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Literatura, dança e poesia se encontram VI Felit-MS: ‘A riqueza do MS vai estar lá’

Juliel Batista –

A literatura, a poesia, a dança e a música estarão reunidas em Dourados entre os dias 12 e 15 de agosto, durante a VI Feira da Literatura de Mato Grosso do Sul (Felit-MS), que será realizada no recinto da Câmara de Vereadores, anexo ao Shopping Avenida Center. O evento foi tema do episódio especial do Podcast Bate-Papo, da Folha de Dourados, gravado na manhã desta sexta-feira (7), no Studio Nexus 5.0.

Literatura, dança e poesia se encontram VI Felit-MS: 'A riqueza do MS vai estar lá'

A conversa reuniu o músico e poeta Vilella, a escritora e doutora em Literatura Andreia de Oliveira Alencar Iguma, a professora e escritora Marcia Brito, a bailarina Lara Teles, a advogada e escritora Nadine Bolzan Amarilha e o professor, escritor e organizador da Felit-MS, Carlos Magno Mieres Amarilha, além do jornalista e apresentador Juliel Batista.

Mais do que apresentar a programação da feira, o bate-papo revelou histórias pessoais de quem faz a cultura sul-mato-grossense, desde jovens artistas que estão construindo suas carreiras até escritores que transformaram experiências pessoais e acadêmicas em livros.

Assista na íntegra, a entrevista:

A seguir, o Bate-Papo:

“Você consegue”: professora transforma projeto com alunos em livro

Entre os destaques da conversa esteve a história de Marcia Brito, que participa da organização da feira e estará apresentando o livro Amores Poéticos. A obra nasceu a partir de uma experiência em sala de aula com estudantes.

Segundo Marcia, a ideia surgiu quando dois alunos a procuraram, em 2023, com a proposta de escrever um livro. Mesmo com o encerramento de seu contrato como professora da rede estadual, ela decidiu continuar orientando os jovens.

“Eu acredito que o meu propósito é transformar vidas. E eu precisava transformar a vida dessas duas pessoas, como professora, como educadora, como ser humano”, contou.

A partir daí, os encontros continuaram, com os estudantes escrevendo, trocando textos e recebendo orientações. O resultado foi um livro dividido em três momentos, com 30 poesias de cada autor.

Marcia brito: “Eu acredito que o meu propósito é transformar vidas. E eu precisava transformar a vida dessas duas pessoas, como professora, como educadora, como ser humano”,

“A gente conseguiu condensar mais esse sentimento do fim. Então, a gente partiu dessa ideia, mas a ideia foi deles. Eu só vim trabalhando ali, orientando mesmo, mas a ideia foi deles, foi totalmente deles”, explicou.

Para Marcia, o processo também representa aquilo que considera uma das principais funções da educação: estimular os estudantes a perceberem suas próprias capacidades.

“A gente está aqui como educador para mostrar: olha, você consegue. Sua potência está aqui. Bora, vamos comigo, vamos junto.”

A professora também defendeu a importância de unir leitura e escrita no processo educacional.

“Acredito muito que uma educação se faz lendo e escrevendo. Não é só lendo, não é só escrevendo. É os dois, é concomitante essas duas ações.”

Amores Poéticos estará exposto na Felit-MS, e Marcia também pretende levar os estudantes que participaram da produção da obra para o evento.

Literatura, dança e poesia se encontram VI Felit-MS: 'A riqueza do MS vai estar lá'

Andreia Iguma transforma memória, maternidade e literarura em “Girassóis”

Doutora em Estudos Literários, Andreia de Oliveira Alencar Iguma participa da feira com sua estreia na ficção: o livro Girassóis. A obra representa a realização de um desejo antigo da escritora, que conta ter sonhado em ser autora desde o início da formação acadêmica.

“Eu entrei no curso de Letras, lá atrás, uma menina, porque o meu desejo sempre foi ser escritora.”

Segundo Andreia, a própria trajetória acadêmica acabou fazendo com que esse desejo fosse colocado em segundo plano.

“Muitas vezes a academia engessa os nossos sonhos. […] É como se você trabalha com literatura, você não é boa o suficiente para poder escrever.”

A escritora conta que durante anos manteve textos guardados e que sua relação com a poesia sempre foi mais intensa. Porém, em determinado momento, percebeu que a prosa também precisava ganhar espaço.

A história de Girassóis nasceu de experiências pessoais, memórias familiares e processos de elaboração emocional. Andreia foi criada pelos avós, Maria e Joaquim, e escreveu poemas como forma de lidar com a perda deles.

