O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estampa a capa da revista americana Time, publicada nesta quarta-feira (4). “O presidente mais popular do Brasil retorna do exílio político com a promessa de salvar a nação”, diz o título da matéria assinada pela jornalista Ciara Nugent.

O último brasileiro a estampar a capa de uma das revistas mais influentes do mundo foi Neymar, em 2013.

A reportagem cita a “jornada de herói” a partir da infância pobre, passando pela trajetória sindicalista, até a incursão política que levou o Lula ao Planalto; em contraposição com a “tragédia”, com as acusações de corrupção, a prisão e a destruição de seu legado por rivais.

Na foto da capa, Lula usa a gravata azul, verde e amarela que usou no depoimento que deu ao ex-juiz Sergio Moro antes de ser condenado e preso na Operação Lava Jato.

O petista, pré-candidato à Presidência da República, afirmou à revista que o período de 580 dias que passou na cadeia foi um “processo histórico” que não pode ser esquecido. Lula também diz que quer pensar no futuro.

“Eu li muito. Então eu fiz muita reflexão, eu me preparei para sair da cadeia sem ódio, sem mágoa, sem ressentimento, apenas lembrando que aquilo foi um processo histórico que eu não posso esquecer. Eu não posso esquecer, mas eu não posso colocar na mesa esse assunto todo dia porque é uma coisa do passado. Eu quero pensar no futuro”, disse à revista norte-americana.

A “Time” cita que Lula deixou o poder como o presidente mais popular da história recente do país e a reviravolta no cenário político com a anulação de penas. A revista afirma que Lula foi solto, após o Supremo Tribunal Federal (STF) considerar que ele foi julgado por um juiz que atuou de forma parcial. No entanto, o ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro não é citado nominalmente.

A entrevista com o petista foi realizada no final de março, em São Paulo. À revista, Lula disse que quando deixou a Presidência, em 2010, não pensou em voltar a ser candidato, mas que nunca desistiu da política.

“Eu na verdade nunca desisti da política. A política está em cada célula minha, a política está no meu sangue, está na minha cabeça. Porque o problema não é a política simplesmente, o problema é a causa que te leva à política”, afirmou o ex-presidente.

“Quando deixei a Presidência em 2010, efetivamente eu não pensava mais em ser candidato à Presidência da República. Entretanto, o que eu estou vendo, doze anos depois, é que tudo aquilo que foi política para beneficiar o povo pobre— todas as políticas de inclusão social, o que nós fizemos para melhorar a qualidade das universidades, das escolas técnicas, melhorar a qualidade do salário, melhorar a qualidade do emprego—, tudo isso foi destruído, desmontado”, justificou.

Lula x Bolsonaro 

Questionado sobre a atuação do governo do presidente Jair Bolsonaro na pandemia, e sobre como melhorar o mundo para os brasileiros negros, Lula afirmou que Bolsonaro despertou o “ódio e preconceito”.

“Olha, eu li muito sobre a escravidão quando eu estava preso e eu às vezes tenho dificuldade de compreender o que foram 350 anos de escravidão. E eu tenho mais dificuldade de compreender que a escravidão ela está dentro da cabeça das pessoas, o preconceito está dentro da cabeça das pessoas. Aqui no Brasil, na periferia brasileira, milhares de jovens são mortos quase todo mês, todo ano. Então não é possível isso continuar. Quando eu estava na presidência nós criamos uma lei para que a história africana fosse contada na escola brasileira. Para que a gente aprendesse sobre a história africana para não ver os africanos como cidadãos inferiores. Então nós precisamos começar essa educação dentro de casa, na escola. E o Bolsonaro despertou o ódio, despertou o preconceito. Aí tem outros presidentes também na Europa, na Hungria, [que fazem o mesmo]; está aparecendo muito fascista, muito nazista no mundo”, disse.

Guerra na Ucrânia

Sobre a guerra na Ucrânia, o petista afirmou que os líderes dos Estados Unidos e da União Europeia não conseguiram cumprir com seu dever por não terem “sentado à mesa” com o presidente russo, Vladimir Putin, antes do início do conflito.

“Os Estados Unidos têm muita influência política. E Joe Biden poderia ter evitado [a guerra], não incitado”, disse. “Ele poderia ter participado mais. Biden poderia ter tomado um avião para Moscou para conversar com Putin. Esse é o tipo de atitude que você espera de um líder”, completou.

Para Lula, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é tão responsável pela guerra quanto Putin. “Porque numa guerra não tem apenas um culpado.” Na visão dele, o presidente ucraniano poderia ter dito: “olha, vamos deixar para discutir esse negócio da Otan e esse negócio da Europa mais para frente. Vamos primeiro conversar um pouco mais”.

Repercussão

Nas redes sociais, os apoiadores do petista relembraram uma montagem feita com a foto do presidente Jair Bolsonaro na capa da revista americana. A falsa imagem foi publicada pelo ministro do Turismo, Gilson Machado. A capa mostrava o presidente e, abaixo, a frase: “Prêmio Nobel de 2022”.

O filho 02 de Bolsonaro, deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou sua conta oficial no twitter para se manifestar sobre a capa estrelada por Lula na Times. Segundo ele, tal reportagem acarreta na “perda de credibilidade” da revista. (Sandy Mendes, no Congresso em Foco)

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