17/05/2018 15h01

Por: Folha de Dourados

(*) Cleiton Zóia Münchow

O que há em comum entre as lagartixas e as pessoas homossexuais? Hoje, numa aula de filosofia no IFMS-Dourados, entre os estudantes circulava, de mão em mãos, uma dessas lagartixas plásticas que podem ser coladas em vidros. Peguei a lagartixa e colei no quadro de vidro, até que uma estudante me chamou em particular e pediu que eu a retirasse de lá, pois não suportava olhar para aquela réplica. No caso em questão tratava-se de uma lagartixa de plástico que foi facilmente retirada dali por causa do medo que causava à estudante. Certamente essa estudante não se encontra sozinha na partilha do medo em relação às lagartixas, a fobia contra esses pequenos animais é enorme, muitas pessoas não podem sequer avistá-las que já passam a persegui-las para eliminá-las – mesmo quando se tem consciência de que elas nada de mal fazem a ninguém. As lagartixas contribuem com a limpeza dos espaços que ocupam, pois comem os pequenos insetos e aranhas; mesmo conscientes desse fato, muitas pessoas as perseguem com o objetivo puro e simples de eliminá-las. Ou seja, os afetos movimentam as pessoas contra algo que, inclusive, pode ser um bem para elas.

Já fui apedrejado, vaiado por uma multidão na rua, expulso de lugares da universidade e do shopping, agredido na rua com empurrões, agredido com uma lata de cerveja que, desde um carro em movimento, jogaram em mim não sem antes gritarem a palavra “veado”. Não sou uma lagartixa, mas sei que, para muita gente, sou como uma, elas me temem sem nem me conhecer e, muitas vezes, mesmo quando conhecem, o preconceito impede o exercício da razão e o reconhecimento do direito do outro de, simplesmente, ser aquilo que se é. Não sei dos índices de assassinatos de lagartixas por decorrência da fobia que elas sofrem, mas sei que o Centro-oeste, entre todas as regiões do Brasil, em 2017, conforme relatório do Grupo Gay da Bahia, ficou em segundo lugar, com uma média de 2,71 mortes por milhão de habitantes, no ranking que classifica as regiões do Brasil em termos de assassinatos LGBTfóbicos. No que se refere especificamente ao Mato Grosso do Sul, no mesmo ano, tivemos 2,95 mortes por milhões de habitantes, este fato levou nosso estado a ser classificado como pior região neste quesito, ou seja, encontramo-nos no terceiro estado com mais assassinatos motivados pela fobia contra pessoas que divergem das normas de gênero e sexualidade.

Não sou uma lagartixa, mas, como elas, sou alvo do medo irracional que as pessoas sentem em relação aos homossexuais. Esse medo não começou hoje nem ontem e, é preciso lembrar, nem sempre existiu. A homofobia, em boa medida, foi produzida pelos discursos médicos e jurídicos. Até o dia 17 de maio de 1990, por exemplo, nós, homossexuais, éramos considerados doentes. Na data em questão, um importante fato aconteceu: numa Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde, decidiu-se pela retirada do termo homossexualismo do código 302.0 da Classificação Internacional das Doenças (CID) e declarou-se, oficialmente, que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio”. Até que se chegasse a essa decisão, para falarmos somente do Brasil, muita coisa se passou do ponto de vista da ciência em relação ao que ela nominava de homossexualismo. Em 1938, por exemplo, Leonídio Ribeiro publicou uma pesquisa completa sob o título de Homossexualismo e endocrinologia, a pesquisa, realizada desde o início da década de 30, assumia um enfoque biotipológico e seu universo equivalia ao contingente de 195 homossexuais obtidos com apoio da máquina policial sob a direção do delegado auxiliar da polícia do Rio de Janeiro, Dr. Dulcídio Gonçalves. Das 195 pessoas presas pela polícia e doadas para as pesquisas de Ribeiro, 12, conforme nos informa o pesquisador, eram homossexuais “não confessos”, mesmo assim foram inclusos nas estatísticas e tiveram os membros inferiores, superiores, diâmetro bilíaco, abdômen, tórax, tronco, altura e peso mensurados na tentativa de se encontrar as razões dos supostos distúrbios da natureza. James N. Green e Ronald Polito, em Frescos Trópicos, afirmam que o próprio Leonídio Ribeiro chegou a admitir, em parte, as dificuldades da biotipologia, ao frisar que “parece temerário pretender fixar características próprias e constantes da homossexualidade”, tanto no que se refere a “elementos corporais” quanto aos “elementos psíquicos”. Importa observar que antes de se chegar à conclusão de que o objeto da pesquisa era uma ficção mal construída, por serem identificadas à homossexuais, e para garantir a estabilidade dessa identificação como natureza, pessoas foram trancafiadas e submetidas, na própria pele, às tecnologias da máquina heterossexual.

Em nosso país, mais do que nunca, precisamos relembrar do dia 17 de maio de 1990, pois muitos dos nossos representantes ainda insistem que somos seres doentes, basta que recordemos o ano de 2017 e da ideia do Juiz Waldemar Cláudio de Carvalho de que os homossexuais, como doentes que são, poderiam ser tratados psicologicamente dessa doença tão perversa que é a homossexualidade. Não somos lagartixas, mas como elas somos perseguidos, torturados e assassinados. Não somos lagartixas, pois elas são perseguidas e mortas pela fobia que se instaura em muitas pessoas que, de imediato, as percebem com medo; nós, os anormais, somos vítimas tanto dessa violência que se apresenta como resposta a uma percepção imediata como dos discursos médicos e jurídicos que insistem em nos afirmar como seres anormais, porém, em relação às lagartixas, temos uma vantagem: podemos nos organizar coletivamente para dizer não à homofobia e denunciar a ignorância que lhe serve de fundamento e que penetra até mesmo os discursos científicos. O dia 17 de maio merece nossa atenção e mobilização, no dia de hoje podemos e devemos exercitar uma capacidade que as lagartixas não têm, a saber, a potência política para gritar aos quatro cantos: homossexuais de todos os países, uni-vos!

(*) É professor de filosofia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMS) e membro do Colegiado do Curso de Informática para internet na mesma instituição, mestre em filosofia moderna e contemporânea pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), licenciado em filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), pesquisador do grupo de pesquisa Educação Profissional, Inovação & Interdisciplinaridade (EDUPI) e do Rizoma: coletivo de experimentações indisciplinares, membro do Coletivo Arrasto. Atualmente participa do Coletivo da Parada LGBT+ e, junto ao coletivo, trabalha na organização da próxima PARADA DO ORGULHO LGBT+ INDEPENDENTE de DOURADOS-MS (https://www.facebook.com/events/2061648017450329/)

Cleiton Zóia Münchow

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