Em 2023, publicou de forma independente Aos Que Vieram Antes, obra dedicada às memórias dos avós. Depois disso, decidiu que era hora de mergulhar na ficção.

A maternidade também teve papel decisivo nesse processo.

“Para eu ser uma mãe viva, e essa criança ver nessa mãe uma mulher desejante, eu preciso bancar os meus desejos. E aí foi quando eu tive coragem de escrever Girassóis.”

Grande parte do livro foi escrita enquanto Andreia amamentava a filha, Marina.

Andreia Iguma: “Para eu ser uma mãe viva, e essa criança ver nessa mãe uma mulher desejante, eu preciso bancar os meus desejos. E aí foi quando eu tive coragem de escrever Girassóis”

“A Marina já estava adormecendo, e aí eu escrevi. E aí eu levantei e falei para o meu marido: vem aqui que eu quero ler uma coisa para você.”

O que inicialmente seria um conto acabou crescendo e se transformando em uma novela.

A narrativa acompanha as irmãs gêmeas Ana e Clara. A relação entre as duas é atravessada por questões familiares, afetivas e sociais, tendo como pano de fundo a trajetória de uma mãe solo.

O próprio título da obra está relacionado à simbologia dos girassóis.

“A ideia de que o girassol, para ele continuar vivo, ele precisa olhar um para o outro, para ele ter força.”

A escritora explicou que a narrativa também foi uma forma de elaborar uma experiência pessoal de perda gestacional e a chegada posterior da filha.

“Ele se foi, mas ele ficou.”

Apesar de ter elementos inspirados em sua própria trajetória, Andreia ressalta que a história não é simplesmente autobiográfica. A ficção serviu como espaço de elaboração e criação.

Girassóis terá lançamento e circulação em diferentes cidades e também estará disponível em plataformas de venda de livros.

Na Felit-MS, Andreia estará com sua obra e convidou o público para acompanhar o lançamento.

Lara Teles: 14 anos de balé e o sonho de ser profissional

A caçula entre os participantes do podcast, Lara Teles, tem 18 anos e uma trajetória de aproximadamente 14 anos dedicada à dança. Ela começou no balé ainda criança, depois que médicos recomendaram aos pais uma atividade física para ajudar a fortalecer suas pernas.

A escolha pelo balé acabou se transformando em paixão.

“Foi uma coisa que, a hora que eu vi, meus olhos brilharam. E daí em diante, foi só indo pra frente. Foi algo realizador.”

Aos 15 anos, Lara começou a participar de competições como solista. Foi justamente o primeiro solo competitivo que ela apresentará durante a abertura da Felit-MS.

O trabalho, intitulado “Voz e Pele”, aborda a mulher negra e a relação da bailarina com sua própria história.

“Vai falar sobre a mulher negra, sobre a minha pele, sobre a minha história.”

A coreografia é de Mariana Guaritá, professora da Academia de Dança Maria Esther, onde Lara treina.

A jovem também contou sobre a experiência recente em Joinville, um dos principais centros brasileiros de festivais de dança. Ela participou de uma companhia e competiu no tradicional palco do festival.

“Para muitos bailarinos que devem estar me assistindo, pisar no palco é algo absurdo. Você pisa, você sente uma sensação que, nossa, realizei um dos meus sonhos.”

Lara participou de uma apresentação com um grupo de 46 pessoas e conquistou o segundo lugar em uma das competições.

Mais do que o resultado, porém, ela destacou a realização pessoal.

Lara Teles: “Foi uma coisa que, a hora que eu vi, meus olhos brilharam. E daí em diante, foi só indo pra frente. Foi algo realizador”

“O prêmio não define a gente. Só de eu ter realizado o meu sonho, de ter participado dessa companhia, foi uma realização de um sonho para mim.”

A rotina da bailarina é intensa. Ela chega à academia à tarde e permanece treinando até a noite, além de participar de cursos, audições e competições.

“É uma vida que eu gosto. […] Quando eu estou muito estressada, muito ansiosa, eu entro na academia, eu ponho minha música e fico lá.”

De projeto público a uma trajetória de competições

Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Lara revelou que sua trajetória começou em um projeto público.

Ela fazia parte do NACE, projeto da Prefeitura, quando foi observada pela diretora da academia, que posteriormente ofereceu uma bolsa para que a jovem continuasse os estudos no ensino particular.

“Vim do projeto. É algo que eu tenho muito orgulho de falar.”

Para Lara, não existe vergonha em contar que iniciou sua trajetória por meio de uma política pública.

