“Lá, como cá”, por Waldir Guerra
"Lá, como cá", por Waldir Guerra
Opinião – 27/10/2009
Waldir Guerra A Lei brasileira restringe o prazo das campanhas políticas, assim como, também exige de quem exerce um cargo público que dele se afaste pelo menos seis meses antes. Mas a volúpia com que o presidente Lula se empenha promovendo a candidatura da ministra Dilma Rousseff dá a impressão que a eleição para presidente será ainda neste ano. Lula já nem disfarça, impõe sua maneira desinibida em todos os palanques que diariamente são montados para apresentar sua pré-candidata, Dilma Rousseff. Do alto de sua imensa popularidade ele nem se preocupa com os alertas do presidente do STF, Gilmar Mendes, sinalizando que o Supremo não vai continuar assistindo, simplesmente quieto, essa campanha desbragada. Se oposição houvesse no Congresso Nacional, algumas ações judiciais já teriam dado entrada no STF contra a antecipação de campanha que o governo vem promovendo. Mas ela, oposição, intimidada pelo crescente prestígio nacional e internacional de Lula, murchou. Na verdade, deputados e senadores estão mais preocupados em suas reeleições, pois em menos de ano terão que disputar outra eleição. Essa questão de antecipação de campanha política não é apenas brasileira; na Argentina está acontecendo isso também. Lá as eleições para substituir a presidente Cristina Kirchner só acontecerão em 2011, mas o casal Kirchner – o marido de Cristina é o ex-presidente Néstor Kirchner – trabalham, desde agora, desesperadamente para “emplacar” o futuro presidente do país vizinho. Aliás, César Maia, em seu blog reproduz com muita felicidade um comentário do historiador argentino, Natalio Botana: “a distância da eleição e a proximidade dessas manobras (campanha antecipada) mostram que a sucessão segue sendo um assunto traumático. Essa sucessão tão distante está provocando um enorme desperdício de esforços quando se deveria estar tratando do federalismo, reforma tributária e política. Tudo está suspenso em nome da eleição presidencial de 2011…”. (Isso não faz lembrar Lula no ano passado?). Natalio Botana cita Perón nesta frase de 1951: “A preparação da opinião pública em um país soberano é parte da soberania que exerce o governo”. Ele resume o que Perón queria dizer: é a articulação estatal sobre os meios de comunicação, reduzidos a um aparato oficial de difusão. Na verdade é o que está acontecendo, não só na Argentina, mas na Venezuela, Bolívia e na maioria dos países sul-americanos – inclua nisso o Brasil também – já que ultimamente os governantes desses países vêm pressionando a imprensa livre para dominá-la e submetê-la aos seus interesses políticos. Especificamente aos interesses de reeleição, ou mesmo na continuidade de seus governos. Olha a Nicarágua aí gente! Repetindo o que diz Botana: “A Lei deve ter a virtude suficiente para cortar as asas da concentração do poder, em especial do Estado”. …”Os efeitos estatizantes são muito mais graves quando os governantes assumem o cargo presidencial com uma espécie de mandato de refundação do país, baseado em uma verdade superior a de seus contrários”. (Não faz lembrar o presidente da Venezuela, Hugo Chaves?) Pois é, aí está uma questão que precisa ser levada em conta, não só pela oposição, (que ninguém sabe por onde anda) mas pela Justiça e por todos os brasileiros: uma tendência geral na América Latina faz com que os governantes – parecem combinados entre si – estão tentando lá fora, como cá dentro, se perpetuarem no poder. Membro da ADL, Academia Douradense de Letras; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal. [email protected]/
Fonte: Folha de Dourados



