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Manual Provisório Para Me Encontrar (Antes Que Eu Mude de Endereço) – João Roberto Giacomini

Eu decidi me visitar numa quarta-feira qualquer, depois do café, quando percebi que andava morando em mim como inquilino atrasado.

Não bati na porta. Arrombei.
Por dentro, encontrei corredores longos demais para uma biografia tão curta. Havia quadros tortos — projetos abandonados. Uma gaveta que não fechava — promessas. Um espelho que insistia em refletir um homem que eu conhecia só de fotografia 3×4.

— Quem é você? — perguntei.

— Depende de quem está perguntando — respondeu o reflexo, com aquela ironia de quem leu filosofia pela metade.

Eu segui adiante. Se Dante desceu ao inferno guiado por Virgílio, eu desceria guiado pela minha própria imprudência. Não havia círculos infernais, mas havia salas temáticas: a Sala das Decisões Postergadas, o Auditório das Conversas Imaginárias, o Jardim das Coragens Não Usadas.

No Jardim, encontrei um cavaleiro magro lutando contra ventiladores de teto.

— São gigantes — ele insistia.

Pensei em dizer que não, mas me calei. Cada um escolhe seus monstros. Alguns preferem que eles tenham pás e botão de velocidade.

Mais adiante, uma criança me puxou pela manga:

— Você cresceu, mas esqueceu onde guardou o essencial.

Eu quis responder com alguma frase de efeito, mas não encontrei. Talvez o essencial seja isso: aquilo que escapa quando tentamos explicar.

Continuei.

A viagem foi ficando menos poética e mais perigosa. Uma porta trancada trazia uma placa: “Não Abrir — Verdades Não Revisadas”. Abri, claro.

Lá dentro, não havia demônios. Havia escolhas. Pequenas, silenciosas, quase invisíveis. O curso que não fiz. O amor que não disse. O risco que não corri. Descobri que não sou feito de grandes tragédias, mas de microcovardias acumuladas.

Foi quando o chão cedeu.

Caí dentro de uma sala escura onde só havia uma pergunta projetada na parede, em letras enormes:

Quem você pensa que é no universo?

Ri.

O universo — esse exagerado — nem sabe meu nome. Mas também não sabe quando eu penso. E pensar é um ato perigosamente íntimo.

Ali, entendi a reviravolta: eu não estava me procurando para descobrir se sou importante ou fútil. Eu estava tentando decidir se assumo o risco de existir com intenção.

Importância é estatística. Sentido é escolha.

Levantei da queda com poeira nos ombros e uma decisão improvisada: não quero ser gigante nem irrelevante. Quero ser autor das próximas cenas. Quero escolher os gigantes que enfrento. Quero assinar minhas microcoragens.

Quando saí de mim, fechei a porta com cuidado.

Agora moro aqui como proprietário em reforma.

Ainda me perco nos corredores. Ainda discuto com o espelho. Mas instalei janelas novas — dão para um horizonte que não promete nada, apenas espaço.

E espaço, aprendi, é tudo o que alguém precisa para começar.

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