José Henrique Marques –
No início deste mês, recebi meu amigo e empresário Joaquim Soares na Folha de Dourados. Por mais de uma hora abordamos vários temas, tendo como pano de fundo nossa Dourados. Rimos bastante de fatos pitorescos, recordamos de outros e também fizemos reflexões sobre a vida.
Assim como eu, o destino levou Joaquim a adotar Dourados para viver. Caarapoense, chegou aqui em 1969, um ano depois de minha família mineira aportar nesse rincão do Brasil. Nós nos conhecemos há várias décadas e somos amigos há muitos e muitos anos.
Nos anos 70, lembro de Joaquim nas ruas do centro da cidade com uma caixa de engraxate, seu primeiro ganha pão para ajudar nas despesas da família. Foi o prenúncio de uma vida dura e honrada, de muito trabalho e sucesso que viria pela frente.
De fato, o menino pobre, trabalhador e perspicaz, Joaquim Soares, tornou-se um empresário e desportista bem sucedido, tendo chegado ao posto de vereador e presidente da Câmara Municipal de Dourados.
Em 25 de abril de 2024, juntamente com a publicitária Maria Antônia Ribeiro, lancei o primeiro volume do livro “Minha história em Dourados” e entre as personalidades estava Joaquim Soares.
Eis a história!
“Dourados, terra que me trouxe muitos amigos e oportunidades”
Joaquim Soares nasceu em Caarapó, em 25 de novembro de 1964. Tem quatro filhos: Joaquim Soares Júnior, 39 anos; Pedro Soares, 36 anos; Bárbara, 17 anos e Bernardo Michel, 7 anos. A família veio para Dourados quando ele tinha cinco anos e foi morar no Jardim Água Boa. O garoto precisava ajudar no orçamento doméstico; então arrumou uma caixa de engraxate e foi para as ruas, à procura de clientes. Joaquim Soares encontrou, na área central da cidade, um ambiente propício para seu trabalho. Foi ali que conheceu figuras importantes da vida empresarial, social e política de então. Essa inserção possibilitou a ele galgar posições, que nunca havia imaginado, em entidades classistas, na política e no meio esportivo.
De Cristalina (município de Caarapó) para Dourados
Em 1969, minha família trabalhava na zona rural, em Cristalina, e resolveu migrar para Dourados. Cheguei aqui com cinco anos. Éramos uma família com vários irmãos e pouca experiência na cidade. Meu pai (na verdade, meu padrasto), seu Adelino, era um trabalhador rural; minha mãe, dona de casa. Ele foi trabalhar em uma máquina de arroz, e minha mãe, como doméstica em residências.
Comecei a trabalhar muito pequeno para ajudar nas despesas de casa. A princípio, andando na rua, oferecendo meu serviço de engraxate. Depois, comecei a frequentar os hotéis, onde eu ia engraxar sapatos na boca da noite. Posteriormente me fixei no centro da cidade. E, graças a Deus, passei a desfrutar da amizade de pessoas do comércio e de outros segmentos que passaram também a ser meus clientes.
Nos primeiros anos em Dourados, atravessamos muitas dificuldades. Para se ter uma ideia, eu pus um sapato no pé, pela primeira vez, quando tinha uns catorze anos. Até então eu andava muito de chinelo. Lembro-me de que esperei cinco anos para comer um frango assado… Tinha um daqueles mostruários no centro da cidade, e eu fiquei durante muito tempo dizendo que um dia iria comprar um frango assado. No quinto ano, fui lá, comprei um frango e o comi sozinho.
Amizades que “lapidaram” a vida
Na época, a área central de Dourados era o ponto de encontro de muitas pessoas que iam discutir as novidades, falar sobre política, futebol e também fazer negócios, como venda de sementes, gado. Tinham pessoas que vinham de São Paulo e do Paraguai e negociavam no Bar Luchese, que ficava em frente ao antigo Cine Ouro Branco. Desde pequeno eu já era corintiano, então eu tinha uma inserção naquele grupo de pessoas que ia lá para discutir os resultados dos jogos, às segundas-feiras. Daí a pouco, além de engraxar sapatos, eu comecei a atuar também como corretor, porque as pessoas vinham me pedir alguma coisa, e, de repente, eu já estava fazendo aquelas correrias.
Então, nesse meio, tive a felicidade de conhecer pessoas que foram fundamentais na minha vida. Uma delas foi o Renê Miguel, dono do cartório. Ele era corintiano, pessoa sensacional; aliás, acho que todo mundo que conheceu o seu Renê sente saudades.
Naquele meio conheci também o Napoleão Francisco de Sousa, pessoa genial, que foi prefeito de Dourados. Conheci ainda, na época, o ex-deputado Roberto Razuk, fato que gerou uma grande amizade e uma convivência fantástica, que já dura tantos anos. Para se ter ideia, foi ele quem financiou a minha primeira cadeira de engraxate, o que deu início a uma convivência de mais de cinquenta anos.
Quando estava maiorzinho, passei a conviver com o deputado Ivo Cerzósimo. Eu fazia a limpeza dos calçados dele, engraxava e tal. Depois conheci o João Totó Câmara; eu ia à casa dele fazer esse tipo de serviço. Outro do qual não me esqueço é o Faé Bianchi, grande esportista, ubiratanense; aliás, eu virei o ubiratanense por causa dele. Lembro-me também do Aderbal Veloso, do José Sauro, o seu “Zé da Volks”. Deus me permitiu que, desde menino, eu tivesse boas amizades; e, sempre ouvindo os bons conselhos, fui moldando meu caráter e criando uma consciência para a vida. Sou grato a eles e às oportunidades que Dourados me deu, ao longo da vida.
