessa tarefa: pode documentar a injustiça, mas hesita em nomeá-la como tal sem receio de parecer “parcial”.

IV. Falácia do Presentismo e Autonomia do Julgamento Histórico

Outra objeção frequente sustenta que julgar moralmente o passado constitui uma forma de anacronismo — isto é, a projeção injusta de valores contemporâneos sobre épocas distintas. Essa crítica possui certa validade, mas, quando absolutizada, conduz a uma compreensão empobrecida da história.

Todo historiador, ao investigar o passado, já pressupõe critérios mínimos de dignidade humana, verdade e justiça. Sem esses pressupostos, a própria história como disciplina se tornaria impossível. O problema central não é o uso de valores contemporâneos, mas o uso irrefletido desses valores.

A Filosofia não oferece ao historiador a ilusão de um acesso privilegiado à verdade moral; oferece-lhe, sim, a possibilidade de submeter seus próprios critérios de julgamento ao escrutínio racional. Ela impede que o presente se transforme no tribunal absoluto do passado, ao mesmo tempo em que impede que o passado seja usado como álibi para a cumplicidade com o mal.

O julgamento histórico autêntico reconhece tanto a alteridade do passado quanto a continuidade dos valores que o atravessam. Essa operação — que pode ser chamada de julgamento reflexivo — exige instrumentos conceituais que a história, isoladamente, não possui.

V. Historiador como Testemunha e como Juiz

Na tradição filosófica ocidental, há uma reflexão profunda sobre a diferença entre testemunha e juiz. A testemunha relata o que viu; o juiz avalia o que foi feito.

O historiador ocupa uma posição singular: não é testemunha direta dos acontecimentos, mas é testemunha da memória desses acontecimentos, das disputas em torno dessa memória e dos usos políticos do passado. Essa condição não o exime de julgar — ao contrário, obriga-o a julgar com maior rigor, pois sabe que todo julgamento histórico produz efeitos sociais e políticos.

A Filosofia ensina ao historiador a distinguir entre julgamento precipitado e julgamento refletido, entre julgamento passional e julgamento fundamentado, entre julgamento que se pretende definitivo e julgamento consciente de sua provisoriedade.

Essa formação é importante em sociedades dilaceradas por disputas em torno do passado, onde a história se converte em campo de batalha simbólico e onde a tentação de instrumentalizar o passado em favor do presente é constante. O historiador sem filosofia pode até resistir a essa tentação por intuição moral, mas carece dos argumentos necessários para justificá-la racionalmente.

VI. Conclusão: Exigência de Responsabilidade Intelectual e Ética

Assim, a tese central deste terceiro artigo pode ser formulada com clareza: a história que se recusa à filosofia não perde apenas seu fundamento e sua legitimidade institucional — perde também a capacidade de julgar o passado com justiça.

Uma história incapaz de julgar torna-se uma história que absolve ou condena conforme os ventos do presente, sem qualquer defesa frente às pressões políticas, ideológicas ou passionais. A Filosofia não garante ao historiador infalibilidade moral, mas garante-lhe a possibilidade de responder pelos fundamentos de seus julgamentos.

A série aqui desenvolvida não pretende ser exaustiva. Ela aponta caminhos, assinala impasses e convida à reflexão. O vínculo entre história e filosofia não é um artifício acadêmico, mas uma necessidade constitutiva de ambas as disciplinas.

A história sem filosofia é memória sem sentido; a filosofia sem história é pensamento sem mundo. E a sociedade que separa essas disciplinas prepara-se para formar gerações capazes de manejar dados, mas incapazes de discernir o que esses dados significam para a humanidade.

Nota:

Este artigo é o terceiro de uma série. Os artigos anteriores podem ser acessados em:

(*)Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.

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