Edson Moraes – Jornalista e escritor –
A cineasta sulmatogrossense Mara Silvestre, produtora, roteirista, pesquisadora e diretora da AguaCom TV, desembarca nesta quarta-feira, 28, em Assunción, carregando em sua bagagem um pouco dos muitos trabalhos que vem produzindo na defesa e no resgate das várias riquezas e identificações culturais e civilizatórias da América do Sul Latina. Ela representará o cinema brasileiro na Feria Internacional del Libro, a FIL 2026, realizada anualmente na capital paraguaia.
Num momento em que o avanço da Rota Bioceânica potencializa a ocupação dos espaços midiáticos do continente, reforçada pelo acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia (UE), a contribuição de Mato Grosso do Sul adquire realce diferenciado. Mara é fronteiriça de nascimento (em Corumbá) e de vivência afetiva (foi criada em Porto Murtinho, terra de vários familiares e onde está sendo construída a ponte sobre o Rio Paraguai). É o ponto de referência brasileiro na entrada do corredor bioceânico que leva aos portos do Chile, no acesso ao Pacífico.
Mara Silvestre está levando para Assunción as produções teatrais de rua “Los Mascaritas”, “Pelota Tata” e “Las Promeseras”, que formam a trilogia do Toro Candil. A programação oficial da feira incluiu as obras brasileiras na agenda do Auditorio Maria Helena Sachero, a partir das 16 horas de sexta-feira, 29. Orlando Silvestre, irmão de Mara e também um especialista em cultura da América Latina, é co-produtor na organização das obras.
CONTÍNUAS DESCOBERTAS – A FIL, que é a mais importante feira literária do Paraguai, coloca na vitrine, e como atração especial, documentários que não se limitam ao resgate da memória de culturas e folcores populares da fronteira, porque são elementos de contínuas descobertas e propõem um contato direto dos povos da região com sua própria história. “Levo comigo Os Mascaritas e Pelota Tatá, documentário que dirigi e roteirizei sobre festas, máscaras e o jogo ancestral que une comunidades de fronteira”, explicou Mara.
Para a cineasta, fazer parte da feira é mais que exibir um filme. “É afirmar que nossas histórias circulam. Que a cultura popular também é literatura viva, é uma patrimônio que se conta em imagens”, pontua. Em seguida, ela destaca o apelo ao conhecimento de um continente sobre si mesmo, principalmente em um tempo de transformações. “O Corredor Bioceânico não é só estrada: é rota de gente, de mito, de pelota tatá. E é essa travessia que venho compartilhar com o público da Feira”.
Os documentários e encenações teatrais deste rico e emblemático nicho cultural são realizados anualmente pela produtora de Mara durante o Festival de Rua do Toro Candil, em Porto Murtinho, com o maiúsculo protagonismo das comunidades fronteiriças. A cultura transfronteiriça do Toro Candil, que tem a sua raiz nas touradas da Espanha, atravessou o mar até chegar à fronteira geográfica entre Brasil e Paraguai. Ganhou novos detalhes, seu conteúdo ficou ainda mais rico com os recortes dos costumes locais, pluralizando uma celebração religiosa e mesclando o devocional da fé com a diversão e a criatividade artesanal e artística.