Entre as pessoas que me ajudaram, assim como a outros garotos, na época, não me esqueço do “seu” Amaral, diretor do jornal “O Progresso”. Éramos um grupo de meninos que engraxava sapato no centro e só ia embora na sexta-feira, porque nossas casas eram longe. Então, ficávamos ali durante a semana e, às vezes, dormíamos debaixo de uma árvore. De vez em quando, o seu Amaral nos chamava para um cantinho que tinha no jornal e nós dormíamos ali.
O ingresso na política
Quando o Razuk entrou na política, eu morava na região do Jardim Flórida e fui convidado a fazer campanhas eleitorais para ele. Fiz duas. Depois o Razuk deu um tempo na política, e então ajudei também o deputado Zé Teixeira, por duas vezes. Nesse período conheci e fui amigo do Humberto Teixeira, pessoa de coração maravilhoso, que fez o bem para muita gente aqui em Dourados. Era muito religioso, temente a Deus, pessoa que deixou muita coisa boa na periferia.
Também trabalhando na área central da cidade, travei conheci mento com o ex-prefeito Braz Melo, com o ex-prefeito Luiz Antônio. Engraxei o sapato desses prefeitos todos. A verdade é que houve muitas pessoas que passaram na minha vida, nas quais eu me espelhei. Isso porque fui ver uma foto de meu pai somente quando eu já tinha trinta e oito anos; não tive a felicidade e o prazer de conviver com ele. Assim, os amigos preencheram essa lacuna.
O convite para ingressar na política foi feito por dois amigos da época: o ex-vereador João Derli e o advogado Harrison Figueiredo. Eu não me imaginava nesse meio, mas aceitei o convite. Saí candidato a vereador pelo PDT. Fiz minha campanha a pé, não tinha nem uma bicicleta. Fiz 534 votos e até eu mesmo me surpreendi com o resultado. O João Derli foi eleito e eu fiquei como suplente.
Depois atuei na campanha do Roberto Razuk, e, paralelamente, ampliei meu leque eleitoral, tanto que, em 1996, saí novamente candidato e tive 2.240 votos, elegendo-me vereador. No final dessa legislatura, tornei-me presidente da Câmara, cargo que exerci por dois anos. Na campanha seguinte, perdi a reeleição. Nessa época eu tinha começado a me envolver com o futebol.
Paixão pelo Ubiratan
Em 1998 eu já era presidente do Ubiratan e, nesse ano, conquistamos o campeonato estadual. Na época em que assumi, o clube estava vindo de uma administração muito conturbada. Naquele momento, eu não tinha experiência no futebol, mas contei com a ajuda do Rômulo Vieira, um grande amigo. Tive também a ajuda do Amaury Vasconcelos, outro ubiratanense, e do Martinho Barros, pessoa que muito me orientou e ajudou.
Até hoje faço parte da diretoria do Ubiratan. Fui bicampeão em 1999 e vice-campeão em 2000. Aí, paramos um período com o futebol, voltamos em 2013, fomos campeões da série B. Disputei quatro títulos, ganhei três e, em um, fiquei como vice. Já o Razuk foi o primeiro campeão da história de Dourados. Em 1990, ele conseguiu trazer o primeiro título para Dourados naquele jogo histórico contra o Naviraiense, conhecido como “A Batalha de Naviraí”. Posteriormente trouxemos o Corinthians aqui, na Copa do Brasil. Jogamos aqui e em São Paulo, sendo esse um dos grandes feitos da história do esporte douradense.
Ao longo desses anos, as escolinhas do Ubiratan nunca pararam; demos também continuidade ao futebol amador. Aliás, penso que um dos fatores que mais contribuem com a sociedade são as escolinhas de futebol, porque um garoto que está numa escolinha tem a sua formação como homem, como ser humano. Aprende a ser disciplinado, a entender essa grande competição – a vida em sociedade. E a história do Ubiratan tem mais de nove, dez mil atletas que por ali passaram.
Nesse intervalo eu recebi convite e fui trabalhar na administração do Tetila. No último ano exerci o cargo de Secretário de Obras, o que me faz também sempre agradecido ao Tetila pela confiança. Quando a dona Adélia assumiu a Prefeitura, fui convidado para ser Secretário de Serviços Urbanos. Fiquei lá em torno de vinte e dois meses; depois fiquei, por três anos, no gabinete do deputado Neno Razuk. Na sequência, fui, por mais de um ano, chefe do Inmetro em Dourados.
A convite do prefeito Alan Guedes e do deputado Vander Loubet estive à frente da Secretaria de Agricultura Familiar, onde fizemos um trabalho voltado às pequenas propriedades, às aldeias indígenas, aos quilombos e assentamentos.
No Ubiratan, as expectativas também são animadoras. Estamos conversando, fazendo estudos e a proposta é não deixar a história do clube morrer. Estamos fazendo um trabalho com todos os ubiratanenses para que possamos deixar essa história cada dia mais forte, cada dia mais viva. Não podemos nos esquecer do trabalho de pessoas, como o seu Décio Rosa Bastos, um dos presidentes do Ubiratan que fez o trabalho mais bonito na história do Clube. Assim como o Razuk, que também pegou o clube na massa falida e organizou, levou o time a ser bicampeão.
Esse legado e esses feitos precisam ser lembrados e valorizados, tal como a própria história de Dourados, que, a meu ver, vai ser ainda mais grandiosa do que tem sido até aqui.

