Jacarés sobreviventes em fazenda no Pantanal de MS se amontoam em açude que secou — Foto: Márcio Avellar

“Fui criado à beira do rio Taquari e nunca na minha vida vi uma situação de desastre ambiental como essa”, diz Márcio Avellar, de 50 anos. Funcionários da fazenda construíram poços semi-artesianos para levar mais água aos animais

A fazenda em que jacarés se amontoaram em um açude que secou no Pantanal da Nhecolândia, distrito de Corumbá, próxima da fronteira do estado com a Bolívia, construiu poços semi-artesianos para conseguir dar água para os animais que estão no local. Um vídeo gravado por um funcionário da fazenda mostra que a situação ainda não foi controlada e que os animais continuam lutando para sobreviver.

O produtor rural Márcio Avellar, de 50 anos, está prestando serviços na fazenda e ficou perplexo com a situação. Ele, que nasceu na região e tem uma propriedade à beira do rio Taquari, que hoje praticamente secou, conta que é a pior situação que ele já vivenciou. “Nunca havia visto um desastre ambiental como esse aqui na fazenda. A situação foi tão catastrófica que praticamente morreram todos os jacarés, só alguns mais fortes sobreviveram”, afirma.

A situação já havia sido adiantada pela pesquisadora Zilca Maria Campos, da Embrapa Pantanal, que afirmou que os animais corriam risco de morrer caso não chovesse na região. Ela calculou que de 4 a 5 mil animais se concentravam no pequeno espaço de lama na propriedade rural. “Houve desmatamento da Amazônia, assoreamento de rios e mudanças climáticas. Tudo isso afeta o Pantanal e, reduzindo as chuvas, reduz também os ambientes aquáticos”, comentou Campos.

Avellar viveu essa situação. Ele conta que construiu uma pousada próxima ao rio Taquari para explorar o turismo da pesca na região. A água que desce nas nascentes, no entanto, não chega mais na Nhecolândia. “No leito principal nas regiões do Paiaguás e Nhecolândia, que eram banhadas pelo Taquari, não descem mais uma gota d’água. Isso que causa toda a tragédia ambiental e desastres como esse, que nunca antes haviam sido vistos antes, devem acontecer em anos seguintes, com toda certeza”, relata o pantaneiro.

O produtor rural ainda aponta a inércia da administração pública na resolução dos problemas do bioma. “Nem governo municipal, estadual e tampouco o federal fizeram nada para recuperar o rio. Toda vez que muda o governo, fazem um novo estudo de impacto ambiental, mas nada fazem para resolver o problema do assoreamento. São 40 anos sem obra alguma, apenas estudos”, reclama.

Na fazenda em que os jacarés estão amontoados, os funcionários construíram poços semi-artesianos (de até 30 metros de profundidade) para conseguir levar água aos animais – capivaras e gado também utilizavam as águas do açude. Quem vê de perto a destruição do Pantanal, lamenta. “O sentimento que fica é de muita tristeza, pois nada disso teria acontecido se algum dos governos tivesse feito algo na recuperação dos rios da região”, finaliza Márcio.

G1 procurou novamente a Embrapa Pantanal para saber se houve mais alguma ação na região. A Empresa Pública informou que a pesquisadora está de volta ao local e deve encaminhar um vídeo até a tarde deste sábado (28) explicando a situação do local. (G1/MS)

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