“É daquilo ali que vai vir. O meu processo está vindo. E é dali que eu cresci.”

A história foi destacada pelos demais participantes como exemplo concreto da importância das políticas públicas para a cultura e para a formação de jovens.

A bailarina também relatou que os custos para participar de competições são altos e que, além do apoio da família e da academia, ela e outras bailarinas precisam organizar ações para arrecadar dinheiro, como venda de pipoca, caldo e rifas.

O relato provocou uma reflexão sobre a necessidade de ampliar o apoio aos artistas.

“Quando eu vejo um artista desse tamanho tendo que vender pipoca, não que isso seja vergonha. Pelo contrário. Mostra sua força, sua resiliência diante da arte”, afirmou Marcia.

“Você autoriza muitos jovens a sonhar”

A trajetória de Lara também foi associada à capacidade da arte de inspirar outros jovens.

Durante o podcast, Andreia destacou que nem todos os jovens se sentem autorizados a sonhar com uma carreira artística.

“Quando a sua voz vem de uma jovem cheia de sonhos e realizando sonhos, você autoriza muitos jovens a sonhar.”

Para ela, apresentar artistas e suas histórias é uma maneira de mostrar possibilidades que muitas vezes não chegam ao conhecimento dos estudantes.

“A gente acaba inaugurando caminhos.”

A discussão levou os participantes a defenderem a Felit-MS como um espaço de visibilidade para artistas de diferentes áreas.

Vilella: “Eu me autointitulo como poeta popular”

Músico e poeta, Vilella também estará na abertura da feira. Durante a entrevista, falou sobre sua relação com a arte e com a poesia.

Com bom humor, definiu-se como um poeta popular e explicou que prefere uma criação artística mais livre.

“Eu me autointitulo como poeta popular. A arte tem disso, essa coisa de não se prender muito com algumas regras. Eu gosto dessa arte solta.”

Vilella contou que trabalha na UFGD e atua como mestre de cerimônias, mas aproveita os momentos livres para se dedicar à música, poesia e literatura.

“Eu gosto de música, eu gosto de poesia, eu gosto de literatura. Eu gosto de assistir ao balé.”

Sua trajetória também passa pela cultura de Dourados. Ele trabalhou na Fundação de Cultura do município e teve contato com diversos artistas locais.

Vilella: “Eu me autointitulo como poeta popular. A arte tem disso, essa coisa de não se prender muito com algumas regras. Eu gosto dessa arte solta”

Entre as experiências lembradas está um projeto realizado entre 2017 e 2018, quando poesias e contos de artistas de Dourados foram musicados e transformados em um CD.

Vilella citou nomes como Adil Mazine e Wilson Venâncio, artistas que, segundo ele, deixaram um legado importante para a cultura douradense.

Durante o podcast, ele também falou sobre a dificuldade de explicar a poesia e apresentou uma interpretação poética sobre a força da palavra.

Para o artista, a poesia possui uma capacidade de tocar diferentes dimensões da experiência humana.

Literatura, dança e poesia se encontram VI Felit-MS: 'A riqueza do MS vai estar lá'

Felit-MS quer aproximar público, escolas e escritores

Além das apresentações artísticas e da exposição de livros, a programação da feira terá oficinas, sarau literário e atividades voltadas para crianças e estudantes.

Carlos Magno Mieres Amarilha, um dos organizadores, destacou que a intenção é aproximar a população da produção cultural existente em Mato Grosso do Sul. “A riqueza do MS vai estar lá.”

Segundo os organizadores, a programação contará com autores de diferentes gêneros, incluindo poesia, contos, literatura de fronteira e ficção.

A feira também pretende levar estudantes da rede municipal ao espaço cultural. A Prefeitura de Dourados participa da iniciativa por meio do apoio logístico para levar alunos das escolas até o evento.

Para os organizadores, esse contato é fundamental para ampliar o acesso à literatura.

“Nós precisamos garantir para esses alunos o contato com a diversidade cultural do Mato Grosso do Sul. É o que essa feira proporciona.”

Oficinas vão trabalhar Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus

Outro destaque da programação são as oficinas organizadas em parceria com o PET Letras.

Entre as atividades estão uma oficina de fantoches para crianças e uma oficina de leitura que trabalhará textos de Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus.

A escolha das autoras foi destacada durante a entrevista como uma forma de valorizar referências importantes da literatura brasileira.

Os organizadores também ressaltaram que as atividades ocorrerão no plenarinho da Câmara Municipal, enquanto as mesas dos escritores ficarão no espaço de circulação do recinto.

