Julio Pompeu (*) –
Soraya está cansada. Exausta. Acabada. O dia não foi pior do que os outros. Foi igual. Seu cansaço não é do esforço exagerado, mas do esforço constante. As poucas horas que tem para dormir dão a impressão de que os dias, todos iguais, emendam-se uns nos outros. Não sabe dizer se é terça, segunda ou sábado porque os dias são todos, sempre, iguais. Soraya está cansada de igualdade.
Por isso ela até gostou de ver aquela cobra enrolada no canto da sala. Uma coisa diferente na sua rotina. Na sua vida. Uma coisa surpreendente, perigosa, medonha, emocionante. Ainda que ela fique só lá, quieta, no mesmo canto em que foi flagrada, com assombro, na noite anterior.
Não sabia o que fazer. “Será venenosa?”, pensou. Fotografou e mandou para quem entende desses bichos. Era uma jararaca. A notícia só fez aumentar a excitação de Soraya agora, oficialmente, com um animal perigoso enrolado no canto de sua sala.
Saiu para viver sua rotina de transporte quente, demorado e desconfortável. Trabalho pesado, mal remunerado e humilhante. Todo o mesmo de sempre. Novidade era pensar na jararaca. Estaria lá quando voltasse? Pensou tanto que até se esqueceu de pensar no assédio do chefe, na intriga do colega e nas contas para pagar. Aquele dia foi igual aos outros, mas foi mágico porque alguma coisa havia mudado em sua mente. Enrolada num canto das suas ideias, estava a jararaca.
Chegou em casa e foi conferir a visitante antes mesmo de fechar a porta. Ela estava lá, parada. Do mesmo jeito que a deixou quando saiu. Do mesmo jeito que a imaginou o dia inteiro. Pensou que estivesse morta, mas como se ouvisse seus pensamentos, a peçonhenta levantou a cabeça e tremulou-lhe a língua bipartida como quem cumprimenta o conhecido recém-chegado.
Os dias foram se passando e, como seus dias, a jararaca permanecia a mesma. Sempre no mesmo lugar. Soraya imaginou que se ela comesse, deveria ser durante o longo período em que não estava em casa. Ela deveria sair, envenenar e abocanhar uma presa qualquer e voltar para seu cantinho da sala só para completar a rotina com uma tremulada de língua para a dona da casa quando ela chegasse.
A jararaca deveria ter sua rotina. Assim como ela. Insuportável como a sua. Soraya também se enrolava num canto da casa e dormia toda noite. Também saía e caçava seu sustento trabalhando e engolindo indignidades em troca do mínimo para seu sustento. Mudava só o canto. A jararaca na sala e Soraya no quarto. A jararaca no chão e Soraya na cama.
A jararaca passou a fazer parte de sua rotina. Era para quem olhava antes de sair de casa e depois de chegar. Não precisava mais pensar alto se ela estaria viva ou morta. Ordinariamente, exibia-lhe a língua assim que ela entrava em casa.
Rotineirizada, a jararaca deixou de ser excitante. Virou coisa normal. Um perigo normal como tantos outros de sua vida cansada. Até pensar nela enrolada no canto da sala virou rotina. Virou cansaço. O mesmo cansaço que tem do ônibus quente e lotado. O mesmo cansaço que tem do trabalho duro e mal pago. O mesmo cansaço da humilhação.
Acostumou-se à peçonhenta do mesmo jeito que se acostumou à violência de sua vida. À brutalidade de sua cidade. À indiferença dos seus compatriotas. Ao rebaixamento de ser vista e tratada como coisa, ferramenta, subgente.
A jararaca veio e ficou. As durezas da vida vieram causando espantos, medos, excitações, dores e ficaram. E de todos os sentimentos chegados, restou à Soraya o cansaço. Só o cansaço.
(*) Escritor e palestrante, professor de Ética do Departamento de Direito da UFES, ex-secretário de Direitos Humanos no ES.
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