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Julio Pompeu: ‘Espectro’

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Julio Pompeu (*) –

À noite, o vazio de gente deixa os amplos espaços do Congresso com ar sinistro. Os estalos dos móveis, estruturas e outros barulhos ecoam amedrontando aos que não estão acostumados com a grandeza barulhenta daquele vazio. Mas pancadas vigorosas, diferentes dos barulhos normais, gelaram de medo os seguranças naquela madrugada. Três novas batidas ecoaram pelos vãos da moderna arquitetura. Os guardas se entreolharam.

– Olha! De novo!
– Deve ser a dilatação.
– Não! Não é. Eu conheço o barulho. Estou aqui há tempos e nunca ouvi nada igual.
– Será que tem alguma coisa se quebrando?
– Não vi nenhuma rachadura.
– Escuta! De novo!

Outras três batidas. Mais fortes que as primeiras.

– Vem de lá.
– Do Plenário?
– É! Tenho certeza.
– Vamos lá.
– Não sei…
– Vamos! Estamos aqui para isso. E, se for algum defeito na estrutura, não vai cair de uma hora para outra.
– Tá bom… Vamos… Mas com cuidado…

Concentraram olhares em quaisquer sombras que lhes parecessem diferentes. Outras três pancadas lhes fizeram voltar os olhos rapidamente para a mesa do Plenário. Um deles quis gritar, mas não conseguiu. O grito entalou a garganta. O outro segurou seu braço com força, meio para apoiar-se, meio para impedir que o outro lhe deixasse sozinho.

– Não pode ser!
– Que horror! Horror! Isto não é deste mundo.
– Você vê? Está vendo?
– Mas não acredito. Não pode ser!

Um espectro luminoso, de expressão circunspecta e tristonha, mas que mantinha certa altivez, ocupava a cadeira que cabe ao presidente das sessões. Segurava em uma das mãos o que parecia ser um livro. A outra mão, espalmada, batia firme sobre a mesa como se quisesse chamar a atenção de uma multidão barulhenta.

– George me falou disso, mas eu não acreditei.
– Como assim?
– Ele me falou de um espírito que habita o Plenário, mas eu não acreditei. Achei que fosse invenção dele. Mas é verdade!
– Não pode ser, essas coisas não existem.
– Aquilo ali é o que então?
– Não sei. Não pode ser.
– Ele me disse que era o espírito antigo. Que está aqui há anos. Que aparece quando as coisas vão mal por aqui. Ouvi que apareceu em 1968, pouco antes do AI-5. George disse que o viu antes do impedimento da presidente Dilma, mas eu não acreditei. Eu não acreditei, mas olha, olha!…
– Há algo de podre na República do Brasil…
– Vou falar com ele.
– Tá maluco? Não tem como saber se é coisa do bem ou do mal.
– Pior que os vivos que andam por aqui todos os dias não pode ser.

Dirigiu-se ao espectro.

– Quem é você?

Outras três batidas secas.

– Horror! Tristeza! Vergonha!

A voz do espectro soou pelo plenário sem que ele mexesse os lábios. Era grave, clara e alta como se os microfones estivessem ligados. Os guardas o ouviam trêmulos.

– Sou a esperança dos desesperançados. O sonho dos ingênuos. A vergonha dos honestos. Sou o pudor, o decoro, e o respeito. Sou a honra, a coragem e a franqueza. Sou a sabedoria, a piedade, a responsabilidade. Sou o rei que jamais reinou neste lugar. O que nunca foi. O que nunca será. O que falta. Sou o cadáver vilipendiado a cada desonra, a cada oportunismo, a cada baixeza dos vivos que habitam esta casa. Sou os que não estão aqui. Os que não podem entrar. Os que das coisas daqui, não podem escapar.

Mais três batidas e o espectro foi-se tão misteriosamente quanto surgiu. Os guardas saíram sem nada dizer um para o outro, prometendo a si mesmos jamais falar do que viram e ouviram. Ninguém acreditaria. Ninguém lhes daria ouvidos. Ninguém por lá quer saber de nada daquele espectro.

(*) Escritor e palestrante, professor de Ética do Departamento de Direito da UFES, ex-secretário de Direitos Humanos no ES.

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