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Led Zeppelin testa seus mitos e DNA

Música – 10/12/2007

Jimmy Page, 63, pega a guitarra. Parece testar a afinação, mas, na verdade, verifica se o dedo recentemente fraturado num tombo está recuperado para o show de hoje, na O2 Arena, em Londres. “Isso já foi mais fácil”, pensa.
Vinte e sete anos depois do fim do Led Zeppelin, por ocasião da morte do baterista John Bonham, a única droga no camarim é um antiinflamatório. Foram-se os dias de bebedeira, cocaína e orgia.
Há tão pouco barulho, em comparação com os loucos anos 70, que Page consegue ouvir Robert Plant, 59, aquecendo a voz. “Qual foi a primeira vez que o vi fazendo isso?”, esforça-se em lembrar. Não foi em 1968, quando começaram. Ali, o loiro jubado não precisava dessas frescuras. E tinha voz bem melhor do que esse fiapo.
Faltam poucos minutos para saber se isso vai valer a pena.
Os ensaios foram bons, e uma turnê mundial seria lucrativa, a julgar pelos 25 milhões de internautas que tentaram comprar os 20 mil ingressos. Além disso, é bom sentir respeito nas perguntas dos jornalistas e ardor na massa de todas as idades que grita “Zeppelin, Zeppelin”.
Estão todos prontos no corredor que conduz ao palco. O baixista John Paul Jones, 61, sorri discretamente. Sempre entendeu que a banda era a química sexual e mística Page e Plant. “Que grande sortudo”, pensa Page. Quase não tem responsabilidades hoje, a não ser tocar direito no canto, como sempre.
E há Jason. Aquele moleque que vivia enchendo a paciência, fazendo mais barulho na bateria do que o velho “Bonzo” Bonham, principalmente enquanto não sabia segurar direito uma baqueta. Hoje, ele toca “Kashmir” e “No Quarter” igual ao pai. Hoje, ele provará um pouco mais de sua herança genética: a sensação de ser o maior do mundo.
“Lembrava dessa sensação, Jim?”, questiona Plant, apoiado em seu ombro. É até curioso que diga isso, pois a idéia do retorno nunca o empolgou muito. A resposta é curta: “Acho que nunca dormi sem ela”.
A volta das lendas vivas
O que se verá em Londres hoje, em tributo a Ahmet Ertegün, fundador do selo Atlantic morto em 2006, é uma dessas obrigações das lendas vivas. Num cenário cada vez menos propício à imortalidade no rock, é preciso que aqueles que a alcançaram retornem, para o bem do sonho.
O tributo a uma gravadora, num ano em que o Radiohead subverteu o formato do disco, mostra o sítio arqueológico que a O2 Arena vai se tornar. Se representar bem os gigantes que foram, noves fora quilos e anos a mais, o Zeppelin terá criado um parque temático perfeito para saudosistas, neófitos e empresários ávidos por tiros certeiros num meio de tantas incógnitas. Só que será outra incógnita o show de hoje. A reunião para o Live Aid, em 1985, foi constrangedora, mas parte dela obteve êxito nos anos 90, quando Page e Plant saíram em turnê que passou pelo Brasil, num Hollywood Rock.
Em algumas horas, 20 mil pessoas contarão se valerá arriscar o dirigível de chumbo na turnê mundial que Jimmy Page, malandro, não se apressa em confirmar. Hoje, ela só depende de um dedo.

Fonte: Folha Online

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