Lembranças da antiga Praça Mário Correia, por Ilson Boca Venancio
Morei nas imediações e vi o nascimento da Praça, numa iniciativa do então prefeito João Totó Câmara; meu irmão Ib, trabalhou na obra
Cultura – 23/01/2010
Ilson Boca Venâncio
Outro dia eu estava sentado na estação de transbordo enquanto esperava o ônibus coletivo que me traria até em casa e fiquei fazendo algumas reflexões.
Uma delas sobre o transporte coletivo no Brasil, que não tem atendido a população satisfatoriamente (com raras exceções) e pela sua deficiência acaba levando as pessoas à utilização do transporte individual, transformando as cidades, principalmente as metrópoles em um amontoado de carros e motos, fazendo do trânsito uma terrível e violenta guerra. Como esse problema é muito complicado, me angustia muito (eu estava esperando o ônibus há mais de 40 minutos), desviei a minha atenção para a praça.
Fiquei olhando a Praça Mario Correia (hoje Antonio Alves Duarte) e passou em minha mente diversas recordações desde o tempo em que aquele local era um terreno baldio que servia de pastagem para animais até o estado em que ela se encontra hoje.
Morei nas imediações entre a praça e o Hospital Evangélico por um longo tempo, e foi com muita alegria que vi o nascimento dessa praça, iniciativa do então prefeito da época o Totó Câmara.
A praça foi construída dentro de um projeto moderno, sólido e muito bonito, e o meu irmão Ib, foi um dos construtores junto com o Mestre de Obras, o Sr. Manoel Espanhol. O meu irmão me contou que se sentiu muito feliz por ter construído a primeira biblioteca pública da cidade.
Interessante se faz observar que as muretas da praça foram feitas com pedras, assim como a base de sustentação da biblioteca, foi toda estruturada em concreto e ferro o que dava a ela um sentido de firmeza, solidez e zelo.
Talvez por isso resiste ao abandono. A praça tinha dois tanques com água e pontes sobre elas, para passagem dos pedestres. Em um dos espaços foram colocados peixes coloridos e no outro tinha uma elevação sobre um quadrado com um pinheirinho, enfeitado no Natal para deleite da população transeunte.
O parque infantil era o mais bonito da cidade, com brinquedos que nem conhecíamos, era uma inovação, visto somente naquele local. Levei as minhas filhas e filhos dos amigos para se divertirem em suas brincadeiras de criança por muitos domingos. Vinha gente de todos os bairros de Dourados trazendo os seus pequeninos para curtirem o parque. Em alguns brinquedos a fila era organizada entre os usuários para garantir o acesso de todos.
Quando a cidade começou a receber as imagens televisivas eram poucas as famílias que tinha o aparelho em casa, o preço era o impedimento para a compra desse eletroméstico. Foi ai que com a ajuda da Seleta, Sociedade Seleta Caritativa e Humanitária, (S:S:C:H:), instituição de caráter social e filantrópico, destinada a difundir a instrução e propagar os princípios morais que regem a civilização e pregam a solidariedade humana, instalou numa casinha construída só para ela, a Televisão.
Esse evento passou a ser opção para quem não tinha a T.V em casa principalmente em dia de futebol . Na Copa de 70, o grande público presente ameaçava se jogar na água ali na praça, com a vitória do Brasil, imaginem a preocupação do zelador!
Lembro também da beleza das rosas que enfeitava a praça. Quem gosta de flores e jardinagens, sabe que a roseira para dar belas flores precisa ser cuidada e muito bem cuidada, exigindo terra fértil, podas e controle sistemático contra formigas e…apaixonados pelas rosas!
Na Praça Mário Correia, conheci dois jardineiros, que eram os zeladores da praça que faziam isso muito bem. Seo Antonio, Também conhecido como Mãozinha, além de guardar a praça era também quem cultivava as plantas, regando, adubando, fazendo as podas e principalmente das rosas. A essas ele tratava com muito carinho e dedicação. As rosas eram de vários tipos e cores.
A minha preferida era uma grande, de cor rubra conhecida como Príncipe Negro. Mais havia rosas para todos os gostos. Com a poda seu Antonio fazia o aproveitamento dos galhos retirados das roseiras transformando-os em novas mudas, transplantando, fazendo enxertos e assim multiplicando as roseiras na praça.
Muito respeitoso com o bem comum estava sempre atento com os cuidados com a praça, e se percebia alguém namorando uma das rosas com intenção de subtraí-la, ligeirinho se aproximava da pessoa e educadamente ia perguntando porque a pessoa ia querer a rosa só para ela e se não seria melhor deixar ela onde estava para que todos pudessem admirar a sua beleza, sentir seu perfume, permitindo também á rosa uma vida mais longa.
Mesmo assim ainda algumas pessoas se enchiam de motivo para isso e ele contra-argumentava falando do trabalho que tivera para que aquela rosa pudesse estar ali para ser apreciada, e se mesmo assim a pessoa não se convencesse ai ele mais determinado com a autoridade de um zelador responsável afirmava se tratar de uma praça pública que pertencia a todos e por isso não poderia a rosa ser subtraída a não ser que isso fosse feito fora da visão dos zeladores o que seria muito difícil, pois a praça era vigiada as vinte e quatro horas do dia.
Outro zelador que trabalhava na praça era o seu José que com a ajuda do seu filho João desenvolvia uma atividade paralela, fazia um pequeno comércio com um carrinho de vender pipocas e doces.
Este ficava estacionado na calçada da praça, na Rua Camilo Hermelindo da Silva, onde a toda hora se estourava mais uma panelada de pipocas bem quentinhas aromatizando o ar, aroma esse que se misturava com o perfume das flores e transformavam em um autêntico aroma típico de praças, muito diferente do que se sente na praça de hoje.
Mais um dia seu Antônio foi transferido dali, e nunca soubemos o motivo. O espaço ocupado por aqueles lindos canteiros aos poucos foram se acabando e foram substituídos por plantas rústicas que não precisavam de tanto cuidados e atenção. Assumidos por uma empresa terceirizada.
Do projeto original que havia na praça resta apenas a biblioteca. O seo José já faleceu a muitos anos, seu Antonio eu nunca mais ouvi falar dele, mais uma coisa tenho certeza, se eles vissem o que fizeram com a praça a qual eles tanto zelaram durante muitos anos, com certeza o seu Antonio perdoaria a moça bonita que talvez por amor e com muito carinho roubou aquela linda rosa, mais com certeza faria severas advertências aos administradores que não se atentam para as coisas que são de interesse comum.
Cantinho da Poesia
A GRAÇA DE UMA PRAÇA
Antônio Costta
A graça de uma praçaÉ uma orquestra a tocar,Repentista a improvisar,Seresteiro a serestarNuma noite de luar!A graça de uma praçaÉ pipoca a pipocar,É doceiro a adocicar,É sorvete a refrescarE a meninada a adorar!A graça de uma praçaSão crianças a brincar,Os velhinhos passeando,São as moças desfilandoE os rapazes paquerando-as querendo conquistar!A graça de uma praçaÉ olhar o que se passa,Pra depois se comentar…É o rico com o pobre,É o preto com o brancoSentados no mesmo bancoAlegres a prosear!A graça de uma praçaÉ ver nela a populaçaQue passeia e se enlaça,Se encontra e se abraçaConjugando o verbo amar!A graça de uma praçaÉ o povo, é a massa,Que vem nela passear;Sem fazer uma arruaça,Destruir só por pirraça,Pois a praça só tem graçaSe a gente conservar!
Fala Che!
‘Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera.’!
Fonte: Folha de Dourados