A proposta é criar um ambiente em que o visitante possa não apenas comprar livros, mas conhecer autores, conversar com artistas e participar das atividades.

Carlos Magno Mieres Amarilha, um dos organizadores, destacou que a intenção é aproximar a população da produção cultural existente em Mato Grosso do Sul. “A riqueza do MS vai estar lá”

“A vida não é sobrevida”

Durante o bate-papo, Andreia fez uma reflexão sobre o acesso da população aos espaços culturais e literários.

Segundo ela, ainda existem pessoas em Dourados que nunca entraram em uma livraria ou sebo por acreditarem que esses ambientes não lhes pertencem.

“A gente precisa formar que a gente não quer só comida, a gente quer diversão e arte.”

Para a escritora, a arte também cumpre uma função de formação humana.

“Você vai na feira para você poder pertencer, para você poder se conhecer, para você poder existir em um lugar além daquele lugar que você está para sobreviver.”

E resumiu:

“A gente precisa entender que a vida não é sobrevida, e quem mostra isso para a gente é a arte.”

Organizadores cobram mais políticas públicas para a cultura

A entrevista também abriu espaço para uma discussão sobre financiamento e políticas públicas culturais.

Os participantes destacaram que Mato Grosso do Sul possui artistas em diferentes áreas, mas que muitos enfrentam dificuldades para custear deslocamentos, formação, equipamentos e participação em eventos.

Lara contou que busca oportunidades fora do Estado e já participou de audições no Rio de Janeiro, além de ter tentado seleções em companhias e escolas de dança de outros centros.

Para ela, regiões maiores oferecem mais oportunidades para artistas.

A discussão levou Marcia a defender maior atenção do poder público à cultura.

“Nós precisamos mais de políticas públicas voltadas às áreas da arte.”

Ela também destacou a importância do Plano Municipal do Livro e afirmou que a classe cultural precisa participar das discussões políticas sobre o setor.

“Nós precisamos de vocês. A gente não consegue fazer isso sem vocês.”

Os organizadores também agradeceram os apoiadores da feira, entre eles representantes do poder público e instituições que colaboraram para a realização do evento.

Literatura, dança e poesia se encontram VI Felit-MS: 'A riqueza do MS vai estar lá'

Uma feira para mostrar que Mato Grosso do Sul tem artistas

Ao longo da entrevista, uma ideia apareceu repetidamente: a Felit-MS pretende ser uma vitrine da produção cultural do Estado.

Carlos Magno e os demais participantes destacaram a diversidade de artistas que estarão presentes no evento, incluindo escritores, poetas, músicos, bailarinos e outros representantes da cultura.

A feira também prestará homenagens a nomes ligados à literatura e à cultura de Dourados, entre eles Luciano Serafim e Nicanor Coelho, apontado como um dos idealizadores da feira.

Para os organizadores, mostrar essa produção é também combater a percepção de que o Estado possui pouca diversidade artística.

A feira também prestará homenagens a nomes ligados à literatura e à cultura de Dourados, entre eles Luciano Serafim e Nicanor Coelho, apontado como um dos idealizadores da feira

“Olha aqui nossos artistas. Olha como nós somos ricos.”

Vilella e Lara estarão na abertura

A abertura da VI Felit-MS contará com a participação de Lara Teles e Vilella.

Lara apresentará o solo “Voz e Pele”, enquanto Vilella levará sua música e poesia ao público.

A programação ainda reúne diversos escritores e artistas de Dourados e de outras cidades, além de oficinas e atividades para estudantes.

Ao final do podcast, os participantes reforçaram o convite para que a população prestigie o evento.

A mensagem deixada durante o bate-papo foi direta: a feira não pretende ser apenas um espaço para exposição e venda de livros, mas um ponto de encontro entre artistas, estudantes, professores, famílias e leitores.

“É um momento, é onde seus filhos, é onde a família devem estar.”

A VI Feira da Literatura de Mato Grosso do Sul será realizada de 12 a 15 de agosto, na Câmara de Vereadores de Dourados, anexa ao Shopping Avenida Center, reunindo literatura, música, poesia, dança, oficinas e outras manifestações culturais.

A programação completa poderá ser acompanhada pelos canais de divulgação da Felit-MS e da Folha de Dourados.

A VI Feira da Literatura de Mato Grosso do Sul será realizada de 12 a 15 de agosto, na Câmara de Vereadores de Dourados, anexa ao Shopping Avenida Center, reunindo literatura, música, poesia, dança, oficinas e outras manifestações culturais.

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